sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

O que a tragédia grega e sua interpretação nietzschiana nos ensina de forma prática!






Não é novidade ou assombro para nenhum de nossos neófitos em Nietzsche, talvez para alguns ainda em fase deveras iniciática, de que o filósofo alemão admirava e extraia sua filosofia dos antigos gregos. Não somente dos antigos gregos, mas da antiga tragédia grega do período clássico. Ésquilo e Sófocles foram as principais inspirações na qual Friedrich Nietzsche se inspirou e contemplou o tão comentado Nascimento da Tragédia grega, que se transformou no nome de seu primeiro trunfo: O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. 


A quem Nietzsche contemplava nestas tragédias e mitologias gregas? Os deuses gregos, bem como os heróis trágicos e os seres místicos. 


Sob a perspectiva de que o mundo helênico se contemplava, como em um espelho, através dos seus mitos e dos deuses olímpicos: orgulhosos, caprichosos, guerreiros, vingativos, sábios, impetuosos, belos, exóticos, fortes, sensuais, divertidos e felizes; tristes e sérios, enfim: deuses antropomórficos! Sob esta perspectiva os gregos se baseavam e mostravam quem eram: um povo guerreiro e engenhoso, cultuador da vida e da harmonia estética, equilibrada pelos pressupostos dionisíacos e apolíneos.


Ao olhar para este suprassumo da Vontade, o filósofo reprimido e aprisionado em sua juventude pelos dogmas do cristianismo e por uma vida abarcada pela rejeição da figura materna e pela ausência paterna, encontra um verdadeiro refúgio no oásis da mentalidade greco-romana e guerreira em essência. 


Por que o adjetivo guerreiro é importante para Nietzsche e a compreensão de sua filosofia? Porque o guerreiro é o arquétipo que lhe coube em sua vida trágica, semelhante à tragédia grega. 


O guerreiro é quem lida com o sofrimento existencial, isto é: a divergência entre as expectativas de que determinadas situações acontecessem de uma determinada forma e a realidade que ocorre de uma forma totalmente diferente da expectada. 


Na tragédia grega o final feliz é abolido; os heróis são "heróis trágicos" pois o destino, isto é, os acontecimentos que transcendem o controle dos personagens, é carrasco e supremo sobre a vida deles. O final ocorre sempre de forma trágica, isto é, contra a vontade dos personagens da tragédia grega. 


Existe alguma possível semelhança com a vida pessoal do filósofo germânico? Ou melhor, com as nossas vidas? Claramente. Pois a tragédia não discrimina nenhum ente sofredor por sua etnia, classe social ou nível intelectual. 


Entretanto, apesar da tragédia ser um tema em que nos identificamos em muitos momentos da vida, ela possui um caráter mister: o aspecto redentor! 


Redenção? O que há de redentor na tragédia e no escárnio da vida humana em bancarrota? Para o falido que sofre o imputamento do inesperado e do trágico, nada há de redentor. Mas para o observador atento, independente das épocas, a tragédia é um ensinamento de amor fati, ou seja, amor ao destino. 


Como o personagem Jó, porventura, disse por meio dos hebraicos após sofrer uma série de tragédias e ser impelido por sua mulher a amaldiçoar a divindade: 


" 'Você fala como uma insensata. Aceitaremos o bem dado por Deus, e não o mal?'  Em tudo isso Jó não pecou com os lábios. "


Em suma, a lição das tragédias e relatos sobre o trágico mostram que da vida e do destino devemos abraçar tanto o sofrimento, quanto o deleite. O bom e o ruim; o aparentemente justo e o injusto, pois o destino e a fatalidade são senhores sobre nossa vontade. E quando abraçamos o sofrimento inevitável e este não nos mata, certamente somos fortalecidos. Recalcitrar aos grilhões do sofrimento inevitável significa gastar energia em vão e perder a oportunidade de viver a vida de forma plena, ou seja: de forma humana, demasiada humana. Navegando para além da dualidade entre o bem e o mal, entre o bom e o ruim. 


-Gabriel Meiller

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