sábado, 20 de janeiro de 2024

O momento em que Sísifo largou a pedra monte abaixo

 


O cínico é aquele que despreza a seriedade da vida de alguma forma. E para o desprezo consciente de algo, não somente por ignorância e imaturidade, é necessário ter conhecido a vida e seus meandros de forma minuciosa. Um cínico é um apostador, daqueles bravos e bem seguros do que fazem.


A ironia, o sarcasmo, são bofetadas na cara dos fiéis que acreditam cegamente em seus ideais. O cínico é aquele que se diverte com a crença alheia em um ideal e até finge acreditar igualmente. "Oh, amém, irmãos... amém!" expressa ele. E no momento que todos se viram, pensa: "Para o diabo que vos carregue, bando de imbecis". 


Como diria meu professor de matemática do fundamental: "Malandro é malandro e mané é mané; mas tem muitos manés que se acham malandros." Ah, muitos por aí desejam ser verdadeiros cínicos e se esforçam por  desprezar a seriedade com que muitos tratam a vida. Tamanha seriedade fez com que Camus escrevesse seu ensaio, chamado: O Mito de Sísifo. E o mané que se acha malandro é aquele que aprecia o cinismo, mas não examinou o que acredita desprezar, agindo como um manezão... gostaram dessa? Eu nem fiz muito esforço para escrever isso, pois já vi muitos manezões e já fui muitas vezes um. 


Ah, senhores... quem nunca foi um tremendo manezão, que role em mim a grande pedra de Sísifo. Mas eu fico muito feliz em falar sobre isso, porque eu não sou mais manezão e posso rir de quem é... he he he. Nunca fizeram isso também, senhores? São, então, aqueles defensores do politicamente correto? Já vou avisando que o politicamente correto é uma moral de manezões. Oh, desculpem a ofensa, me deixem acrescentar: são manezões do bem. Melhorou??? 


Ha ha ha, eu sei que gostaram dessa.  E eu uso essa moral, sim... mas não como vocês acham. Eu a uso para enganar trouxas como vocês; eu finjo acreditar nessas babozeiras e me divirto com quem me leva a sério. 


                 ... HA HA HA HA HA ...


Oh, desculpem. Eu não quis dizer isso, senhores. Eu só estou dizendo que é muito fácil ser um cínico e fiz uma demonstração exemplar de como posso ser um cínico exemplar. Mas eu não sou, acreditem! Eu juro por Deus que não sou um cínico e quem sabe sobre minhas crenças pessoais saberá do quão sério estou falando. Na verdade... eu sou uma pessoa a favor da empatia e do perdão, tanto sou que eu perdoei a minha irmã por pegar minhas coisas sem pedir, certa vez. Sim  eu perdooei, senhores; depois de acabar com o whey protein dela, jogar uma garrafa de vodka que ela comprou pelo ralo da pia, comer o strogonoff que ela fez com os ingredientes dela e... ter mandado uma mensagem furiosa, dizendo que ela é uma parasita infernal que vive pegando minhas coisas sem nem me consultar. 


Viram como eu sou razoável? Não acreditam? Ah... ta bom, então!  Querem saber de uma coisa? Eu só falei que não sou cínico pelo medo de ser cancelado. Mas eu sou e continuarei sendo, só de raiva!  Nos dias atuais não se pode demonstrar mais nada, nem sequer preconceitos dos anos 80 sem ser cancelado pela "galerinha do bem". Aaaah, essa galerinha... me dão muito trabalho, viu; tenho que medir minhas palavras o tempo todo para fazê-los felizes e quiçá as vezes ainda uso gênere neutre com elus. Meu cinismo tem limite com estes diabinhos que se acham anjos para a salvação na Terra. 


Concluo, então: o cinismo é para fortes, senhores! Para aqueles que já percorreram todo o monte como Sísifo e não encontraram nenhum sentido em continuar empurrando a pedra, largando ela de vez. O cinismo é a revolta contra o lado negro e hipócrita da civilização. Digo melhor: o cinismo é uma revolução constante e silenciosa contra tudo isso, pois a revolta logo acaba e é vista por todos. Mas a revolução... é o que ninguém sabe e nem vê, até o momento em que ela tenha dominado a tudo e a todos. 


-Gabriel Meiller

Quem vocês dizem que eu sou?



