segunda-feira, 28 de outubro de 2024

O alcance da serenidade após a flor da juventude



Devemos ponderar que a melhor fase da vida não existe por diversos fatores, mas principalmente pelo fator subjetivo, isto é: não se mensura felicidade; também não existe uma verdade absoluta que fuja da relatividade humana e que seja imutável. 


Mas por favor, caros leitores e leitoras, sejamos crianças e brinquemos um pouco de falar qual é a melhor fase da vida de forma inocente. Eu começo: a melhor fase da vida é após a juventude impetuosa que costuma ir embora após os 30 anos, senão no final do segundo decênio. É nesta faixa transicional em que a maioria das pessoas na sociedade ocidental capitalista percebem que para a felicidade é necessário: maturidade (alcançada por sofrimentos e erros) e simplicidade (que diminui o excesso de estímulos e aproveita a vida de forma serena). Essa fórmula ocorre quando a impetuosidade jovem entende que não pode abraçar o mundo e nem fazer tudo ao mesmo tempo, pois assim nunca fará nada. 


Se não se pode servir a dois senhores por agradar a um e desagradar o outro, ou ainda a ambos; o que dirá servir a todas as expectativas do sistema? É necessário renunciar algumas posições para colocar outras em prioridade. É vital brincar uma brincadeira por vez, degustando as delícias que a vida coloca em nossa mesa. Um menu à la carte, ao invés de festival ou rodízio, começa a aparecer mais vezes nas mesas daqueles que passaram da comilança furiosa da juventude do espírito adolescente para a ruminação dos mais maduros.


É importante passar pelos festivais e desbravar o mundo; pois isso trará à alma jovem em transição a maturidade para ser seletiva em sua fase mais madura e serena. Não existe serenidade sem o processo de desfiguração que a vida corrida e ansiosa causa no indivíduo. Não é possível desfrutar da paz sem antes ser espancado pelos golpes de angústia que a vida desfere àquele que janta seu banquete amargo de consequências de processos corrosivos de anos de juventude, obcecado pelo prazer sem limites e sem ponderação. 


Aos que se fazem como exceção da regra... chamo-lhes de forma veemente de mentirosos ou pobres coitados que perderam o parâmetro para entender o que é a vida serena, porque não passaram pelo contraste da agitação. A vida é esse contraste em que uma coisa só é uma coisa, porque a outra coisa é outra coisa! Ou seja: pelas diferenças que se definem e se ressaltam no campo simbólico e no processo de conhecimento contrastante do qual a vida é feita. 


-Gabriel Meiller

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

A doença do homem teórico



Ele acordou, doente e sob coriza do resfriado que o abateu pela imunidade baixa. “Não se estresse”, pensou. Mas já era tarde. “Então não chore, ao menos…” falou a si mesmo, sabendo que viver num mundo sem controle era se sujeitar às doenças, à falta de sentido e ao niilismo profundo. Aquele niilismo que nos abate como resultado do peso das escolhas difíceis, das tentativas de dar sentido ao que não possui nenhum sentido inerente. 


“Para quê arrumar a cama se irei bagunçá-la daqui a pouco?”, pensou a alma que atingiu os trinta anos com um experiência anciã. E essa lógica razoável acompanhou o raciocínio sobre a vida: “para que irei viver se daqui a pouco deixarei de existir para todo o sempre?”


Viver era um hábito e por esse motivo ele “arrumou a cama” que era a sua vida. Era uma mente talentosa e muito hábil, talvez por esse motivo estava com aqueles pensamentos típicos de quem vive na escuridão da profundidade reflexiva. Vida após a morte? Para ele era uma tentativa de negar a loucura da existência.


“Eu nasci por obra do acaso da vida em um planeta de uma galáxia entre trilhões de outras… após bilhões de anos. E irei morrer e deixar de existir por muitos outros bilhões de anos. Até mesmo o tempo deixará de existir depois de ‘um tempo’...” e ao pensar nessa ironia complexamente trágica, deu gargalhadas de loucura. 


