sábado, 1 de junho de 2024

O apagamento das divisórias e a burlagem do gosto pelo absoluto


Existem linhas... daquelas semelhantes às linhas imaginárias que formam coordenadas geográficas. Os trópicos de câncer, de capricórnio e a linha do equador sociais são os nossos costumes morais que norteiam o que somos enquanto sociedade. E as chamadas divisórias são as linhas de limite entre o que é nosso e o que é do outro; o aceitável e o inaceitável.


Somos uma construção refinada de muitas morais que foram aculturadas em nosso íntimo e que formaram linhas divisórias bem delineadas. Somos emoções complexas  que são resultado de diversos ensinos, crenças e vivências. A forma de amar,  ler e sentir o mundo de forma particular foi impressa nas profundezas de nossa psiquê e mesmo que posteriormente passemos por mudanças  que alterem radicalmente a nossa identidade, as camadas dos velhos eus ficarão sedimentadas em nós de forma permanente. 


"Tudo é disposto de forma que o pior gosto, o gosto do absoluto, seja cruelmente burlado e profanado até que o homem aprenda a colocar um pouco de arte em seus sentimentos..." 


O gosto do absoluto é o que nos faz criar divisórias não somente entre nós e o outro, mas entre nós e os nossos diversos eus antigos. Não somos um eu harmônico, mas uma somatória e uma amálgama de diversos eus. E quando aprendemos a colocar arte em nossos sentimentos, convivendo com nossas contradições, não opondo a verdade à mentira, o egoísmo ao altruísmo, a agressividade à passividade e o nosso bem ao nosso mal... então nós derrubamos essas divisórias artificiais que segmentam nossos eus e nos tornam pobres em sentimento e em humanidade. 


O apagamento dessas divisórias é um convite a vivenciar de forma plena a vida que em si é plural e complexa.


Hoje eu estava andando na praia e ouvindo música e então a nostalgia das músicas de infância/ adolescência emergiu. Antes de ter derrubado essa divisória eu nem sequer me atreveria a escutar  e cantar aquelas músicas. Eram músicas gospel da Oficina G3 e de um eu que hoje já não pensa pelas categorias metafísicas (isto é, acreditando num ser superior que criou o mundo e ama o ser humano). Mas aquele eu de décadas passadas ainda vive nos escombros das amálgamas da minha totalidade. Por esse motivo eu o convidei a ressurgir. Ouvi e cantei as músicas que representam as crenças que um dia eu já tive, sentindo a nostalgia e as implicações passadas daquele eu.  Ao fazer isso eu entendi que isso também é ser historiador: historiador da minha própria vida. 


As crenças metafísicas são um lado meu que não pode e nem deve ser apagado, mas rememorado e acolhido pelos demais eus. Essa é a beleza do fim das divisórias, da queda dos muros de berlim, do fim das oposições que criam o bem e o mal.  E nesse ato eu faço, assim, as pazes comigo mesmo e com o meu passado sem ter raiva do que fui e sendo feliz por quem sou hoje. Embora eu não me reconheça mais como teísta, crente ou religioso, entendo a força desse universo que me fez mais forte ao quase ter me matado. Pois o caos interno que cria uma estrela dançante, também forja verdadeiros diamantes e nuances internas que fazem da vida o que ela é: complexa e misteriosa. 


-Gabriel Meiller 

sexta-feira, 31 de maio de 2024

O animal doente: o homem teleológico


A teleologia é o hábito de dar finalidade às coisas. Poderíamos mencionar a frase "os fins justificam os meios" para isso. Existem diversos ramos na teleologia, isto é, no hábito de dar finalidade a algo. A finalidade do trabalho costuma ser pensada como: enobrecimento do caráter e a possibilidade de sustento aos que vivem no sistema capitalista; a finalidade da musculação é pensada como requisito para "colocar o shape" e melhorar a saúde física e mental. A finalidade da escola costuma ser pensada como a propiciação de condições básicas para criar um cidadão crítico e independente (risos). A finalidade da faculdade  costuma ser pensada como a formação e habilitação do estudante para exercer uma profissão (risos, novamente). 


E a finalidade da vida?  Quem ou o que irá se atrever a colocar uma finalidade a essa metadinâmica? 


Só podem ser as religiões e suas réguas morais e existenciais, é claro. Só podem ser os líderes religiosos atrevidos que são ingênuos o bastante para achar que sabem o que é a vida e o que devemos fazer dela (lágrimas).


"Vivemos para adorar e glorificar a Deus..." diria um protestante ou católico. 


