domingo, 3 de setembro de 2023

Deus me revelou que Ele não existe (e nem é)

 


Somos seres de sentido e carecemos de lógica. Mas uma síndrome silenciosa e típica de quem estuda demasiado e em diversas áreas é a "síndrome de corrosão da lógica". Essa síndrome assola àqueles que começam a fazer autorreflexões, isto é, uma crítica a sua linha epistemológica de pensamento, além da crítica de outras linhas epistemológicas, ou seja, a crítica da verdade. 


O título do texto é contraditório e um absurdo e ele é o ponto máximo da minha intuição sobre o que é a existência: uma contradição que não cabe  em nossa visão de mundo. Certa vez, um homem de tanto procurar a verdade encontrou o absurdo: Deus apareceu a ele e revelou que o universo surgiu do nada por meio do Big Bang. Foi-lhe revelado que o Big Bang surgiu do nada absoluto, isto é, as partículas fervilharam do caldo do nada e antes disso nada existia! 


Deus ainda lhe explicou que a ideia da autoexistência de Deus foi uma recorrência da teleologia humana que precisa de um começo, meio e fim, bem como de um criador com consciência cósmica e que tenha noção do  bem e do mal! 


Ao receber essa revelação de Deus, o homem saiu pela rua e pelas igrejas pregando esta nova palavra: "Deus me revelou que ele não existe, Deus não existe!" Então um pastor protestante versado em filosofia lhe disse: "Tens razão, meu filho! Ele não existe, ele é, pois ele está além da existência."  


O homem que recebeu essa revelação ficou indignado pois não era essa a mensagem que ele queria introduzir. O pastor usou a teleologia para obscurecer a verdade: de que a verdade não existia no universo e de que o próprio universo surgiu do nada. E que Deus lhe revelou essa verdade!  Então ele voltou a falar: "Não, caro pastor! Deus não existe e nem é! Deus é uma invenção humana antropomorfizada, mas Ele me revelou isso para que a humanidade passe a crer nestas palavras!" 


A igreja, os ouvintes das praças e das avenidas o taxaram de louco! Um esquizofrênico ou um bufão zombeteiro que fala por paradoxos. E então, depois de tanta importunação o homem se pôs a gargalhar e dizer: "Sim... eu sou louco! Sou louco como todos os senhores! Pois lá no fundo, todos vocês fazem o mesmo: os ateus dizem que o universo surgiu do nada e que Deus é apenas mito! E os teístas dizem que Deus sempre existiu! Aonde isto faz sentido a algum de vocês se formos levar a razão até seus limites? É irracional à mente humana o conceito de autoexistência de um ser; e também irracional à mente humana o conceito de algo surgir do nada. Quem tem mais fé para sustentar sua tese e construir as demais a partir desses pressupostos? Ambos de vocês possuem uma convicção em um princípio irracional que é racionalizado para que vossas crenças sobrevivam. E eu não posso também falar um absurdo destes? É tão mais provável deus me revelar sua inexistência assim como o é para vocês o mundo surgir do nada e Deus autoexistir. Todos carecemos de razão, senhores; todos devemos ignorar a falta de sentido lógico da existência..."


O homem silenciou a todos! E depois de um longo e demorado silêncio... se pôs novamente a gritar: DEUS ME REVELOU QUE ELE NÃO EXISTE, ACREDITEM! A RAZÃO ESTÁ MORTA, A RAZÃO ESTÁ MORTA!  AGORA SÓ NOS RESTA A VIDA EM DESPRETENSÃO! 


E assim como o badalar dos sinos às 18:00 da tarde, o profeta da contradição e da morte da razão passava pelas ruas gritando e anunciando a morte da razão e, consecutivamente, a morte da verdade! 


Qual o resumo dessa história? Não acreditamos na verdade; acreditamos no que temos necessidade de crer! Acreditamos no que nos faz bem, no que nos faz sentido; a maior mentira é que acreditamos na verdade: só acreditamos na nossa verdade, então criamos a verdade à nossa imagem e semelhança. 


