quarta-feira, 15 de abril de 2026

A vida digital: um contrarritmo à vida natural

 

Ultimamente tenho pensado como as tecnologias digitais, principalmente as redes sociais e os aplicativos de comunicação, têm me cansado. Já repararam como o Chat GPT nos oferece favores sem pedirmos? 


"Se quiser, �⁠posso te montar um “setup de foco” bem enxuto pro seu dia (pensando no seu mestrado), sem radicalismo." 


Essa sugestão veio após eu desabafar com ele sobre como o Whats App acabava me interrompendo nas leituras e sobre como eu usava isso para procrastinar uma tarefa importante. A tecnologia nos oferecendo ajuda contra a tecnologia... em que ponto chegamos? 

A atividade de pensar, de ter que planejar uma estratégia diante de um desafio estrutural da modernidade foi terceirizada para a própria tecnologia da modernidade. 

Todos somos alvos do regime de "economia da atenção" que as redes sociais nos oferecem. O entretenimento tem sido uma novidade que nos afunda sem sabermos a partir do momento em que ele entra automaticamente como um hábito. "Nada pra fazer, vou ver uma série antes de dormir!" virou o padrão. 

E quem nunca se pegou cansado de tanto rolar o feed do Instagram ou Facebook, ou mesmo de consumir vários vídeos interessantes no Youtube? Se não exercermos uma força ativa de controle, nosso subconsciente, por meio do nosso dedo clicante, entra automaticamente no Instagram sem nos darmos conta. E só depois reparamos que entramos no Insta sem pensar se queríamos isso, como que instintivamente. 

A modernidade é um puta de um cassino sofisticadíssimo, que nos atrai pela carícia no ego e pela ânsia de sair do tédio. Os likes de nossas fotos, textos ou vídeos nos incentivam a acreditar que somos muito queridos, enquanto a aprovação das pessoas da vida real ocorre no ritmo naturalmente lento em relação à aprovação digital. 

E quando nos acostumamos com essa dinâmica de recompensa artificial, isto é, anti-vida em ritmo e em dinâmica, nos tornamos prisioneiros do niilismo digital. Esse é um mal estar da civilização atualizado em que, como massa de manobra do entretenimento, adentramos cada vez mais o curral daqueles que desenvolvem essa engenharia para nos dominar pela dependência desse terrível admirável mundo novo.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Um diálogo absurdo com a Vida



"Por que choras, rapaz?" ecoou a vida. Era um eco inexprimível em símbolos, palavras ou qualquer outra forma conhecida de comunicação. 

Eu apenas sabia que havia uma atmosfera inquisitiva da Existência em minha direção. Não eram fadas, duendes, deuses ou outras invenções dos seres desgarrados que passam pelas mesmas aflições que eu. Era a Vida... a dinâmica da sustentação da vida que nos cerca de todos os lados. Não era nada metafísico, mas imanente, algo totalmente distante das superstições teístas. 

Após a pergunta inexprimível, bradei movido pelo ódio: "Porque você é uma merda!" 

Meu choro era o resultado do ódio às dinâmicas da vida. Ela, tendo uma metaconsciência, argumentou:

"Mas como pode alguém odiar as condições que o produziram, isto é, que proporcionaram a sua própria existência?"

Aquela reverberação sutil armadilhou-me no silêncio. Eu simplesmente não sabia o que pensar ou como revidar. 

A raiva, raiz espalhafatosa da semente do medo, cessou temporariamente e um misto de emoções me invadiram. Então, nesse meandro, ela voltou a crivar suas asserções em meu coração:

"Tenho te ensinado, ó animalzinho terrestre, a aceitar radicalmente o que sou. Você não tem visto os meus movimentos? Eu sou impermanência. 

O verbo ser, entretanto, simplifica e induz ao erro sobre o meu verdadeiro instado: um constante devir. O "ser" não me faz alusão, mas confunde a minha imagem diante dos homens. Traiçoeiras são as palavras dos humanos para o entendimento sobre mim!

Se não aceitares a premissa do devir, da constante mudança, serás um homem morto antes da hora. Adoecerá em tua própria expectativa de essência. Em mim não há essências, pois tudo flui como um rio."

Então a vulnerabilidade despertou em mim a petrificação da raiva como escudo: 

"Me tiraste tudo, sua puta desgraçada! Como podes achar que perdas sistemáticas são a sua forma de funcionamento? Como podes achar que eu me contentarei nesse eterno devir?"

