domingo, 16 de dezembro de 2018

O Caso João de Deus e o que ele simboliza na nossa sociedade



  O caso recentemente muito divulgado sobre o médium e líder espírita chamado João de Deus, nos desperta como sociedade e traz à tona algumas questões discutidas a muito tempo. Como por exemplo, o uso da fé com fins lucrativos, estelionato e charlatanismo. Mas, agora, quero falar sobre dois assuntos mais importantes ao meu ver: os efeitos do poder na mente humana; e o machismo atuante na sociedade patriarcal judaico-cristã brasileira. 

    Na reportagem do Fantástico, do dia 16/12/18, disponível no Youtube (no link que deixarei no final do texto) e em outros vídeos que abordam sobre o estuprador e assediador João de Deus, as menções de muitas denúncias são uma realidade; mas também há casos em que, por exemplo, uma denunciante chamada Camila, que tinha apenas 16 anos na época, foi assediada pelo médium. E quando, após a denúncia, houve o julgamento do caso, João de Deus foi inocentado pela juíza que o julgou.

  Uma outra denúncia feita em 1980, de uma jovem de também 16 anos na época, não foi levada a diante (não se sabe exatamente o por quê disto). Porém, o que foi explicitado nos vídeos ficou muito claro: Abadiânia, no estado de Goiás, cidade em que vivia João de Deus, era dependente de sua fama internacional. Os comércios, os empregos e instalações que giravam em torno da cidade, eram sustentados pela fama de João de Deus e sua instituição espírita. Sua influência na cidade era muito clara e nem o prefeito tinha tanta influência e poder de decisões como tinha o líder carismático. Além de sua filha mais velha ter denunciado João de Deus por estupro, até o momento as denúncias estão em torno de mais de trezentas mulheres. E como, antes desta divulgação, poderiam haver denúncias na cidade em que o comércio e tudo girava em torno deste homem? Iriam as autoridades denunciá-lo naquele momento e acabar com a prosperidade local? Jamé!

  Este caso nos relembra que a voz da mulher sempre foi, de maneira geral, relativizada em nossa sociedade; em que vítimas cotidianas de abuso relatam que o delegado tentou convencê-las a não prestar queixas, acreditando, em uma lógica machista, de que o fato da mulher ter usado roupas curtas e dado atenção, era porque queria sexo e ser estuprada. A lógica da demonização da mulher como aquela que seduz o homem e o engana, vem desde o relato dos judeus em Gênesis: em que Eva engana Adão e o seduz a comer do fruto. Presente também na mitologia grega, na Caixa de Pandora, que foi a primeira mulher criada por Zeus em que ela abre a caixa (na verdade era um jarro) que libera todos os males do mundo. Ou seja, os gregos e os hebreus culpabilizam a mulher em seus mitos por toda desgraça no mundo; trágico paradoxo contradizente.

  Enfim, sendo breve, eu afirmo que a nossa sociedade ainda é machista e que o próprio machismo é enraizado na mentalidade de alguma porcentagem de mulheres que se enxergam como um objeto de domínio e também se utilizam dessa posição para conseguir privilégios dos homens. Embora existam as que lutem pela causa de seus direitos e não se curvam a este domínio cultural androgênico (o homem como base nas designações de termos e conceitos, por exemplo: "o homem" como representação da humanidade, da raça humana).

  Outra questão prometida ao começo do texto, refere-se aos sintomas do poder na mente humana; o fato de alguém ter muito poder, admiração e prestígio para si, significa uma sensação esmagadora (na maioria dos casos) desta pessoa estar acima da lei, da ética e da moral, sentindo-se mais à vontade para fazer o que bem deseja, mas que antes não podia, pois era reprimida no cotidiano, devido a sua posição que antes era comum na sociedade. O poder também, segundo um artigo publicado no site Época Negócios (link no final do texto), fala sobre como este poder desmedido afeta as estruturas neurológicas do cérebro, em que a: "...pesquisa semelhante, da Universidade McMaster, em Ontário, Canadá, confirmou essa conclusão: ao analisar tomografias cerebrais de participantes, constatou que aqueles com maior sensação de poder bloqueavam um processo neural específico, impedindo a manifestação de empatia."

   Certamente João de Deus, por estes e/ou outros fatores, como sua grande influência internacional e local, se sentiu à vontade para, em uma cultura machista que relativiza a voz da mulher, usar o seu poder e influência para aliciar, assediar e estuprar suas vítimas em prol de uma suposta cura espiritual, usando também a religião como mais um meio de domínio sobre suas vítimas.
#Prosador
Links:
"JOÃO DE DEUS NO FANTASTICO":
<https://youtu.be/Y6yRm6oIGKc>
Acesso em: 17/dez/2018.
"Como o poder afeta nosso cérebro":
<https://epocanegocios.globo.com/Carreira/noticia/2017/11/como-o-poder-afeta-nosso-cerebro.html>
Acesso em: 17/dez/2018.
"Caixa de Pandora":
<https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Caixa_de_Pandora>
Acesso em: 17/dez/2018.
Imagem disponível em:
<https://www.google.com/amp/s/veja.abril.com.br/brasil/delegado-diz-que-padrao-de-denuncias-motivou-prisao-de-joao-de-deus/amp/>
Acesso: 17/dez/2018.

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