-Gabriel Meiller

sábado, 2 de setembro de 2023

A grande dissolução do ego: um mergulho em mares profundos

 




Já morri diversas vezes, senhores. Já não sou mais eu desde que aceitei a manifestação da contradição neste campo de batalha biopsíquico que vos fala! 


Quem é o meu Eu? Um apanhado de vontades, pensamentos e sentimentos que se alternam em todo o tempo. Não há dualidade, há decalidades! 


Eis o meu submarino para águas profundas: a aceitação das contradições que habitam em mim e na humanidade. Minha filosofia é para aqueles que suportam a descida ao profundo abismo do Oceano, mais afastado do que a calamidade do Titanic onde a pressão é esmagadora àqueles que ainda possuem ideais metafísicos absolutos.


Os ideais metafísicos não são o problema; o problema é a seriedade com que os manuseamos. Somos demasiado pretensiosos, demasiado sérios! Precisamos da despretensão, meus caros! Gravem esta palavra chave: des-pre-ten-são!


Ela é a chave para a vida em abundância: se desprender de uma visão no momento adequado; não ter uma pretensão a todos os momentos; uma pré-tensão significa uma tensão desnecessária; não pretender nada é necessário para que a criatividade surja e a pretensão se aplique quando os novos objetivos forem necessários; novos objetivos que só aparecem quando não há uma pré-tensão, um objetivo totalitário e universalizante barrando todas as possibilidades de ser que aparecem com a maré das incertezas e da impermanência. 


A despretensão é uma constante dissolução do ego; não devemos nos enxergar com uma essência, não! Nossa única essência é a não-essência, a inconstância, ou melhor: a impermanência. 


Nosso velho Heráclito estava corretíssimo sobre nós e sobre os rios, porque ele estava falando de uma coisa só: tudo é feito da mesma submatéria! Dos átomos que são uma espécie de energia, de oscilação (im)permanente. A luta começa entre a interação das menores partes da matéria que neste conflito fundam os alicerces de todo o mundo: o mundo como conflito eterno de forças que começam desde a mecânica quântica até as maiores partes da matéria. 


Se há conflito em tudo, em nós também ele está presente nas mais diversas dimensões e áreas: pois somos parte do universo e abrigamos em nós bilhões de bactérias, milhões de células e milhares de interações entre as desigualdades que nos formam em um organismo que possui uma diferente e intrigante consciência de si mesmo e de seu funcionamento. 


Somos, então, seres da contradição e devemos aceitá-la. Aceitar a contradição significa aceitar todas as partes de si! Significa dizer um sagrado "sim" ao mundo! Mas quem não ama o mundo, diz que ama as coisas de Deus. Filhinhos, aprendam de uma vez: quem alega amar a Deus, nunca poderá amar ao mundo, pois as coisas do mundo significam o eterno conflito de forças. Os que amam a Deus morreram para esse conflito e preferem o nada. Essa é a essência da metafísica: a morte e aniquilação de partes de si mesmo pela não movimentação da vida. Essa morte ocorre justamente pela estatização. Metafísica= estatização. Estatização= ausência de conflitos existenciais das forças que estão em nós e no mundo. 


Os metafísicos fiéis não aceitam sua natureza e por isso recorrem a outra; mas quem sabe relativizar até a metafísica, este se livra dela sem precisar negá-la por completo e por falta de uma longa e prolongada reflexão constante sobre suas estruturas de dominação (Nem todos conseguem essa metódica proeza de desmantelamento).


Mas esta é a vitória que vence a metafísica: a despretensão e o ouvir aos instintos! Filhinhos: não deixem que a vontade de verdade reine sobre vós: ela é como um homem conservador que trilha caminhos tortuosos: ele finge estar satisfeito com sua mulher, mas na calada da madrugada sai para procurar as transexuais e os garotos de programa e dar a eles suas partes de trás. 


A vontade de verdade é o negar de si mesmo em nome da pretensão e de uma busca imaginária que nega a vida e se contenta com a morte por esta ser o prêmio que leva à suposta vida eterna. Em verdade, em verdade vos digo: a vida eterna é esta a quem vós negais, óh filhos da Bíblia e do ascetismo de todas as religiões que negam este mundo em prol de uma esperança de vida eterna.