Ele era um sujeito de lua; socializava apenas quando desejava, nos ambientes que frequentava. Sempre tinha críticas ácidas, mas proferia apenas a minoria delas para os ouvintes. Era conhecido por oscilações de humor ao irromper em empolgação algumas raras vezes, mas tipicamente era quieto na maioria dos dias. Eram tempos difíceis para aquela criatura ensimesmada em si e pouco altruísta. Ele se fechava como uma tartaruga que se põe para dentro do casco após constatar algum pseudovestígio de perigo. 


“Somos feitos de colônias de bactérias e muitas interferem no nosso humor, principalmente as do intestino. Nossa consciência, chamada ingenuamente de Eu, é apenas uma consequência de muitas formas de vida microscópicas que nos habitam. Existem inúmeros sistemas sincronizados em nós e somos apenas uma extensão do cérebro. Não existe um Eu, nem um software que chamamos de alma ou espírito…” pensou enquanto estava rodeado de pessoas em uma fila qualquer, em um lugar comum e desprezível. 


Essas verdades são duras demais para qualquer ser humano digerir quando se pensa sériamente nelas. Elas devem ser evitadas pela maioria e são tratadas de forma esquiva pelo homem prático, pragmático e que sobrevive pelas fantasias metafísicas. Então, uma grande campanha inconscientemente suicida se abateu sobre aquela personalidade retraída que de forma inconsciente estava cansada de temer a morte e resolveu encará-la. Ele se tornou adepto de esportes radicais, estilos de vida agitados que trouxessem riscos. Ele se dedicou ao skydiving, mergulho livre, base jumping, surf em grandes ondas do Havai e Parkour. 


Desafiar a morte e encará-la como parte do cotidiano, sem vê-la como uma indesejável das gentes, era seu objetivo. Era isso um grito de liberdade? Uma tentativa de sair do niilismo profundo e da desvalorização da vida? Ele sabia racionalizar paixões profundas e por isso mal se permitia vivenciar medos. Talvez por isso se aventurou nas loucuras de esportes de ação. Havia começado em sua vida uma era de autoconhecimento forçado, instintivo, prático. Então esse antigo homem teórico que ficou conhecido por não temer a morte, nem a falta de sentido dela, se tornou mais prático e concreto. 


Ele se aproximou de sua natureza animalesca como qualquer outro animal do planeta Terra. Houve redenção neste homo sapiens através da volta à sua natureza primitiva. O pecado original, conhecido pela extrema racionalização e abstração do pensamento, caiu por terra quando a vida foi encarada fora do espectro teleológico. Então em um dia segundoso e chuvoso, após acordar de ressaca, ele arrumou sua cama sem pensar em qual seria o sentido disso. Esse foi o sinal de que sua doença antinatural e abstrata, entrou em remissão! 


-Gabriel Meiller

domingo, 18 de agosto de 2024

Resposta a perguntas covardes com o entusiasmo de uma criança

   


