Havia um trem que partia para Canaã antes mesmo dela existir.
Platão, Aristóteles, bem como os escolásticos, junto com o povo, anseavam pelo seu destino feliz, pelo brilho celeste do paraíso aos humildes de coração. Esses antes mencionados eram os maquinistas que controlavam o trem e muito mais do que isso: a maquinaria!
Todos os passageiros daquele trem e também daquela máquina frenética movida a esperança de um sentido, entoavam louvores ao período da arché. A cada cântico a arché era modificada gradualmente para Arché, para Aquele cuja misericórdia do mundo durou mil gerações por meio da Arca!
Este era o Arché do universo; o Arquiteto fiel do início ao vindouro fim. E todos, exultantes, cantavam em uníssono: "Castelo forte é o nosso Deus. Amparo e fortaleza; com seu poder defende os seus!"
Mais do que breve, esta maquinaria ambulante metafísica parava nas estações e os famintos adentravam em sua glória. Estes vindouros se assentavam e seguiam o coro e cantavam em conjunto: "Castelo forte é o nosso Deus..." e assim o trem ganhava maior notoriedade.
Entretanto, alguns assaltantes adentraram este trem afim de assaltar sua paz. A quadrilha se dividia em
Nietzsche, Freud, Marx, Darwin, Feuerbach... entre outros que entravam em diferentes momentos.
A cada entrada os indigentes eram lobos infiltrados. Após o fim do coro, berravam e eram espalhafatosos em suas engenhosidades. A cada parada em uma estação eles jogavam um dos santos para fora do trem e mandavam o trem seguir.
O trem seguia e o coro dos santos era menor até o ponto em que podiam falar sem os ruídos sacerdotais. Enquanto falavam, o trem mudava de caminho, tremia e andava em zigues-zagues.
Nietzsche pregava a morte da Arché; reverberava: "estamos caindo, estamos caindo no abismo! Entretanto, podemos dançar, podemos sair do percurso "certo" e curtir o despropósito, senhores! "
Freud, dizia: "o maquinário é irracional, senhores. O maquinário carece de sentido e reparos, por isso projeta trilhos imaginários ineficientes."
"O maquinário é produto da macro-estrutura; o maquinário e os maquinistas são produto das relações comerciais e nossa metafísica é um desfarce para suportarmos o caminho que leva à exploração da mão de obra." disse Marx.
À sua maneira cada um tentou mostrar que o trem trilhava um caminho imaginário, uma trilha que não iria para Canaã. "Quando Canaã irá chegar, senhores? Estamos a quase 100 paradas... e nada!" argumentou Feuerbach.
"Canaã é uma tentativa de suportar os assentos e o tempo de canções desse maquinário!", constatou Albert Camus.
Até que os maquinistas originais foram dispersos, o trem entrou em rebelião e foi esfacelado para que não mais pudesse funcionar. Tudo foi feito a golpes de martelo nas engrenagens do trem para que os passageiros não continuassem aquele pouco conhecido caminho de morte!
Após um tempo, porém, a procissão que cantava: "Castelo Forte é o nosso Deus..." tomava conta da antiga rota marcada de trilhos enferrujados. Todos seguiam confiantes e retumbantes como uma manada poderosa que corria mais rápida que guepardos! Ninguém os podiam silenciar!
Ao seguirem pela calada da noite em gloriosos cânticos, ouviu-se um súbito silêncio que se seguiu após um estrondoso ruído derradeiro semelhante a sacos de carne caindo de alturas colossais. Um barulho semelhante a bifes sendo batidos pelo martelo de um açogueiro.
O martelo, entretanto, era o chão: todos caíram no abismo! O abismo era o fim de um enorme planalto disfarçado de campos verdejantes e que culminava na baixa fossa do desconhecido vale de pedras que por todos os lados rodeava a enorme Ilha do Acaso.
Todos estes assaltantes concluíram o que seus instintos já desconfiavam: a maquinaria não era o trem, mas a ontologia dos mestres da finalidade, daqueles enganadores da vida que, suicidas, adiantavam sua vida aqui em prol da falsa esperança do porvir!
Este canto da sereia, mais mortal que qualquer trem desgovernado, convertia qualquer ferramenta e qualquer transporte que, ao invés de um eterno retorno, servia de engano linear e cartesiano para que mais mestres da finalidade fossem tragados pelo ódio à vida.
-Gabriel Meiller
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