-Gabriel Meiller

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Existência precede a essência

 

 


Ficou claro aue o homem é o animal rebelde? Então posso me ir embora...


Não... restam os dominicalistas e os que conhecem esse conceito apenas na mente, mas não na vida! Então resta-me berrar às pedras e ser taxado de louco, resta-me ser o bufão belicoso. 


Para a metafísica o homem é definido pelos deuses e pelo deus cristão: ele é a imagem e semelhança de Deus. Isto significa que ele é racional porque Deus assim o quis. 


Para o existencialismo e o darwinismo o homem é o animal rebelde que sofreu uma mutação e passou a produzir a chamada cultura. Não houve um artífice que desenhou e projetou o homem para ser algo. Dentro da espécie do homem, há varios homens, mulheres e seres não binários. 


No reino social um homem (macho) nasce assim por determinação da biologia; mas pode se tornar mulher trans. Em parte por sua decisão, em parte porque a própria biologia assim o quis por meios fenotípicos; há os nascimentos de hermafroditas, também. O que dizer disto? 


O homem primeiro existe, vive, aprende e depois se define! Depois descobre uma essência bem diferente da essência metafísica. 


Os homens são ambíguos; já presenciei homens casados com mulheres que estavam em aplicativos lgbtqia+, tendo relações sexuais com outros homens no sigilo; e estes são muitos! Já presenciei aqueles que adoram mulheres trans porque querem a figura feminina somada à "surpresinha" que literalmente os atravessam. Ops!!! Perdoem-me a indiscrição, ela faz parte da minha pedagogia filosófica. No Brasil o pornô mais acessado é o pornô trans e um dos lugares onde mais matam e agridem mulheres trans! (Fenômeno social e psicológico de negação da pulsão de excitação sexual por meio da violência). 


Mas, em contrapartida, o homem trans (mulher original que se tornou homem)não possui tanta audiência ou endeusamentos. E por quê?  Porque não possuem falo em meio a uma cultura falocêntrica que liga o pênis ao poder! As mulheres trans são as únicas mulheres que possuem um falo, representando poder e possibilidade de serem ativas e passivas e sem a reprodução sexual de outro ser vivo. Poxa... quanta diversidade. E depois vocês ainda brincam com a preferência do jogador Mbappé? Ele foi inteligente, isso sim! 


O que tudo isso diz? Que somos seres sem essência; não há um homem e mulher e mulher e homem; macho e fêmea como assim quis a tradição e as doutrinas religiosas conservadoras. O homem pode fazer o que bem quiser com seu botão... inclusive praticar a submissão e ser dominado.


Isso nos leva à perspectiva de que somos atores sociais em constante mudança, mesmo quando ainda cismamos em um mesmo papel social. O que é atuar senão definir uma essência? Nossa essência foi construída por outras influências. Um ator como Jim Carrey percebeu isso ao se ver em crise por ir à fundo demais em seus papéis de identidade. Quem era ele se sempre era fácil demais se perder após os seus filmes? Não havia uma essência, haviam papéis que foram aprendidos em casa e no meio social.


Sou mais prático que Sartre por causa do espírito nietszchiano: Não existe essência, ela também é uma invenção! Existe o papel de uma essência por meio da existência! 


-Gabriel Meiller

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

"Temo não nos desvencilharmos de Deus enquanto continuarmos a acreditar na gramática." -Nietzsche




"Estou encantado com isto" Estou sob o encanto disto! Encantar vem do latim incantare, isto é, in-cantare, alguém que sofreu de um canto sobre si, que é a prática do encantamento. O encantamente provavelmente tem origem na percepção do poder da palavra, visto que nas mitologias o mundo é criado pela palavra dos deuses. 


"Preciso me animar" 

Preciso colocar alma, ar, sopro... em mim.


Do latim Anima que significa alma, sopro, brisa.