Eu sou um grande escritor, mas tenho dúvidas sobre os verdadeiros motivos que me tornam um bom escritor. Pensando aqui com meus botões, tenho uma bela criatividade, algo quase que de outro mundo. Alguém pode me dizer um "ai"; rapidamente eu disseco as propriedades do "ai", faço as divisões de cada átomo das duas vogais e faço as interligações entre cada probabilidade das subsílabas de cada "ai". Depois de tamanha escrita criativa eu passo por momentos neuróticos de questionamento sobre o fato de que talvez fosse melhor mudar "ai" por "au" ou talvez "ou". Acreditem, caros leitores, isso muda todo um contexto e por isso os detalhes sonoplásticos devem ser levados a sério.  Oh, este é meu maior defeito: ser perfeccionista... ou melhor: nutrir um perfeccionismo perfeccionista! 


Mas o que me faz um grande escritor  além, é claro, da minha autoestima reafirmativa insegura que precisa sempre se afirmar através dos melhores elogios sobre mim mesmo,   entonados com tom de humildade convictamente arrogante? Essa é fácil: a minha personalidade neuroticamente gramatical que se preocupa com cada  ponto, vírgula e três pontinhos de suspense. Eu me intriguei com tamanha capacidade que consigo escrever por meio de minhas leituras acumuladas. Ah, e um detalhe: só comecei a me interessar por leitura na faculdade.


Mas... talvez meu talento não venha pelos efeitos da neurose; acredite, eu estudei psicanálise e sei diagnosticar as estruturas da personalidade. Meu jeito impulsivo talvez ocorra em razão dos meus fluxos de voz que perpassam minha mente; quando escrevo, brota dentro de mim uma dimensão que não possui a mesma linha de raciocínio que a dimensão da fala. A fala carrega uma lógica mais linear, previsível e não tão fantástica em narrativas. Quando surge uma inspiração surreal, como um burburinho de vozes em meu interior, começo a escrever como se não fosse eu que escrevesse, mas antigas almas se expressando dentro de mim como se um portal entre aqui e lá...  surgisse. "Lá" é aquele mundo que não posso entrar em muitos detalhes compreensíveis, mas apenas sensitíveis. Eu só sei que brotam palavras e expressões de dentro de mim como se não fosse eu que escrevesse.  Me chamem de louco, pessoal... fiquem à vontade para isso. Minha mãe já fazia isso durante minha segunda infância e eu já me acostumei às incompreensões de medíocres como vocês. 


 Cheguei, então, à conclusão preliminar de que sou psicótico e que desconto esses surtos intempestivos que me invadem através de personagens e falas que retratam uma dinâmica que: se eu falasse por meios literais, eu seria incompreensível aos que caçoariam de mim ou simplesmente não me contrariariam por lucidez de que minha realidade é mais distorcida do que a de um neurótico. 


Hahahahahahaha... mas então, senhores, eu posso estar de gozação com todos vocês. Posso ter me passado por um neurótico narcisista que aprendeu somente a encontrar prazer e gratificação fazendo um culto à minha autoimagem e preocupando os senhores com possíveis sinais de que posso ser psicótico e de que posso estar sublimando os meus surtos quase controlados por meio das  exposições tresloucadas dos meus textos. Mas o que os senhores podem não ter pensado, é claro que não, é que eu sou perverso! Minha perversidade se concretiza na zoação que faço com vocês, em minha molecagem proposital. Eu gosto de fortes emoções e na realidade eu gosto de manipular as pessoas para me divertir com a dor e o sofrimento delas. Mais do que isso: gosto da sensação de enganar os outros e sentir que estou em vantagem e, exatamente por isso, eu não confio em ninguém e nem acho que preciso de ninguém em maior grau. A grande verdade, leiam bem, é esta: eu acho muitas coisas  de muitas pessoas um papo furado e uma enorme frescura. Mas eu me finjo de desconstruído, empático e leal... mas rasgo o verbo por trás de muitos. A lei da natureza é esta: você não precisa ser nada, afinal nunca somos, mas deve fingir ser algo para se dar bem. É assim que as empresas ganham dinheiro e prestígio em cima dos otários que acreditam que elas são empáticas, preocupadas com o meio ambiente e que não escravizam funcionários.  Quem se importa com o desfecho do mundo, da minorias ou de alguma coisa que importe? No fundo, no fundo... é cada um por si e o foda-se para todos; ops... desculpem a grosseria, amigos. Como se vocês acreditassem que me importo, né...


