Quero a paz dos Campos Elísios. Campos verdejantes, amenos e ensolarados; debaixo de uma sombra, a sombra da serenojovialidade, posso observar as dinâmicas da vida sem me angustiar com a falta de resposta para os problemas que assaltam a Terra. A vida é uma maratona caótica, cheia de percalços e adversários que almejam remover seus oponentes da maratona, achando que ela é uma corrida. Na modernidade, a performance é hipertrofiada e o ócio demonizado. Os algoritmos nos levam ao delírio. As informações contrárias fazem guerra em nossa mente e se multiplicam. Clickbaits e scrollings infinitos enlouquecem a alma que se consome em seis, sete... ou dez vídeos em série.
"Se eu fosse o Diabo, inventaria a internet." alguém me disse certa vez. E pensei: se eu fosse Deus, além de ter que existir, concederia aos homens a dádiva do censo crítico e a capacidade de dizer "não" aos excessos. Aristóteles, aquele que defendeu o geocentrismo, acertou na grande questão da moderação. Segundo ele: "A virtude está no meio entre dois vícios, um por excesso e outro por falta." Se o caminho do meio é a chave para o ingresso aos Campos Elísios, a paz só vem por meio da petulância da guerra. O caminho que Sísifo trilhou, ao enganar a morte, foi de cansaço e fadiga inútil ao rolar uma pedra. "É preciso imaginar Sísifo feliz" ponderou Camus. A guerra é um caminho necessário para que um espírito seja pacificado... não o militarismo, mas a guerra que santifica: “Vocês dizem que a boa causa santifica até a guerra? Eu lhes digo: a boa guerra santifica qualquer causa." disse Nietzsche. Ele estava certo, pois é na guerra que nos descobrimos em nossas contradições internas, a guerra que nos faz querer distorcer o mundo às nossas expectativas. E então, depois de um tempo, chegamos a um doloroso ponto em que nos frustramos por não conseguir caber dentro dessa realidade fabricada do mundo. Nos desfiguramos ao tentar entrar nesse mundinho encantado que criamos para nós. A guerra vira um esforço que deságua em desilusão; a desilusão em humildade para compreender a vida, e a humildade: simplicidade.
O que estou querendo dizer com esse papo diletante? Que a vida não é uma fórmula mágica. Não é um morango, mas um tremendo abacaxi a ser descascado. Nascemos e já recebemos valores de nossos cuidadores, fantasias psíquicas transmitidas pelo convívio, traumas e predileções arbitrárias. Mas eles não sabem disso, ou não nos avisam que isso é apenas um ponto de vista. Talvez eles acreditem que o que eles sabem, seja a mais pura verdade. Então, nós começamos a criar certa maturidade para questionar as verdades de nossos familiares e desembocamos em explorações existenciais. Nos reconfiguramos, corremos atrás da nossa verdade e... questionamos: será que hoje estou melhor dessa forma? Será que sou feliz dentro desses moldes?
Se formos honestos conosco... diremos: não existe uma verdade universal. Sabemos que o que somos, é um papel social construído por uma infinidade de circunstâncias, aleatoriedades, fatalidades e planejamentos. E sabemos que quanto mais colocamos condições específicas para sermos felizes... a felicidade foge de nosso alcance: "Eu serei feliz no dia em que eu casar." E então o sujeito casa e enjoa da esposa, assim como um comilão enjoa de comer batatas fritas todos os dias. "Eu serei feliz no dia que tiver muito dinheiro e não precisar trabalhar." Então o sujeito atinge seu objetivo e depois de meses, fica entediado e procura problemas de forma inconsciente para sair do tédio e da mesmice.
Uma verdade valiosa se traduz no fato de que: somos um eterno poço desejante sem fundo. O desejo sempre persegue a falta e não a satisfação. Se nada falta, desejamos algo que não podemos ter. E então, a felicidade corre, bem como um rato correria de um gato. A felicidade não pode ser acomodada dentro da acumulação de metas futuras. Ela deve se sentar debaixo de uma árvore nos Campos Elísios e observar a grama, sentir o vento e se acostumar com o silêncio da paisagem. Ser feliz envolve acomodar a felicidade dentro de pequenos gestos da nossa realidade; assim: tanto o pobre, quanto o rico serão felizes, apesar de seus bens ou falta deles. Não molestem a felicidade: ela floresce assim como uma criança que leva a vida na brincadeira. "Se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino da Felicidade".