sábado, 10 de dezembro de 2022

O Eu lírico interno


 


Quando o silêncio do Real reina, as lágrimas são a expressão mais adequada. Nenhuma palavra, nenhum campo simbólico consegue expressar certas sensações e sentimentos peculiares do ser que deveras sente. A vertigem melancólica e a nostalgia saudosista do passado são sensações humanas, mas cada um sente como se fossem únicas: e de fato o são. 


O passado me aflorou, fui pego por ele desta vez. Meu semblante mudou e só restaram lágrimas e um misto de emoções boas e ruins. Uma zona cinza se fez presente no meu psiquismo e lembranças me pegaram de jeito avassalador.


O que hoje sou é um protesto ao passado; uma outra face da moeda. Eu estava em um barco com rumo certo e constante, regado de verdades eternas e aconchegantes. Houve então a explosão e o barco se estilhaçou em pedaços; nadei rápidamente em busca de um refúgio e encontrei um bote. O bote não tinha presunção de um caminho certo, adornado de aconchegos. Ao contrário, ele era selvagem, bruto, andava à deriva, pois nada o podia domar. Nasceu para a liberdade e para os ventos dos quatro cantos, sem rumos e atracando de vez em quando em ilhas no meio do oceano.


Pois bem... pedaços do barco destruído emergiram e seguiram o bote; outros barcos semelhantes se aproximam com certa frequência e se mostram desejosos de seguir um rumo junto ao bote. Os conflitos nascem dos contrastes entre barcos e botes... e então me vejo diante do espelho com uma aparência sem rosto. No lugar surgem diversas máscaras, assim como o poeta das mil e uma faces. Assim como aquele que não se curva diante de nada, mas venera todas as máscaras. 


Aquele que estava perdido,  mas foi achado nos braços do acaso; que encontra nos mitos o consolo e nas velas que iluminam o escuro a redenção do obscurantismo. Mas ao perceber que tudo isto é muito incerto e nada se pode saber... descansa na escuridão das incertezas e diz: o que quer que haja aí, fora do oceano cheio de botes e barcos... eu aceitarei de bom grado. Este sou eu, em uma imagem metafórica; como um interior cheio de jardins da alma que são atemporais, pois o hoje e o ontem para mim são a mesma coisa e me afetam da mesma forma. Os jardins mais ricos, são os mais caóticos; me disse certa vez um ser de bigodes com expressão fechada. 


-Gabriel Meiller

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