             HA  HA  HA  HA  HA...


Mas querem saber? Me importo... eu legitimamente me importo de verdade. Juro pelo meu ateísmo que me importo!  A real mesmo, é que eu sou um neurótico que gosta de chamar a atenção e fazer um drama através do exagero. Um neurótico histérico que ganha atenção no grito e na exuberância. Papai me ensinou isso ao me ignorar até que eu virasse um grande canalha que o desafiasse em tudo e o contradizesse em tudo com bons argumentos para me sentir superior e digno de reverência. Então todos vocês são a projeção que tenho do meu pai e pela relação ambígua de amor e ódio (hora quero destruí-los, hora quero o amor de vocês), que tenho com vocês, revivo e tento consertar na relação com vocês os buracos que sofri em decorrência desse velhote sacana. E viva esse ciclo vicioso... vivaaa! 


O que sou, afinal? Posso ser qualquer um desses personagens mencionados magistralmente. Inclusive eu também posso ser nenhum. Mas... há algo em comum com todos esses enfeites no qual fiz: todos possuem o mesmo fundamento por detrás destas estruturas. Sendo assim, senhores... não sou nada. Não sou neurótico, nem psicótico, muito menos (será?) perverso. Isso tudo é papo para boi dormir... eu sou é um mentiroso! E todo bom mentiroso loroteiro se torna um grande coaching de finanças ou quem sabe... um escritor. 


-Gabriel Meiller

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Peripécias do jovem Nietzsche: o dia em que o jovem calou os piedosos

 


Frederico era um rapaz levado, astucioso em suas maquinações e seu pensamento crítico artimanhoso atropelava intelectuais da velha ordem metafísica. Já em seus vinte e quatro  anos, o jovem andava por detrás da portinhola onde seu tio conversava com seus amigos de fé luteranos. Naquela ocasião era falado sobre o temor a Deus e sua majestade, que esmagava todo rico, forte e poderoso que quisesse se vangloriar de suas riquezas ou poder. Eram três homens de meia idade, e tinham um aspecto que confería-lhes orgulho suficiente para fingir que desprezavam o que os mais jovens ainda brilhavam os olhos: poder e riquezas. 


Eles citavam Jeremias 9:23 e 24, que, paradoxalmente era um motivo de orgulho destes em suas falas de sabedoria sacramental e em suas piedades cínicas. Após um dos cavalheiros dizer que Otto Von Bismarck era um impiedoso que não tinha o temor do Senhor, tornando-se tremendo presunçoso que apenas queria a Alemanha aos seus pés, Nietzsche indignou-se em sua alma. O jovem era tenaz e espreitador o suficiente para saber que ambos defendiam uma Alemanha imperiosa, unificada e expansiva; suas crenças eram apenas uma roupagem elegante de uma moral oblíqua e putrefada como os esgotos a céu aberto das primeiras cidades inglesas do período da Revolução Industrial. 


Se havia algo que o jovem irreverente e desbocado que suportava os purgatórios psicológicos de sua mãe e de sua irmã não tolerava, este algo era a desonestidade dos teólogos: primeiro a autodesonestidade hipócrita; segundo: a desonestidade coletiva e cretina que tornava o homem do século XIX tamanhamente teórico e, sabe-se, decadente! 


 "O que seria isso, senão covardia e medo de assumir a verdade, o que estes velhotes estão fazendo?" quis expressar Nietzsche através  de seu grunhido de desprezo que se fez ouvir por todos após um silêncio taciturno da discussão:    "Ahrr.." 


Então, ao notar que seu grunhido de indignação soou mais alto do que esperava, o jovem perdeu o pouco de pudor que tinha e se pôs às claras na luz da sala. Ao entrar, rasgou em pragmaticidade: "Vocês conversam entre si mesmos falsas virtudes de piedade e valores tão falsos e decadentes que isso me tolhe a discrição. Não puderam enxergam, senhores?"


"Como, jovenzinho?" soltou com ar de surpresa, Frank, amigo do avô do jovem irreverente.  O resto dos senhores que estavam naquela sala não pronunciaram uma palavra, pois já tinham ouvido falar da mania filosófica do rapazote e seu faro epistemológico para julgamento de ideias centrais que formavam a coluna de todo edifício moral. Por isso, apenas o olharam com um olhar que demonstrava um certo misto de admiração velada debaixo do véu de condenação amena. 


