sexta-feira, 24 de julho de 2026

A ingenuidade da ânsia por definições

 

"É que ele é muito ansioso, sabe? Tem um problema com ansiedade..." disse meu pai ao pedreiro que estava reformando a minha casa. Ele tem toda a razão, eu sou muito ansioso, um neurótico por excelência; entretanto, o que ele talvez não tenha pensado é que eu sou ansioso porque fui criado por ele. 

Ah, seu Flávio, não seria o Gabriel um mini Flávio? Um Flavinho? Com toda a certeza! A grande questão é que a sua rigidez ao me criar e exigir de mim que eu tirasse na escola "de 8 para cima" e ao me punir quando eu levava bilhete, foi um dos fatores que fizeram de mim um ser que quer conhecer muito bem o chão aonde estou pisando. 

Para Lacan, um importante psicanalista, o desejo do Outro é algo que pode trazer ansiedade para os neuróticos. "O que o Outro (instituições chefes, tradições, pais, etc...) quer de mim?" se pergunta o neurótico. E então a angústia da indefinição, das incertezas, começam a perturbar o indivíduo que possui a necessidade de corresponder ao Outro. 

Se a punição ocorre como uma forma de corrigir o indivíduo por não saber o que o Outro, ou melhor, o que o Flávio queria... então o indivíduo tende a querer evitar a punição ao descobrir o que o Ou..., melhor,  o que o Flávio quer. 

Soa grandemente irônica essa constatação flaviana. Ele é quem colaborou para produzir tal ansioso de quem se queixa, e então agora quer que ele não seja mais ansioso. Soa uma piada de mau gosto, uma trolagem de décadas, uma tremenda incoerência daquelas de um artista que pinta um quadro com muito esmero e depois diz que ele ficou uma merda! Mas levemos na esportiva esse tipo de atitude humana, demasiada humana. 

Após anos em terapia, eu descubro que nunca é possível corresponder ao desejo do Outro, ou melhor, saber realmente o que o Outro quer. Vejam o Flávio, por exemplo:  queria que eu fosse um bom estudante e eu não fui na época escolar; mas agora que eu sou um inteligentinho que reflete sobre tudo, inclusive sobre os males da religião e daquilo que chamam de deus, bem como sobre a moral cristã (coisas que podem afrontá-lo, visto que ele é cristão), então talvez não tenha sido tão bom que ele desejasse que eu fosse estudioso. 

Estudar para criticar a educação cristã que ele me deu? Aí já seria too much! O que quero dizer com isso? Que nem mesmo o Outro (Flávio), sabe o que deseja. Então por que eu irei gastar energia para corresponder neuroticamente às pessoas por meio da ânsia por definições? 

As estruturas da linguagem, principalmente a escrita verbal, são estáticas. Mas as dinâmicas da vida e as vontades das pessoas não são! A definição faz parte da linguagem; mas o Real, a vida e suas dinâmicas são o oposto! Há uma constante impermanência que faz parte do universo. Ser um neurótico que tenta buscar certezas por meio da linguagem é um sinal de INGENUIDADE, visto que a vida não é feita de certezas, mas de mudanças. 

Então eu entendi que devo largar a minha ânsia por definições e o meu conhecimento a priori, que é limitado; e cultivar o conhecimento empírico que se manifesta nas relações. 

O que adiantaria, por exemplo, eu querer saber se uma pessoa é ciumenta ao perguntar isso a ela? É provável que nem ela saiba me dizer, pois as pessoas também são "Flávias", também se contradizem, também acham que sabem o que querem, mas mudam constantemente. 

E se o leitor perguntar: "Mas você tem raiva ou ressentimento do seu pai?" Eu direi: "Não... ele é humano, demasiado humano assim como eu, assim como todos." Ele me ensinou o aspecto mais caro da humanidade: a ambiguidade e a incerteza das dinâmicas da vida. 

-Gabriel Meiller Nunes



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