Fluxo e refluxo. O movimento da maré é uma peça em um enorme quebra cabeça. Mas uma peça que contém uma dinâmica que está presente  no macro do quebra cabeça inteiro. A natureza da existência é intrigante e muitos aspectos gerais estão impressos em processos específicos diversos. Tornemos mais concreto esse raciocínio tão enfadonho quanto um acadêmico que escreve artigos: A comunicação é essencial para os seres humanos, certo? Uma comunicação transmite algum tipo de mensagem, seja oral (humana), seja por meio de muitos sinais. Tomemos o exemplo dos sinais que as raízes das plantas (outros seres vivos com outro tipo de consciência) passam umas as outras por meio de sinais químicos e que passam informações até mesmo sobre o ambiente. Uma planta atacada por um inseto ou praga, emite sinais para que as outras produzam defesas contra essa praga. Também podemos usar o exemplo da comunicação de células dentro do nosso corpo, outro tipo de universo; o cérebro recebe mensagens e manda mensagens por meio dos nervos e neurônios espalhados por todo o corpo e por meio de impulsos elétricos, isto é, a eletricidade como fonte energética. O que é tudo isso senão uma forma muito sofisticada de comunicação? Esse é apenas um exemplo dos mecanismos que estão aí para serem desvendados no universo. Somos exploradores jogados no universo por meio de seus próprios mecanismos e da aleatoriedade, somos a própria vida que ganhou consciência sofisticada e que desvenda a si mesma por meio do pensamento simbólico. O que é o universo? Essa pergunta é semelhante à primeira pergunta chamada como a mais covarde (sobre o que é a vida). Mas arrisco aqui a reduzir propositalmente a resposta do irrespondível ao dizer: o universo é um mistério; uma escuridão que revela cada vez mais surpresas conforme nos aproximamos com uma pequena vela que o perscruta. Mas nossa diversão é como o tempo do intervalo: mal começamos os empreendimentos e o sino da morte já se põe a tocar. Nossa luz é pequena, finita do tamanho do corpo de nossa vela, mas nem por isso… menos válida e genuína. 


-Gabriel Meiller 


sábado, 3 de agosto de 2024

O choque relativista e a luta contra o excesso do niilismo

    

Quando nascemos e somos lançados ao mundo... estamos germinando a nossa consciência que possui o tamanho de um grão de mostarda. Somos ao nascer mais vulneráveis do que os demais seres que, mesmo possuindo algum grau de conhecimento, são espancados pela existência e sua complexa falta de sentido inerente. Se um adulto muitas vezes se mata paulatinamente por meio do abuso de substâncias nocivas como as drogas em geral (legalizadas ou não) e ainda se embriaga por meio das ideologias laicas ou religiosas... como teria uma criança qualquer estrutura para enfrentar a inerente falta de sentido da vida ou sequer entender o que é a vida ou partes dela?  E a tragédia ocorre quando o suicídio se torna um ato de desespero para a fuga da vida e suas dores. 


É por esse motivo que a humanidade venerou em massa as crenças religiosas durante sua primitividade e ainda continua nessa veneração. Mas as crenças religiosas são apenas um aspecto da veneração humana. Todas as narrativas em geral são tidas como absolutas pelo ser humano. As crianças são ensinadas de que existe uma verdade universal, bem como um certo e errado universal. É necessário que o conto de fadas da verdade seja ministrado a todos na fase inicial. Entretanto, conforme crescemos, naturalmente somos levados a espaços relativizantes e fronteiriços entre a verdade e a mentira. O choque de culturas promove esse questionamemto mais profundo: se existem vários modos de crer, comer, amar e vestir... existe um certo e um errado que não seja relativo a algo ou alguém? Todo certo é relativo a algo; toda beleza é bela em relação a outra. Nada é algo em si mesmo, mas integrante de um todo o feio e o bonito dependem de si para existir; não haveria um sem o outro.


Se o indivíduo for extremamente dogmático, ele dirá: há somente uma verdade e um certo. O resto é um erro, uma deturpação do verdadeiro. E o verdadeiro é o meu jeito!  


Essa atitude marca a infantilização epistemológica de pessoas que não sabem lidar com o âmago do niilismo: se não existe uma  verdade imutável e universal, para que serve a vida? Então preferem venerar a verdade e distribuir a mentira às demais ideias e culturas.  A falta de sentido provocada por algum grau de relativismo é evitada a qualquer custo pelos seres humanos mais frágeis. Outros se refugiam no niilismo através da passividade e da falta de ânimo atráves do raciocínio: se a vida não tem sentido pela ausência de verdades universais... para que viver? Se nada faz sentido... que a vida passe como um sopro e seja apenas uma lembrança esquecida. 