Então, Nietzsche proferiu suas máximas: 


Quem não consegue o que deseja, adoece o objeto de desejo para que o fracasso não perturbe a consciência do ente desejoso.  Não percebem? Vós, homens de moral cristã, desejam o bem não porque o desejam de fato, mas porque são arrastados pela má consciência que os admoesta pelas chamas do inferno. Vós quereis desejar o bem, mas se encantam pelo mal.


A bondade do vosso deus é o livramento da punição, não percebem? Não há nada do que se orgulhar a não ser em serem poupados de tamanho extermínio. E com isso o homem não pode se orgulhar em por sua vontade de poder em jogo, tornando-se ativo. Vós,  ao contrário, senhores, são os fiscais reativos do Reino; do Reino daquele deus esquálido aculturado e enfraquecido desde os exílios babilônico e persa. Esse democrata entre os deuses é uma imaginação que estes mesmos alemães a quem vós cometeis o ato de denegrir,  cultuam juntamente com vocês. 


"Ora, moleque... só porque andas a estudar e farejar os livros achas que pode discutir com nossa sabedoria e a soberania de nosso Deus? E ainda me envergonhas na frente de meus camaradas fraternos com esse raciocíniozinho digno de um insolente qualquer como aqueles que andam por aí em prostíbulos e lugares duvidosos. Bem que tua mãe estava certa em tais reclamações sobre teus delírios literários." exaltou o avô, que além de seu antepassado digno de honra, portava sangue de teólogo. 


Então Nietzsche, incomodado com o desprestígio e tamanha desonestidade intelectual do avô por meio de argumentos ad hominem, o encarou com olhos de decepção desprezadora e iniciou um novo raciocínio em tom taciturno e mais melancólico: 


"Um dia desejo o poder, riqueza e as benesses decorrentes de tudo isso e na mesma medida em que tenho e me orgulho de minha sabedoria... sabes por que, nobre avô?


Certamente o avô sabia que a pergunta era retórica e que após breve silêncio, viria um raciocínio sereno e penetrante do jovem Nietzsche que, mais tarde, reconheceria que lhe faltaria ainda as "marcas de ferrugem"  para que fosse levado a sério pela Alemanha, bem como as sonhadas marcas da impossibilidade de acesso, causada pela morte do filosófo, para que este fosse admirado e lido pelo mundo inteiro em mais de uma simples época.


"Porque  é justamente quando tivermos poder, poderemos decidir não usá-lo por pura consciência, como o  deus  do velho testamento de vossas bíblias fazia em algumas ocasiões, quando não se deixava cair no furor e não aniquilava os povos.   Mas os cristãos, sim, vós! Sois parte de uma descendência cultural ressentida que necessita de uma moral de rebanho, bem como fiscais morais. Vós condenais a avareza para que digam não ao perdularismo latente em vós mesmos; vós condenais as mulheres de boa aparência que desfilam sozinhas nas ruas para que vós mesmos não pensem em cair em tentação com elas em bordéis clandestinos; vós não desejais poder e riqueza, pois sabeis que esmagariam os que estivessem debaixo de vossa tutela vingativa. 


O mundo é vontade de poder e o homem deve saber por o melhor de si para fora; ao contrário do que pensais em vosso coração, o homem ativo que se vinga não guarda o rancor que assassina os homens em guerras nacionalistas; um homem irado é um homem disposto a colocar fim em contendas: seja por meio do conflito, seja por meio de uma punição que encerra mais contendas vindouras. Mas vós sois guiados pelos ídolos e a eles reservo meu martelo que ressoará por toda Europa e..."


Mal acabou o jovem a pronunciar estas palavras e seu avô precisou ser contido por seus dois amigos para que não fizesse mal ao rapazote que já não tinha tanta vitalidade física. A mãe e a irmã apareceram após o barulho de gritarias  e vozes que tentavam acalmar a situação constrangedora.


"Novamente, Frederico... novamente? O que falastes dessa vez para que causasse tamanha ira de teu avô...?" perguntou a mãe. 


