sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Sentimento oceânico e a necromancia vivificadora

 



Romain Rolland, em carta a Freud, descreveu uma experiência mística que teve repetidas vezes como "sentimento oceânico" e que em síntese é a sensação de êxtase e de conexão com o todo e sentimento de algo ilimitado, etc.  


O que Rolland descreveu pode ser sentido de diferentes formas por diferentes pessoas. Mas o que chama a atenção é esta experiência de absorção e impacto deste sentimento. Algo espiritual? Sem dúvida! Transcendental. Mas não está necessáriamente ligado a divindades ou religiões; ateus, agnósticos e simpatizantes da grandeza e da profundidade do conhecimento certamente já sentiram um vislumbre desse sentimento oceânico! 


Minha espiritualidade, assim como a espiritualidade de muitos, é ficar embasbacado com a profundidade e riqueza do conhecimento científico, principalmente quando a cosmologia, astrofísica e outras ciência entram em ação. Quem não navegou por estes territórios e ficou pensativo, impactado, intrigado... e se sentiu imerso nesse oceano de emoções diante da complexidade e mistério do universo? 


A ciência é esta vela no escuro, como metaforou o amado Carl Sagan; este, acima de tudo, nos ensinou esta "espiritualidade científica", ou seja, esse entusiasmo ao encarar a ciência de uma forma vivificante e não mais tediosa como faria um adolescente do ensino médio entediado e sonolento. 


O sentimento oceânico me toma conta, principalmente nas madrugadas e nos momentos em que transito por vários temas transdisciplinares. Gatilhos são ativados e levam a outros temas e... de repente me sinto agoniado por não conseguir devorar todos esses macro-assuntos, pois isso levaria décadas de estudos. Então me sinto afogado em um oceano epistemológico e com uma voracidade que não prosseguiria sem árdua e constante disciplina. Este é o momento em que me afogo e desejo a onisciência fantasiosa expressa na Bíblia. 


É na constatação de minhas limitações cognitivas e existenciais perante toda a existência que eu posso falar como Paulo de Tarso: "Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento... da existência!".  Pois a existência é palco de todos os fenômenos que são maiores do que as interpretações humanas desses fenômenos. Temos no nosso imaginário coletivo todas as contradições possíveis e que são produto da tentativa de dizer o que de fato é a existência. 


Alguém pode mesmo dizer o que é a vida? Para nossa impotência existencial, nasceram os nossos ídolos. O homem, fraco por natureza, concebeu um deus todo poderoso; limitado em conhecimento, concebeu um deus onisciente; pequeno e presente somente a um lugar por vez, imaginou que estaria sendo vigiado e seguro pelo vigilante que estaria em todo lugar: o onipresente. E então, ao invés de conhecer e expandir seus conhecimentos, o homem covardemente se enclausurou na Idade Média, entregando a riqueza do mundo ao seu ídolo asqueroso e impertinente. O conhecimento foi considerado pecaminoso e pervertedor. Esta era de obscurantismo somente teve fim quando o homem se revoltou contra este ídolo e voltou aos caminhos do amor pela Sabedoria. Sim, ela! A dama seduzente e extasiante que faz a humanidade se perder em suas curvas; que dá ao homem o terror e o entusiasmo pelas incertezas dos rumos do universo. 


Ela nos retirou da era da escravidão medieval e nos levou a um novo caminho; incerto, é claro! Aonde não sabemos para onde iremos, como advertiu Nietzsche; mas que nos faz peregrinar pelo vale da liberdade em saber que somos humanos, demasiado humanos. Presos e escravizados; não por deuses, mas por nossas vontades e desejos. E isto, a responsabilidade sobre nós pelas tragédias e grandes feitos, é o que mais importa e nos dignifica. E não a covarde transferência para outrem; não a confiança a "Ele" ou "Eles"... mas a nós! E isto nos basta! 


E ao retornar de meu delírio e êxtase, sento a bunda na cadeira e me preparo para ser consumido neste fogo consumidor. Disposto a navegar pelas correntes que me levem a algum ponto deste oceano epistêmico. Leituras e reflexões atrás de mais leituras e reflexões; ergo sacrifícios nestes altares em que a tinta dos que morreram a muito tempo, clama percepções e pontos de vista por meio de livros. Então me comunico com estes mortos e sou levado ao além do senso comum, tido como louco por uns... lúcido por outros. 

-Gabriel Meiller

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