Entretanto, uma resposta ao niilismo mais sadia pode ser contemplada: a vida não tem um sentido inerente... mas criemos esse sentido e nos alegremos pela liberdade que a falta de sentido nos traz. 


O relativismo ao ser bem administrado pode ser uma forma de libertação das narrativas mais enclausurantes das ideologias. As diferentes perspectivas de algo são navalhas que cortam as camisas de força dos ideais e entregam o homem à sua própria sorte: para o bem e para o mal. 


-Gabriel Meiller 




quarta-feira, 31 de julho de 2024

A arte da nuance como lente para interpretar as ideologias: o ideólogo trouxa e o canalha bon vivant.



Mais do que as ideias em si mesmas, carece-se de artesãos eficientes que sabem podá-las. O mundo clama por pessoas que ultrapassem o dogmatismo inebriante. A paixão é famosa entre todos por ser um ente que nos cega para os defeitos daquilo que se é venerado. O apaixonado torce seu senso crítico e busca o engenho para que suas ideias caibam no mundo de forma integral. As ideologias são essa famosa lente que distorce o mundo e o idealiza para que ele sirva às expectativas do apaixonado.  "A ideologia", certa vez entreouvi em algum lugar imemoriado, "... é o cadáver da filosofia."  Isto significa que a busca pelo senso crítico é sufocada pela ideologia sob a esperança de que os fins justificarão os meios, inclusive por meio do sufocamento do senso crítico e das amarras imputadas ao livre questionamento. 


Então a filosofia, morta por sufocamento, vira um cadáver chamado: ideologia. Já sem vida, a filosofia ainda é vista como tal por nós ingênuos, que defendemos com gosto e acariciamos nossas paixões ideológicas. A verdade? Ela só vale se estiver de acordo com nossas crenças, caso contrário é um meio que não justifica o fim desejado. 


Coloquemos em voga o exemplo político: aqui temos os que defendem as ideologias progressistas de esquerda e que valorizam os seguintes tópicos: coletividade, igualdade, controle estatal, pautas de ideologia de gênero e a luta pelo respeito à diversidade. Todes es progressistes defendem um mundo em que a acumulação de capital seja extinta ou minimizada ao máximo possível. 


Acolá, à direita, temos os que valorizam: a propriedade privada, a individualidade, a meritocracia que se opõe a igualdade artificializada pelo Estado; a desestatização, diminuição dos impostos e o controle privado em muitas áreas (mas não nas mais essenciais como saúde, educação e segurança) e pautas religiosas e sobre a família tradicional. 


Ambos os ideólogos estão comprometidos com suas paixões mais do que a verdade e por isso colocam suas lentes cadavéricas e se recusam a tirá-las. Abominam o "talvez", sendo idólatras de suas verdades dogmáticas. O esquerdista usa pautas coletivas e força a militância para causas pessoais e autopromoção. Junta-se o melindre de uma geração que nasceu em meio às facilidades da era digital com a disposição militante-progressista e então o mundo precisa se curvar a estes e serví-los.  O direitista deposita a idealização de que o Estado deve ser feito para ele: não deve gastar com projetos sociais, arrecadar a menor quantidade possível de impostos "desnecessários" pelo fato de não serem serviços direcionados à sua classe econômica. Um bom estado para este meritocrático que conseguiu tudo pelo berço é aquele estado econômico e minimalista. Para ele tudo é "mimimi", visto que nunca passou por apertos financeiros, demandas intermináveis e cobranças de superiores. 