Ao se virar... não encontrou o rapaz, que tinha saído para espairecer, enquanto se orgulhava em seu coração de ter travado um dos muitos embates desse Ágon intelectual que travaria contra todos os intelectuais,  contaminados pelo sangue de teólogo e pela vã metafísica que deveria ser expurgada da filosofia do século XIX. 


-Gabriel Meiller

sábado, 13 de janeiro de 2024

O BBB como cancelamento alheio para fugir da nossa própria hipocrisia



O que as pessoas enxergam no BBB senão dinâmicas  da vida real que são estereotipadas e dramatizadas? O BBB é um jogo realista que serve muito bem aos expectadores, que no caso somos nós. Fala sério... gostamos de assistir o circo pegando fogo; gostamos de condenar os "machos escrotos" com nosso moralismo esquerdista; ou quando não, gostamos de fazer uma cara de nojo para as mulheres que "se vestem como puta" no caso do moralismo conservador. Acima de tudo, gostamos de um bode expiatório para jogarmos nossa autocondenação em cima dos brothers. Sim, porque nós crucificamos a nós mesmos nos outros pelo fato da nossa consciência pesar em relação às nossas faltas. "Nós" faríamos muito do que "eles" fazem lá. Nós somos reles mortais que estão embrenhados no machismo estrutural, no racismo estrutural, no capacitismo e todos os ismos estruturais. "Nós" somos os que "regulam mentalmente" as roupas "delas", mas que desejaríamos vê-las sem roupas! "Nós" somos as mulheres que reclamam de machos escrotos mas que "pisam" nos bonzinhos porque não são do padrão "forte e  viril" que, por ser "forte e viril", acaba dominando sobre a mulher e dando a ela uma prova dessa "virilidade" de forma nefasta. Somos, então, a mulher feminista de malandro que se contradiz. 


O BBB é um chamariz da nossa hipocrisia, uma armadilha que nos convida a condenarmos a nós mesmos no outro! Nossa covardia de cancelar os outros de longe, revela que somos todos contraditórios e hipócritas: muitas vezes preferimos o padrão rico e inteligente do que o pobre ferrado de grana e feio.  Mas, nesse jogo sofisticado em que nós mesmos nos condenamos, preferimos reprimir essas preferências em nosso inconsciente e condenar esse nosso pecado secular no outro, e crucificá-lo no programa! Dizemos: não, os mais pobres devem ganhar e entrar no jogo, chega de privilegiados. E apesar de muitos desses desejos serem sinceros, quantos também não são apenas uma formação reativa? Uma tentativa de provar a si mesmos de que não quer o velho estereótipo ao invés do "pobre e feio?" 


O moralismo esquerdista, bem como o direitista, são apenas um sintoma de nossa natureza reprimida e binária que não tem coragem de uma análise crítica profunda que cause desconforto em nosso ego.  Em última instância, o BBB é uma fuga do nosso ego frágil e uma tentativa de redenção das nossas próprias negligências através do cancelamento alheio. Somos covardes quando agimos como "a galerinha do bem" ou como "cidadãos de bem".  Estamos sempre fazendo uma divisão imaginária entre bons e maus, justos e injustos. Como se a natureza humana fosse 8 ou 80, ou preto no branco. Não! Nós somos bons e maus, cretinos e anjos com alguém; traidores e leais em diferentes momentos. Não há uma natureza intrínseca boa ou má, somos todos hipócritas porque somos instáveis e sem essência. 


-Gabriel Meiller

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

21 ditados de quem nasceu no primeiro dia do inverno



1. A felicidade mora na ignorância, pois quanto mais sabe um homem... mais ele quer se estrangular ou estrangular o outro.

2. Não prive um homem de seus vícios: o vício é o último recurso antes da perda da sanidade. 

3. Todo ser humano sadio já se questionou sobre sua sanidade alguma vez na vida.

4. O trabalho não enobrece... mas é a ética protestante que adoece os 'vagabundos'.

5. Quem verdadeiramente ama o trabalho? Duas pessoas: quem emprega e quem é protestante, isto é, ingênuo. 

6. Ser saudável demais é o que adoece e tudo o que é bom e gostoso, faz mal. 

7. A dor é tão próxima do prazer quanto o homem é dos primatas. 

8. Quem acha que está certo, sempre estará; é por isso que o médico manda não contrariar. 

9. "Quando um louco parecer totalmente são, então, esta é a hora de colocá-lo na camisa de força" -Edgar Alan Poe.