As palavras... Ah, as palavras! Elas carregam mais de mil gerações em si mesmas, são rastros de mentalidade. As palavras são um conjunto de signos interdependentes entre si que revelam o inconsciente da atual humanidade. Esse inconsciente linguístico é prova das nossas crenças e da evolução de nossa consciência (evolução apenas como mudança de forma). 


Não percebem? Somos determinados e estamos presos na linguagem; não podemos ir além dela e filosofar nos limites da linguagem e tentar reconstruí-la. Caso consigamos, isto significa tentar alargar nossa percepção e descrição do mundo. Como disse o Terror dos metafísicos: "Temo não nos desvencilharmos de Deus enquanto continuarmos a acreditar na gramática." O precioso filólogo que enxergou na linguagem verbal e escrita os rastros do instinto de teólogo, da visão essencialista que concebe o eu como ente autônomo das demais faculdades, fez uma constatação impetuosa e típica de filólogo, de todo linguista, aliás. A constatação do quanro somos falados pela lingua e pensados por ela e pelos mitos!


Se o conceito de "unidade" de origem metafísica e pré-filosófica contaminou a filosofia, nos confundimos ao achar que podemos obter o conhecimento da verdade. Pois a verdade deriva da falsa noção de unidade, que deriva de Deus como Essência. Muito mais de XXI séculos, senhores, e ainda cultuamos a deus e à metafísica inconscientemente, por meio da indução ao engano da verdade como unidade! 


Conserva a vontade de verdade... e verás a tragédia epistemológica, a enganação e o erro cartesiano. Novamente: "Temo não nos desvencilharmos de Deus enquanto continuarmos a acreditar na gramática."


Temo não ser compreendido, e não serei; mas como disse o Nazareno em suas fábulas: "Não dêem aos cães o que é santo, nem atireis vossas  pérolas aos porcos!" Então tampouco disperdiçarei meu tempo com estes que ainda são fiéis à gramática e a utilizam para normativizar o pensamento. 


-Gabriel Meiller

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

A maquinaria ontológica desgovernada

 





Havia um trem que partia para Canaã antes mesmo dela existir. 


Platão, Aristóteles, bem como os escolásticos, junto com o povo, anseavam pelo seu destino feliz, pelo brilho celeste do paraíso aos humildes de coração. Esses antes mencionados eram os maquinistas que controlavam o trem e muito mais do que isso: a maquinaria! 


Todos os passageiros daquele trem e também daquela máquina frenética movida a esperança de um sentido, entoavam louvores ao período da arché. A cada cântico a arché era modificada gradualmente para Arché, para Aquele cuja  misericórdia do mundo durou mil gerações por meio da Arca! 


Este era o Arché do universo; o Arquiteto fiel do início ao vindouro fim. E todos, exultantes, cantavam em uníssono: "Castelo forte é o nosso Deus. Amparo e fortaleza; com seu poder defende os seus!"


Mais do que breve, esta maquinaria ambulante metafísica parava nas estações e os famintos adentravam em sua glória. Estes vindouros se assentavam e seguiam o coro e cantavam em conjunto: "Castelo forte é o nosso Deus..." e assim o trem ganhava maior notoriedade. 


Entretanto, alguns assaltantes adentraram este trem afim de assaltar sua paz. A quadrilha se dividia em 

Nietzsche, Freud, Marx, Darwin, Feuerbach... entre outros que entravam em diferentes momentos. 


 A cada entrada os indigentes eram lobos infiltrados. Após o fim do coro, berravam e eram espalhafatosos em suas engenhosidades. A cada parada em uma estação eles jogavam um dos santos para fora do trem e mandavam o trem seguir.  


O trem seguia e o coro dos santos era menor até o ponto em que podiam falar sem os ruídos sacerdotais. Enquanto falavam, o trem mudava de caminho, tremia e andava em zigues-zagues. 


Nietzsche pregava a morte da Arché; reverberava: "estamos caindo, estamos caindo no abismo! Entretanto, podemos dançar, podemos sair do percurso "certo" e curtir o despropósito, senhores! "


Freud, dizia: "o maquinário é irracional, senhores. O maquinário carece de sentido e reparos, por isso projeta trilhos imaginários ineficientes." 