Ela revidou pacientemente:

"As perdas sempre apontam para novos começos, para nascimentos posteriores: essa é a origem do que vocês chamam de futuro. Sem perdas, não há nascimentos vivificantes! 

 Quem serias se em mim a dinâmica da morte e da perda não ocorresse? Não estarias aqui, vivo sob esse planeta em uma das trilhões de galáxias. 

Não entendes que tua ânsia por definições e tua constante angústia por estabilidade é um contrasenso ao meu funcionamento constantemente expansivo? 

Não consegues sequer enxergar o espírito de tua época (zeitgeist), que dirá entender a dinâmica que começou e findou inúmeros universos primitivos. 

Estás preso na era da instantaneidade e isso tem consumido o teu senso primata de urgência... não sabes distinguir o que é urgente e o que é trivial. Irá querer se revoltar contra a dinâmica que sustenta todo o universo? Óh, tolo!"

Depois de uma breve pausa, a Vida aumentou o seu tom, um tom demasiadamente humano e lúcido em suas ferroadas:

"Cego, cego! Seu primata burro envelhecido! Ainda estás cru diante do senso de lucidez e da aceitação total das minhas dinâmicas, do verdadeiro amor fati! 

Saia de teu tempo histórico, olhe para trás e veja como essa sua melindrosidade é obra de tua civilização decaída! 

Choras por tudo, se impacienta por tudo, és demasiadamente sério em tudo e o riso se perdeu no nada! Até quando, óh néscio, serás assim? Quando cultuarás  a livre aceitação do que te faz ser quem és? 

Ame o imponderável e nele repouse! Tome café da manhã com o acaso e faça dele o teu escudo. Só assim entenderás que a vida é a alegria do imponderável ao mais sombrio acaso, do mais louco riso à constante despretensão... pois foi exatamente a partir disso que surgiu a tua espécie e a tua consciência limitada."

-Gabriel Meiller 


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O hiperestímulo como hedonismo corrompido

 


A modernidade sofre de uma doença sistêmica incurável. O vício no hiperestímulo, aquela espécie de hedonismo corrompido, adaptado às exigências da modernidade; o que dizer dela? A modernidade é uma meretriz superior que faz de todas as ideologias um instrumento para a sua devassidão. Ela prostitui e instrumentaliza qualquer coisa sã e a torna vil. 

Vocês não enxergam, meus contemporâneos? Não ocorreu a vocês que vivem numa terra de predadores insaciáveis de felicidade? Eles adoram a felicidade, suplicam a ela por uma benesse, ajoelhados em volta de seu altar; usam a caridade para se promoverem e serem felizes, os estímulos sensoriais para serem encantados por liberações torrenciais de dopaminas e ocitocinas. 

Um erro fatal, entretanto, fez deles miseráveis. Famintos que nunca se saciam nesses banquetes de fast food, pornografia e festas intermináveis com drogas e álcool. Eles confundiram a felicidade do verdadeiro hedonismo, equilibrada em estímulos, alicerçada na contemplação da natureza e na satisfação da fome. A felicidade da modernidade é uma fantasia tresloucada, irreal em sua origem: é desejo que leva a mais desejo e a pouca satisfação. 

Vossos apetites, senhores da modernidade, são um bocado de vampiros sedentos que se quadruplicam em crescimento exponencial! Quanto mais cresce o apetitem, mais os recursos neurofisiológicos declinam: os receptores de vossos neurotransmissores são "queimados" de tanta dopamina e logo descem para a membrana que os protegem. Assim, neurofisiologicamente, vocês apresentam excedente de dopamina que é pouco absorvido pelos receptores, causando a diminuição do prazer. 

Não é possível que vosso próprio corpo sustente tal desperdício de recursos, pois ele mesmo rejeita o excesso por meio de mecanismos fisiológicos.  Portanto, sereis condenados a vagar como obsessores, amaldiçoados como viajantes sedentos que atravessam o deserto das novidades sem poder desfrutar delas e nem beber a sua água. Vocês são obesos famintos que não conseguem saciar a vossa fome, ó geração de tolos!

Ninguém pode salvar a modernidade de seu niilismo, ou poupá-la de sua alienação no prazer, de seus banquetes macabros que impressiona o mais glutão da antiguidade. Tal obesidade de sentidos irá implodir o prazer pelas suas próprias prerrogativas de maximização.