10. Não se define o que é banana, sem maçã; deus sem o diabo, o louco sem o sensato... nem o que é do que não é. 

11. Todos gostam de fingir sensatez... por isso vive-se em uma sociedade de insanos. 

12. Se sofrimento não fosse bom e necessário... o sadomazoquismo não existiria. 

13. A esperança é quem destrói a humanidade e adia mais ainda o sofrimento. 

14. O que é a vida? Ela não é um morango, mas um enorme abacaxi.

15. A mentira é tão gostosa que mentimos o tempo todo: na arte, para o outro, em protocolos sociais e no 'fazer sala' para visitas indesejadas.  Mas sobretudo, mentimos o tempo todo para nós mesmos: a verdade é uma exceção, um delírio! 

16. O filho da puta se dá bem e muito: quem cresceu sem um pai aprendeu a conquistar o mundo! 

17. Quanto maior é a proibição, maior é o tesão e mais se cresce o 'monstro' interno.

18. Na grande maioria das vezes: quanto mais se vive intensamente, menos se vive biológicamente. O prazer é um acelerador do tempo restante de vida e não há o convívio entre alegria e paz. Ou se tem  um... ou o outro!

19. É em nome da euforia e do tédio que todos procuram  sarna para se coçar. O purgatório é o feliz meio termo entre o céu entediante e o inferno tenebroso. 

20. Um pecador só se confessa para outro pecador: por isso se confessam com o padre/pastor, que é o pior de todos.

21. Não acredito em Deus, graças a deus! 

-Gabriel Meiller

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

O arqueólogo de ruínas

 



Este texto é inspirado em Memórias do Subsolo, ou melhor, no narrador de Memórias do Subsolo de Dostoiévski. Aqueles que observam enojados os meus movimentos literários recentes, percebem um falatório sobre mim parecido com um narcisismo e... de fato é um narcisismo implícito; talvez até explícito. Ultimamente tenho me analisado com olhar de psicólogo. Melhor ainda: com um olhar melhor do que o olhar "cognitivo comportamental superficial" de um psicólogo: o olhar profundo de um psicanalista! 


Hey... olhem aí o meu narcisismo saindo pelas frestas do subsolo, esse danaaado! Em meu narcisismo eu mesmo me examino, identifico minhas fantasias e promovo uma solução para desfazer esses pontos conflituosos. Eu mesmo sou o meu psicanalista, o meu confrontador e o meu redentor... querem mais narcisismo que isso? Minha tentativa de percorrer minhas ruínas internas e examinar cada pedrinha, cada fóssil e entender a origem de todos os destroços sepultados... é o sintoma do meu narcisismo e a sua redenção parcial. Digo "parcial" porque o narcisismo primitivo sempre fará parte de nós e estará tentando nos convencer de que não somos narcisos... de que não apreciamos e não esculpimos nossa imagem interior e de que não nos comprazemos com nosso ego e sua imagem diante do mundo. Freud sabia que o narcisismo era um espectro e que ao se tornar excessivo... poderia petrificar-se em transtorno. 


Estou certo nessa constatação, senhores? Ou será que o que eu falei foi somente uma racionalização e uma generalização minha somente para justificar meu narcisismo? No caso, isso também é mais uma confirmação do meu narcisismo. O homem do subsolo dostoievskiano é um homem ambíguo, vaidoso, contraditório, covarde e... narcisista! Talvez não seja no sentido patológico, mas no sentido secundário em que a volta de pulsões para si, para o seu ego... ocorre mais tarde na vida adulta por conta de traumas que o fazem se enclausurar em si mesmo. Mas o que eu admirei nesse homem liquidado pela vida foi sua sinceridade. Seu sincericídio combalido de quem já não consegue nem disfarçar sua fachada porque ela já foi derrubada. Então, ao chegar no ápice do ridículo, ele mesmo decide se abrir sem filtros, entendendo que não há mais nada a se perder, ele já se tornou o maior ridículo de todos aos olhos de todos... até aos olhos daquela meretriz que o acolheu bêbado, quando ele estava obcecado atrás de seus colegas de infância bulinadores para provar que ele era gente,  que ele significava algo para eles e tinha de ser respeitado, mesmo depois de todo o enxovalho e papel de ridículo que sofreu na noite anterior porque precisava provar algo a eles.