"O maquinário é produto da macro-estrutura; o maquinário e os maquinistas são produto das relações comerciais e nossa metafísica é um desfarce para suportarmos o caminho que leva à exploração da mão de obra." disse Marx.


À sua maneira cada um tentou mostrar que o trem trilhava um caminho imaginário, uma trilha que não iria para Canaã. "Quando Canaã irá chegar, senhores? Estamos a quase 100 paradas... e nada!" argumentou Feuerbach. 


"Canaã é uma tentativa de suportar os assentos e o tempo de canções desse  maquinário!", constatou Albert Camus. 


Até que os maquinistas originais foram dispersos, o trem entrou em rebelião e foi esfacelado para que não mais pudesse funcionar. Tudo foi feito a golpes de martelo nas engrenagens do trem para que os passageiros não continuassem aquele pouco conhecido caminho de morte! 


Após um tempo, porém, a procissão que cantava: "Castelo Forte é o nosso Deus..." tomava conta da antiga rota marcada de trilhos enferrujados. Todos seguiam confiantes e retumbantes como uma manada poderosa que corria mais rápida que guepardos! Ninguém os podiam silenciar! 


Ao seguirem pela calada da noite em gloriosos cânticos, ouviu-se um súbito silêncio que se seguiu após um estrondoso ruído derradeiro semelhante a sacos de carne caindo de alturas colossais. Um barulho semelhante a bifes sendo batidos pelo martelo de um açogueiro.


O martelo, entretanto, era o chão: todos caíram no abismo! O abismo era o fim de um enorme planalto disfarçado de campos verdejantes e que culminava na baixa fossa do desconhecido vale de pedras que por todos os lados rodeava a enorme Ilha do Acaso. 


Todos estes assaltantes concluíram o que seus instintos já desconfiavam: a maquinaria não era o trem, mas a ontologia dos mestres da finalidade, daqueles enganadores da vida que, suicidas, adiantavam sua vida aqui em prol da falsa esperança do porvir! 


Este canto da sereia, mais mortal que qualquer trem desgovernado, convertia qualquer ferramenta e qualquer transporte que, ao invés de um eterno retorno, servia de engano linear e cartesiano para que mais mestres da finalidade fossem tragados pelo ódio à vida.


-Gabriel Meiller

sábado, 26 de agosto de 2023

O surgimento da verdade: seria ela uma mentira?

 




A verdade merece uma história de si mesma. Não me julguem capaz de historicizar a origem da verdade, senhoreas (senhores e senhoras). Mas eu irei dar uma prévia do que seria uma historicidade da verdade, uma prévia muito mais metafórica do que verídica, pois investigar um vestígio de mentalidade humano é uma tarefa suicida! 


O consenso historiográfico que permeia todo o (in)consciente coletivo geral é de que a verdade surgiu conforme a consciência humana foi surgindo. Oh! Que surpresa, senhoreas! Acho que esse tipo de constatação é totalmente original e nunca antes visto! Então a verdade nasceu do que estava de acordo com a visão humana sobre o meio externo a ela (pois a convenção da consciência humana é de que ela possui uma divisão para com o mundo, passando a ser o externo e ela e seu corpo o meio interno. Aí já percebemos a origem do binarismo mais básico e pedagógico que moveu o homem no mundo).


A verdade, então, se fundou sobre um consenso do olhar humano. O "fora" e o "dentro"!  Isso mostra o seu caráter intersubjetivo e diplomático para com a percepção (percepções) humana(s). A verdade seria o que está de acordo com essa base da observação do que acontece "fora" em relação ao que ocorre "dentro". E essa observação está pautada na exatidão dessas observações. 