Então, quando as lentes são amplificadas por meio da extrema direita e extrema esquerda... os mundos são incomunicáveis. O diálogo é encerrado e ambos os ideólogos se relacionam com as fantasias que produzem do outro: o outro é mau, o outro é burro, injusto, cego e mentiroso. E então o cadáver da filosofia, isto é, a ideologia... é envolto em um caixão alienante, chamado: bolha social. Uma bolha social é um isolamento cruel ensimesmante, um conjunto de narcisistas assassinos do senso crítico, quase canalhas. Não digo que sejam canalhas porque são apaixonados e deduzo que todo apaixonado não pode ser canalha, a não ser um canalha como meio para se chegar ao fim desejado. Mas o canalha em si é um desapaixonado que faz canalhices por belprazer. 


Quem são os canalhas? Os políticos. Esses são verdadeiros profissionais que encenam seu culto ao cadáver da filosofia, mas na essência só se preocupam com o dinheiro no bolso: o dinheiro desviado dos impostos, todos sabem. No final das contas uma verdade filosófica e empírica, que se distancia  muito da ideologia, eu lhes trago: os canalhas podem ser tudo, menos trouxas. Os trouxas são os ideólogos,  enquanto os canalhas: bon vivants muitas vezes à prova de karma. 


-Gabriel Meiller

quarta-feira, 24 de julho de 2024

O motivos da incompreensão de Nietzsche e sua filosofia


Por que muitas pessoas não entendem o famoso Bigodudo e ainda o declaram como um louco e anarquista apocalíptico da moral? Eis aí a raíz de um prejuízo (pré-juízo) que causa um verdadeiro prejuízo aos que desejam entender Nietzsche. 


Quais são as os motivos principais da distorção que muitos fazem da filosofia de Nietzsche?  


1)Difamação cultural. 

Nietzsche sofreu por muito tempo difamações de sua filosofia, causadas pela sua irmã que manipulou seus escritos para que o nazismo se vinculasse à fama do filósofo. O conceito de além-homem (superhomem) foi adulterado por sua irmã Elisabeth para que o alemão fosse considerado uma raça superior. Mas para Nietzsche, o além-homem não tinha nenhum vínculo com uma etnia, mas com uma atitude constante dos indivíduos de exercerem o senso crítico e a criatividade para montarem os seus próprios valores, sem depender da imposição religiosa ( e sem a obrigação de demonizar as demais morais, mas até de se sevir delas quando necessário e desejado). O übermensch é mal interpretado por pessoas que querem ler "Assim Falou Zaratustra" sem conhecimentos prévios da filosofia do autor (seus gêneros literários)  e sem se aprofundar na obra geral de Nietzsche e suas intenções como filósofo. 


2)Reatividade cristã


Há outras pessoas que não entendem a filosofia de Nietzsche justamente porque sabem a proposta do autor: criticar o cristianismo e a imposição da moral cristã no Ocidente. Por esse motivo, as pessoas demonizam Nietzsche e o declaram um ateu anarquista, que queria levar a sociedade à barbárie ou que ele era um louco que sofreu de demência justamente por sua filosofia sem pé nem cabeça. Declarar Nietzsche como um louco significa tentar silenciá-lo para que ele não seja entendido pelos demais. O que é isso senão um ato de má fé e desonestidade intelectual? 


3)Falta de preparo e estudos em filosofia e história


Há ainda os que querem entender verdadeiramente o autor e não lhes faltam boa vontade. Entretanto, são pessoas apressadas ou que não dão prioridade à filosofia. Elas sentam e tentam ler e entender o autor segundo o que possuem de contexto prévio. Na maioria das vezes ocorre a famosa miscelânea de ideias. Para estudar um autor erudito e extemporâneo, que não é de nossa época, é necessário estudar o contexto do século em que  o autor escreveu. É necessário entender que as traduções do idioma original sempre irão ser infiéis ao que ele quis dizer em sua língua nativa; é necessário entender o que o autor diz em palavras que no século XIX tinham um outro significado diferente dos dias atuais. É necessário estudar o gênero literário do filósofo: muitos sabem que Nietzsche se expressava por aforismas e de forma poética em muitas obras, o que dificulta a compreensão e interpretação de suas ideias. Nietzsche era filólogo e por isso usava  a mesma palavra com diferentes significados de acordo com a ocasião.