 Pois bem, eu me identifiquei com o homem do subsolo, eu reconheci em mim esses sintomas e... querem saber? Até nesse ato de me reconhecer neste personagem eu fui narcisista, como se essa chaga tivesse que ser só minha, como se essa autocomiseraçãozinha fosse só minha e não pudesse ser de mais ninguém. Não! Não empresto a vocês a fantasia do meu sofrimento com a qual me visto, desfilando e falando de mim... não! Pelo menos nisso me deixem ser especial. 


Mas vamos direto ao ponto... entremos em minha caverna e me deixem expor o porquê me considero tão narcisista assim. Ps: talvez eu esteja exagerando e dramatizando tudo isso. Mas isso também é parte do meu narcisismo, senhores. 


Ao descer à caverna nesses últimos dias eu tenho enxergado minhas motivações ao ajudar as pessoas sem elas pedirem ajuda. Em que eu sou tão solícito? Quando eu sei de algo e me ofereço para ajudar quem não pediu minha ajuda. Quando, por exemplo,  estou aprendendo sobre o mercado de ações, sobre análise técnica e então saio pregando esse evangelho aos meus amigos mais próximos, ou talvez até à instrutora de academia.  O que eu quero com isso? Qual o meu real interesse em dizer que seria bom eles investirem, comprarem ações, colocarem algo em renda fixa? A minha autopromoção, oras! Esse é o momento perfeito para que eu mostre como sou bom, como sou atencioso, como tenho paciência, como sou solícito. O meu bem estar se satisfaz quando mostro todas essas fantasias sobre eu mesmo e nessas aventuras eu vou manifestando meus sintomas e meu arquétipo de sábio, inteligente, poderoso... até que de tanto me aventurar eu começo a enxergar esses padrões inconscientes e me questionar,  fazendo uma autosabatina e até uma inquisiçãozinha para sentir que sofri o bastante e posso me desculpar provisóriamente por esses atos infames. 


Eu estou escrevendo para mim... não é para vocês que estão me lendo até esse momento. Mas se vocês lerem e me derem tapinhas nas costas, comentarem como eu tenho um olhar aguçado, um senso de clareza... ah! É aí que vou vibrar internamente e, depois desse orgasmo intelectual e afetivo, irei me reprimir ao dizer a mim mesmo:


 "Isso não é motivo para se orgulhar, é apenas mais um maldito reforço do seu narcisismo e da sua carência afetiva. Se você não foi admirado e não recebeu atenção na escola de seus colegas, ou de seu pai, dos colegas da rua... o problema é seu. Não venha tentar conseguir o que não teve com 27 anos na cara, seu marmanjo descompensado!" 


E então ao escrever até agora e constatar tudo isso... me dá uma certa tristeza. Não mais a tristeza narcísica para conseguir a atenção que não tive e desfilar com meu sofrimento e minhas angústias. Mas a tristeza silenciosa que constata o fato de que: não há muito o que fazer! Há padrões comportamentais a serem desconstruídos, excessos a serem medicados e suavizados... e uma vida a seguir consciente de que há buracos que não se fecharão. Eles serão tapados superficialmente, mas ficarão ali como uma armadilha para os momentos em que algum desavisado tatear com um pouquinho mais de pressão e for engolido desavisadamente. E, para encerrar de forma reafirmativa em meu narcisismo: talvez eu não procure ajuda psicológica, exatamente pelo fato do meu orgulho carente que me diz que eu posso resolver esses problemas sozinho...  Ele diz o seguinte: 


"Vejam: eu estudei para isso! Eu sei como traumas são criados e como posso amenizá-los, como posso desconstruí-los. Só preciso recorrer a olhares atentos que me observam de fora e questioná-los sobre meu comportamento e então... mãos à obra! Não... eu não preciso de psicólogos... eu não sou tão burro, tão fraco ou sem base psicológica e psicanalítica... eu sei o que é  a vida e como posso sair dessa neurose excessivamente egoica, vejam! Eu sei... eu sei!!!! Vocês não estão falando com um leigo... vocês estão falando com um neurótico reafirmador que a todo momento quer mostrar pra todos, mas principalmente a si mesmo: de que ele sabe de algo e é capaz de algo!" penso eu atordoadamente megalômano em minhas ruínas. 