Mas essa observação é apenas um fragmento do que é a verdade; a verdade é como uma construção composta de diversos alicerces. Um deles é a exatidão da observação dos fenômenos internos e externos. O outro alicerce é a verdade como uma descrição não literal, mas que expressa uma tentativa de entender algum fenômeno do mundo. Estou falando sobre o aspecto mítico da verdade e não mais literal. Como surgiu o mundo? A mitologia, munida da cosmologia, teogonia, entre outras descrições... expressará uma verdade, isto é, uma codificação que expresse de forma metafórica, hiperbólea, eufêmica ou de outra natureza acerca do surgimento de algo. 


Para os antigos, impregnados do pensamento mágico, esta descrição era racional e descrevia com semelhante precisão a origem do homem e da Terra assim como a cosmologia aristotélica explicava as estruturas do universo a respeito da Terra. 


Temos então a verdade como revelação de algo que antes era desconhecido; temos a verdade como interpretação exata do mundo pelo consenso de um "externo" e um "interno"; temos, então, a verdade como literalidade  e como descrição metafórica de algo, como nas mitologias.


 Soma-se dentro deste último ponto os mitos que tratam a respeito das dinâmicas humanas. A história de Rômulo e Remo, Abel e Caim, são verdade! Se repetem na vida de muitos; a história de Adão e Eva, que comem do fruto do conhecimento do bem e do mal e são punidos, é verdade e se repete em todo aquele que busca o conhecimento e se sente o homem da caverna que se libertou das correntes e foi importunar os demais ao dizer que estavam nas sombras! 


Entretanto, nosso espírito de época decidiu reduzir a verdade à literalidade do pensamento. O raciocínio foi obrigado a se tornar literal e científico em muitos grupos sociais. Uma prova disso são os religiosos que querem interpretar uma verdade mítica pela verdade literal e assim fazem uma miscelânea de verdades! A verdade como literalidade está no senso comum e sendo muito mal impregada. Sejam religiosos, sejam ateus: todos bebem da mesma fonte da verdade! E então não entendem quando a verdade aparece em uma de suas mil faces. Só a enxergam sob o parecer da literalidade, do "é" ou "não é". 


 A mentira surge como uma oposição ao conceito vigente de verdade, "o que não é"! O que não é verdade, é mentira! Logo, a mentira e a verdade são uma invenção. Digo melhor: o conceito linguístico do que é verdade e mentira são invenções. A verdade não é um ente que anda por aí! A verdade não existe fora do aparelho psíquico. O que existe são fatos, fenômenos e acontecimentos. Por isso posso dizer que a verdade é uma invenção, isto é, uma linguagem. Ela é o símbolo dentro da linguagem usado para que o ser humano se aproprie de fatos mediante sua consciência e a transmita a outros seres humanos! A verdade é uma "mentira" desde o seu nascimento porque estamos presos na linguagem e na imprecisão dela! 


-Gabriel Meiller, prisioneiro da linguagem.

A alienação na ciência (e nas demais linguagens)

 






"O que é o homem?"


"Bem... um conjunto de átomos e moléculas orgânicas que tem evoluído desde os seres marinhos e que chegou à terra na forma de répteis, aves, anfíbios, mamíferos e de um dos ramos dos mamíferos: aqueles de grande porte. Desse encadeamento dos seres vivos surgiu o homo sapiens! Este é o homem!"


Esta seria em essência a resposta da ciência e sua definição. E está correta em vias gerais; ainda há detalhes e esmiuçamentos que serão aperfeiçoados com os aprofundamentos científicos, mas temos uma verdade descritiva e literal segura e consolidada, principalmente depois da biogenética que trouxe uma exemplificação bioquímica sobre a evolução do homem advinda do ancestral em comum com os demais primatas. O último passo, para estar dentro dos credos do neopositivismo, seria a reprodução em laboratório da evolução. Entretanto isso implica questões éticas e quase impossíveis de se realizar pelo longo, longo, longo prazo que levaria uma evolução em laboratório. 


Mesmo se isso ocorresse os dogmáticos cristãos, literalistas do gênesis que andam aos montes por este grupo de ateus, ainda não se convenceriam desta verdade científica. 


