segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O hiperestímulo como hedonismo corrompido

 


A modernidade sofre de uma doença sistêmica incurável. O vício no hiperestímulo, aquela espécie de hedonismo corrompido, adaptado às exigências da modernidade; o que dizer dela? A modernidade é uma meretriz superior que faz de todas as ideologias um instrumento para a sua devassidão. Ela prostitui e instrumentaliza qualquer coisa sã e a torna vil. 

Vocês não enxergam, meus contemporâneos? Não ocorreu a vocês que vivem numa terra de predadores insaciáveis de felicidade? Eles adoram a felicidade, suplicam a ela por uma benesse, ajoelhados em volta de seu altar; usam a caridade para se promoverem e serem felizes, os estímulos sensoriais para serem encantados por liberações torrenciais de dopaminas e ocitocinas. 

Um erro fatal, entretanto, fez deles miseráveis. Famintos que nunca se saciam nesses banquetes de fast food, pornografia e festas intermináveis com drogas e álcool. Eles confundiram a felicidade do verdadeiro hedonismo, equilibrada em estímulos, alicerçada na contemplação da natureza e na satisfação da fome. A felicidade da modernidade é uma fantasia tresloucada, irreal em sua origem: é desejo que leva a mais desejo e a pouca satisfação. 

Vossos apetites, senhores da modernidade, são um bocado de vampiros sedentos que se quadruplicam em crescimento exponencial! Quanto mais cresce o apetitem, mais os recursos neurofisiológicos declinam: os receptores de vossos neurotransmissores são "queimados" de tanta dopamina e logo descem para a membrana que os protegem. Assim, neurofisiologicamente, vocês apresentam excedente de dopamina que é pouco absorvido pelos receptores, causando a diminuição do prazer. 

Não é possível que vosso próprio corpo sustente tal desperdício de recursos, pois ele mesmo rejeita o excesso por meio de mecanismos fisiológicos.  Portanto, sereis condenados a vagar como obsessores, amaldiçoados como viajantes sedentos que atravessam o deserto das novidades sem poder desfrutar delas e nem beber a sua água. Vocês são obesos famintos que não conseguem saciar a vossa fome, ó geração de tolos!

Ninguém pode salvar a modernidade de seu niilismo, ou poupá-la de sua alienação no prazer, de seus banquetes macabros que impressiona o mais glutão da antiguidade. Tal obesidade de sentidos irá implodir o prazer pelas suas próprias prerrogativas de maximização.