Ps: agradeço a todos os meus vilões que em sua maldade e desprezo, me fizeram forte. Embora eu seja bastante frágil no ego, me tornei forte exatamente por intuir que fazer tudo por mim mesmo, em um surto de autossuficiência e isolamento, seria uma forma de não precisar de ninguém e nem de suas aprovações que eu tanto desejava. Mas então por que eu ainda as busco??!?!? 


-Gabriel Meiller

A arte da maiêutica

 


     


 


A maiêutica é a arte utilizada e formalizada por Sócrates que consistiu em dar luz às verdades de alguém por meio de perguntas, sendo um fator muito importante para o autoconhecimento de quem utiliza essa ferramenta. Por favor, entendam "verdades" como constatações que fazem sentido pessoal para aquele que medita sobre a vida.  E é exatamente sobre a importância da maiêutica como ferramenta de autoconhecimento que precisamos meditar para que possamos partir de algum ponto para navegar no oceano da vida. 


A vida é como um enorme oceano profundo, extenso e incerto; sempre partimos da terra continental para navegar pela vida. As ilhas, os continentes e outros relevos terrestres são o nosso porto seguro que nos abriga. Somos formados como seres humanos em baixo de tetos de culturas que nos ensinam a enxergar a vida de algumas perspectivas. Somos em grande parte um depósito do Outro, isto é, de todo um imaginário que veio antes de nós e que nos educou.  As ideologias, as crenças religiosas, os sistemas econômicos e as instituições são os elementos que compõem a parte continental que nos é familiar. São todos o nosso chão, nossa âncora e nossa estabilidade. 


Quando somos crianças o círculo desse relevo continental é ainda mais delimitado: ficamos em nosso castelinho e em redomas que abrigam nossas ilusões alimentadas por nossa família. Essa estabilidade é necessária pelo menos na tenra infância, assim como a lagarta precisa de seu casulo e do estreitamento desse casulo para que quando ela estiver maturando... possa trabalhar a musculatura interna para rasgar esse casulo e desenvolver suas asas, virando uma esplendorosa borboleta. Se esse casulo for rompido muito antes do desenvolvimento de sua musculatura, a lagarta não se metamorfoseia numa borboleta. 


Pois bem... quando chega a hora de navegarmos pela vida e conhecer os sete mares, precisamos estar preparados para cada surpresa e descoberta. Os diferentes mares e continentes abrigam diversidades muitas vezes espinhosas, mas nem por isso menos entusiasmantes. Os ambientes nos quais não estamos familiarizados (nos quais nossa família não nos criou) podem parecer estranhos, obscuros ou tóxicos demais. Para alguns podem até ser... mas muitas vezes são apenas paisagens exóticas nas quais não tivemos raízes e teremos que nos adaptar a esses terrenos que possuem outros nutrientes, outro solo e outro clima. É necessário aprender a apreciar o que não é familiar, o que não nos foi cultivado no passado. 


Em meio a tantas mudanças que a vida me promove e que eu frequentemente aceito... encontro uma única pessoa que está comigo o tempo todo nos diferentes relevos continentais: eu mesmo! Já experimentaram conversar consigo mesmos em voz alta? Travaram diálogos e se fizeram perguntas esperando alguma resposta?  Esta é a arte da maiêutica! Eu desenvolvi uma regra de ouro de mim para mim mesmo: se, após me encontrar comigo mesmo eu não conseguir uma solução suficiente para algum conflito ou alguma crise que estou passando... então eu recorrerei a alguém que, talvez, possa me auxiliar. Entendam que isso não é uma espécie de narcisismo, mas uma decisão sábia em meio a uma época em que não costumamos nos ouvir e preferimos consultar um guru sem antes ouvirmos nosso eu interno (ou eus internos). E nos tornamos vulneráveis quando preferimos ouvir mais aos de fora (que muitas vezes não nos conhecem no dia a dia) do que a ouvir a nós mesmos e às nossas intuições mais profundas. 


É nesse hábito que conseguimos fixar nossas raízes em novos continentes ou ilhas até o momento em que decidirmos partir para novas paisagens silvestres, brincando de exploradores que vão para onde lhes der vontade, sempre conduzidos pelo espírito infantil e aventureiro que ama o processo de descoberta da vida e de suas múltiplas possibilidades de se manifestar. 


-Gabriel Meiller