Mas após dizer tudo isso, temos que pensar criticamente sobre as consequências da redução da pergunta "o que é o homem" ao pressuposto científico. "Será que o reducionismo científico equivale à verdade absoluta sobre o que é o homem?" Essa pergunta soa e é idiota de certa forma! Pois bem, temos que ser ridículos para que sejamos inteligíveis pela pedagogia esdrúxula! 


A ciência não trabalha pela ilusão de verdades absolutas, mas ela é o constante espírito crítico. Na ciência um novo paradigma que se mostra mais eficaz na explicação de algum aspecto do mundo, substitui o antigo paradigma a partir do momento em que ele é considerado obsoleto!(Thomas Kuhn).  A ciência não se pretende absoluta, muito menos exclusiva e monopolizadora ao abordar as verdades; entretanto, os seres humanos são absolutizantes, frágeis ao ponto de sempre pulularem de uma verdade definitiva para outra: senão na religião, na ciência; senão na ciência, no misticismo; senão no misticismo, em outra linguagem. Cabe, então, que cada um valore por qual verdade quer viver e se quer fechar seu julgamento em torno de uma verdade que aos olhos de outro pode ser "mentira". 


Mostro-lhes um caminho mais excelente: não se alienem em nenhuma linguagem, isto é, não reduzam a verdade (este ente imaginário preso na linguagem) a uma só linguagem. Saibam diversificar e entender que cada linguagem expressa sua verdade de forma relativa às suas proposições. A verdade mítica tem seu valor (menos quando é interpretada de forma literalizante, como os amigos dominicalistas que de fato enxergam o homem como criado do barro); a verdade científica tem igualmente o seu valor (pois ela nos abre portas de cura e saúde para com o corpo e a mente ao entender os processos evolutivos); a verdade filosófica tem também o seu valor (pois ela vai além da descrição procedimental do "como é algo", ela questiona a validade ou finalidade e aplicação das outras verdades, sendo uma verdade, ou melhor, concepções e possibilidades de novas verdades sempre pulsante que aviva a epistemologia geral e dá a ela andamento e movimento. 


Já a linguagem artística não se preocupa com a categorização "verdade". Ela é uma linguagem com ênfase na expressão humana e já não tem finalidade de apresentar verdades ou mentiras; ela vai além da verdade e da mentira, do bem e do mal (da valoração) a não ser quando é aplicada em avaliações artísticas de jurados pela dança, programas de auditório, etc... que seriam aplicações da arte. 


"O que é o homem?" A arte diria que é um ser radiante que manifesta suas peculiaridades ao mundo de forma totalmente diferente dos demais animais: de forma artificial, isto é, feita como um trabalho de artíficie que transforma uma matéria prima em algo totalmente inédito aos demais animais. Ou melhor: a arte seria a demonstração prática desse aspecto do homem.


"O que é o homem?"  A religião o coloca como alguém que carrega a divindade em si mesmo, alguém que veio da criação engenhosa de outro plano. 


"O que é o homem?" A antropologia diria que ele é uma massa modelável de acordo com sua cultura e que as culturas são tão peculiares e surgem de uma complexidade inumerável de micro e macro-fatores. 


"O que é o homem?" A filosofia nada diria; em verdade ela ficaria espantada com a definição e riqueza das  demais linguagens e também surpresa por não haver uma unificação e consenso absoluto do que signifique o homem e o que ele seja. A filosofia questionaria esse "O que é" e questionaria este "o homem". Ser em que sentido? Essencial? Isso existe ou é ilusão humana? E o que entendemos por homem?  


Agora que tudo isso foi dito, a minha conclusão é esta: se alienar nas linguagens significa negar uma parte do mundo que não está fundamentado em alguma delas. Significa o reducionismo existencial e a degradação da totalidade da vida. Se a opção pessoal de um indivíduo for viver por um tipo específico de linguagem, a valoração é totalmente sua e não deve ser questionada a não ser por ele mesmo. Mas a imposição coletiva ou social de um tipo de linguagem como redentora do mundo e de seus problemas... é certamente uma noção totalizante, isto é, falsa! 


-Gabriel Meiller, o prisioneiro da linguagem.