segunda-feira, 27 de novembro de 2017

"Poema em Linha Reta" (Análise)



"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza".
-Fernando Pessoa.

  Este é um clássico poema de Fernando Pessoa, através do seu heterônimo Álvaro de Campos. Os versos retratam um manifesto! O eu lírico parece estar indignado com o cenário em sua volta. Que cenário??? O cenário de uma sociedade que vive em negação; há uma certa hipocrisia entre as pessoas e uma vida de máscaras. Ele responde a esta sociedade politicamente correta de forma sarcástica: "Nunca conheci quem tivesse levado porrada" e "Todos os meus conhecidos tem sido campeões em tudo". Isto demonstra que os contemporâneos deste eu lírico (ou pelo menos ele achava  que) não queriam demonstrar suas fraquezas ou admiti-las. Pois todos tem sido "campeões em tudo".  Hoje podemos ver a mesma coisa: quem no Facebook e nas redes sociais mostra suas mazelas ou seus momentos de tragédia? São a minoria. Vivemos em uma sociedade perfeccionista, onde o capitalismo nos oferece status por meio de produtos de marca e bens, e onde os erros são encobertos. A reputação é o que importa; há um culto à autoimagem e por isso, a fachada precisa ser bem decorada com máscaras bonitas.  Mas as patifarias e os  trâmites são feitos por baixo dos panos, principalmente aqui no Brasil. Todos acompanhamos a operação lava jato, a cara lavada dos nossos políticos e suas insistências em se declararem inocentes, mesmo com provas veementes. O Brasil é o país do "homem cordial", como disse Sérgio Buarque de Holanda. Em que ele é movido pelo coração (que vem de "cordis" no latim= cordial), ou seja, alguém movido pelo frenesi, pelos impulsos e que não faz distinções entre o público e o privado. Usando-se dinheiro ilícito (desviado) para luxos e viagens privadas com aviões públicos, e onde os impostos neste país são regressivos (com ênfase de altas taxas de impostos nos produtos mercantis), deixando baixa ênfase no custo dos progressivos, (que teriam mais custo sobre impostos onde a classe mais alta teria que pagar mais ao Estado), demonstrando que as leis, quando funcionam, beneficiam a aristocracia do Planalto.

Depois, o eu lírico dá vários exemplos de gafes que sofreu, como ser desprezado por pessoas de funções mais baixas de uma sociedade (criadas de hotel, moços de fretes) e que, acima de tudo, cometia erros como um ser humano normal. Agindo totalmente ao oposto dos que só cometiam pecados, mas nunca infâmias; atos de violência, mas nunca covardias. Eles, que faziam um grande esforço para não perder a fachada adornada de perfeição, parecendo "semideuses".   Em contraposição, o eu lírico mostra ser humano e sincero, pois não nega suas mazelas, mas admite seus deslizes, gafes e imperfeições; ele olha para si e reconhece ser um reles mortal. Mas quando olha para fora e olha a mentira e a vida de máscaras dos outros, reage com ironia e sarcasmo. Ótimas formas de se chamar a atenção quando os discursos do cotidiano falham e são contemporizados.  As expressões: "Ó príncipes, meus irmãos", "Arre, estou farto de Semideuses" e "São todos o ideal, se os oiço e me falam", demonstram a denúncia sarcástica dos politicamente corretos e alvos da delação do eu lírico. Assim podemos, como leitores, refletir sobre este poema e quem somos nele. Se somos os "semideuses" cheios de fachada e que negam olhar para si, ou se somos os que "enrolamos os pés publicamente nos tapetes das etiquetas" e nos olhamos no espelho da existência, com nossas falhas e imperfeições. Desta forma, Fernando Pessoa, além de um poéta, mostra-se um filósofo que discorre, entre prosas e poemas, sobre os dilemas vida.
#Prosador

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Acesso: Novembro, 2017.

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