quarta-feira, 8 de abril de 2026

Um diálogo absurdo com a Vida



"Por que choras, rapaz?" ecoou a vida. Era um eco inexprimível em símbolos, palavras ou qualquer outra forma conhecida de comunicação. 

Eu apenas sabia que havia uma atmosfera inquisitiva da Existência em minha direção. Não eram fadas, duendes, deuses ou outras invenções dos seres desgarrados que passam pelas mesmas aflições que eu. Era a Vida... a dinâmica da sustentação da vida que nos cerca de todos os lados. Não era nada metafísico, mas imanente, algo totalmente distante das superstições teístas. 

Após a pergunta inexprimível, bradei movido pelo ódio: "Porque você é uma merda!" 

Meu choro era o resultado do ódio às dinâmicas da vida. Ela, tendo uma metaconsciência, argumentou:

"Mas como pode alguém odiar as condições que o produziram, isto é, que proporcionaram a sua própria existência?"

Aquela reverberação sutil armadilhou-me no silêncio. Eu simplesmente não sabia o que pensar ou como revidar. 

A raiva, raiz espalhafatosa da semente do medo, cessou temporariamente e um misto de emoções me invadiram. Então, nesse meandro, ela voltou a crivar suas asserções em meu coração:

"Tenho te ensinado, ó animalzinho terrestre, a aceitar radicalmente o que sou. Você não tem visto os meus movimentos? Eu sou impermanência. 

O verbo ser, entretanto, simplifica e induz ao erro sobre o meu verdadeiro instado: um constante devir. O "ser" não me faz alusão, mas confunde a minha imagem diante dos homens. Traiçoeiras são as palavras dos humanos para o entendimento sobre mim!

Se não aceitares a premissa do devir, da constante mudança, serás um homem morto antes da hora. Adoecerá em tua própria expectativa de essência. Em mim não há essências, pois tudo flui como um rio."

Então a vulnerabilidade despertou em mim a petrificação da raiva como escudo: 

"Me tiraste tudo, sua puta desgraçada! Como podes achar que perdas sistemáticas são a sua forma de funcionamento? Como podes achar que eu me contentarei nesse eterno devir?"

Ela revidou pacientemente:

"As perdas sempre apontam para novos começos, para nascimentos posteriores: essa é a origem do que vocês chamam de futuro. Sem perdas, não há nascimentos vivificantes! 

 Quem serias se em mim a dinâmica da morte e da perda não ocorresse? Não estarias aqui, vivo sob esse planeta em uma das trilhões de galáxias. 

Não entendes que tua ânsia por definições e tua constante angústia por estabilidade é um contrasenso ao meu funcionamento constantemente expansivo? 

Não consegues sequer enxergar o espírito de tua época (zeitgeist), que dirá entender a dinâmica que começou e findou inúmeros universos primitivos. 

Estás preso na era da instantaneidade e isso tem consumido o teu senso primata de urgência... não sabes distinguir o que é urgente e o que é trivial. Irá querer se revoltar contra a dinâmica que sustenta todo o universo? Óh, tolo!"

Depois de uma breve pausa, a Vida aumentou o seu tom, um tom demasiadamente humano e lúcido em suas ferroadas:

"Cego, cego! Seu primata burro envelhecido! Ainda estás cru diante do senso de lucidez e da aceitação total das minhas dinâmicas, do verdadeiro amor fati! 

Saia de teu tempo histórico, olhe para trás e veja como essa sua melindrosidade é obra de tua civilização decaída! 

Choras por tudo, se impacienta por tudo, és demasiadamente sério em tudo e o riso se perdeu no nada! Até quando, óh néscio, serás assim? Quando cultuarás  a livre aceitação do que te faz ser quem és? 

Ame o imponderável e nele repouse! Tome café da manhã com o acaso e faça dele o teu escudo. Só assim entenderás que a vida é a alegria do imponderável ao mais sombrio acaso, do mais louco riso à constante despretensão... pois foi exatamente a partir disso que surgiu a tua espécie e a tua consciência limitada."

-Gabriel Meiller 


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