O leigo que quer ler Nietzsche irá entendê-lo? Não. E o pior será quando o leigo achar que o está entendendo e sem consultar nenhum professor ou especialista para ajudá-lo. Então Nietzsche será deformado e apresentado de forma bestial: como inimigo da moral, nazista,  a favor do caos social, dos massacres e das guerras; um antissemita, místico ou relativista absoluto de qualquer verdade. 


Por favor: leiam livros introdutórios da filosofia de Nietzsche. Consultem especialistas ou professores capacitados. Vejam vídeos no Youtube de Scarlett Marton, Viviane Mosé, Oswaldo Giacoia ou Clóvis de Barros Filho. Para que entendam o básico de Nietzsche antes de começar pelas suas obras mais aclamadas e difíceis em ler.


-Gabriel Meiller


-Scarlett Marton 


https://youtu.be/r0gaysPg-cQ?si=3jR5cPg6cTmziYFA


-Clóvis de Barros


https://youtu.be/4xXrZprnPlk?si=KOU2YjQ9Pkylama4 


-Viviane Mosé


https://youtu.be/_xP-RIKX7SI?si=TYBUaKJ443ByQKuR 


- Oswaldo Giacoia


https://youtu.be/qDAHX8KnFz0?si=5STE5GsFS3zNN-w5

sábado, 13 de julho de 2024

O novo ópio do povo

 


"A religião é o ópio do povo..." constatou Karl Marx. Sim, ele estava certo em suas análises e constatações sobre as engrenagens do capitalismo.  O marxismo é uma excelente análise do modus  operandi do capitalismo, não há dúvida. Entretanto, o grande delírio marxista é a solução do problema que essa teoria visa postular: a extinção do capitalismo como crença de que o mundo terá a melhor versão da humanidade. 


O fim do capitalismo significa a redenção da humanidade, seja essa redenção parcial ou plena? Loucura! Os problemas da humanidade são inerentes a ela desde que o mundo é mundo. A humanidade nutre o instinto de acumulação, isto é, a famosa ganância. A hierarquia social também é algo precedente que remete aos primatas e outros animais e não somente ao homo sapiens. Neste sentido não estou fazendo um juízo de valor da hierarquia e da ganância, mas apenas observando esses fenômenos como fenômenos inerentes ao ser humano até o momento. 


E a grande aspiração marxista postulou alguma solução pré-capitalista para esses problemas? Se postulou, quais as possibilidades reais de aplicação dessa solução? Essas problemáticas certamente são árduas  e exigem muita ponderação antes da chegada da esperança de um  mundo melhor. Será possível alcançar o delírio marxista de que se poderia estabelecer algo próximo de um paraíso na Terra? O anarquismo criticou o socialismo justamente por postular que a transição do capitalismo para o comunismo seria bem sucedida ao colocar o Estado como meio de transição sem considerar a iminência de corrupção do proletariado que estaria no controle do Estado. 


Resumindo a problemática: podemos dizer que Marx foi assertivo em sua análise, mas delirante em sua proposta de solução. Marx secularizou a redenção cristã e transformou o marxismo em um potente ópio para o povo que acredita ter consciência de classe, nutrindo a esperança do paraíso na Terra por meio da cartilha da militância e do evangelho de Marx. Antes que a esperança se restringisse a um plano inexistente chamado de céu, pois  assim, após a morte,  a frustração não viria sob forma de amargura.  Mas a esperança foi tida como algo possível de se concretizar neste plano, tomado pela natureza humana hobesiana  que reina sem nenhum pudor e adoece cada vez mais o coração marxista iludido por uma metafísica secular. 


Em resumo rudimentar: o marxismo como solução é uma esperança refinada, mas nem por isso menos errônea e no final: uma ilusão amarga. 


-Gabriel Meiller