"Vivemos para amenizar o sofrimento dos seres sencientes..." diria um budista. 


"Vivemos para fazer o bem e evoluir aqui nesta vida..." diria um espiritualista. 


E então os mestres da finalidade ganham o status de coachings sobre o sentido da vida. Estes são os verdadeiros mestres da finalidade, os homens teleológicos. E o excesso de sentidos e finalidades que damos à vida podem trazer exaustão, cobranças, medos e angústias. 


Mas... e se quisermos romper com algumas réguas morais normativas? E se nos portarmos como espíritos livres questionadores que desenvolvem sua própria finalidade? Se tentarmos, em alguma medida, cultivar um pouco do além-homem de Nietzsche? Seremos um cão que anda sozinho com a própria coleira na boca, atravessando as ruas da cidade. Nos primeiros momentos, viver sem a finalidade padrão pode nos trazer novos medos e inseguranças, isto é verdade. Mas depois dessa mudança a leveza e o sentimento de pertencimento a si mesmo não têm preço. É necessário, no entanto, vencer o medo do desconhecido e mergulhar (mesmo que de forma tímida) na moral que vai para além do bem e do mal. É necessário definir o seu próprio conceito de bem e mal.

 

E um dos benefícios ao não colocar metas e finalidades em tudo o tempo todo (ou melhor: colocar a sua própria meta e finalidade em tudo) se concretiza na sanidade mental. O relaxamento do córtex pré frontal ocorre quando não há uma finalidade constante nos assombrando e psicossomatizando nossas emoções em sintomas corporais como dores de cabeça, tensão muscular, queda da imunidade, dores de estômago, depressão, ansiedade, etc. 


Se queremos ser mestres da finalidade... que criemos a nossa própria finalidade por meio dos nossos próprios valores para que assim sejamos como o cão da imagem abaixo. 





-Gabriel Meiller

quarta-feira, 15 de maio de 2024

A metamorfose do camelo em "Assim Falou Zaratustra"

 

No primeiro discurso de Zaratustra, após ele perceber que sua missão não era falar às multidões , mas sim agir como um lobo desgarrado que afasta do rebanho as ovelhas oprimidas pela moral de rebanho, ele menciona sobre as três metamorfoses do espírito humano. Os arquétipos são em sequência: camelo; leão; e a criança! 


O discurso de Nietzsche nesse livro ficcional, por meio de sua personificação zaratustriana, tenta encarnar todos os seus principais conceitos já explanados anteriormente, principalmente o conceito do Übermensch (além-homem ou super-homem). E seu primeiro discurso retrata a trajetória na qual o espírito humano terá que  percorrer até alcançar esse ideal nietzschiano. O primeiro estágio a ser superado para que o Super-homem possa emergir é o estado pesado e moralista da humanidade: o camelo. 


O camelo é descrito como  a representação de um espírito forte pelo fato de suportar as pesadas cargas e ainda carregá-las com reverência. Que cargas são essas? São as tradições humanas, ideologias, dogmas e toda obrigação representada pelo imperativo categórico kantiano no qual Nietzsche se opunha severamente: o "tu deves!". O dever, a obrigação em demasia é um aspecto que sufoca o ser humano e o priva de chegar ao estágio criador por excelência. Quem é criativo? Quem não segue padrões a todo momento; é necessário ser transgressor para ser criador (papel que começa no leão e se realiza na criança), porém, o camelo não quer ser criador, e sim um imitador! 


O camelo pode ser representado pelos moralistas, pelos "responsáveis", pelos disciplinados e workaholics que amam o dever e o colocam acima da diversão e do descanso. "Descansa, militante!" diria Nietzsche nos dias atuais. Seja este um militante cristão, seja um militante de esquerda que carrega em seus ombros (como o camelo) o peso do mundo e daqueles que sofreram as injustiças. 


Jesus, o sofredor, é o camelo por excelência. Ele carregou, na mitologia cristã, os pecados de todo o mundo diante de seu pai celeste. Mas, se Jesus era Deus, segundo essa mitologia, a diferença deste personagem para nós... é insuperável. É por esse motivo que a compaixão, um forte ideal cristão, é um desmonte à vontade de viver. A compaixão se ocupa da miséria do outro e o trata como um incapaz. O excesso de compaixão e piedade, somados à caridade compulsória... são venenos que a cultura cristã (aspirante à miséria) nos relega.


O camelo, de outras formas, pode estar em muitas intenções e sistemas humanos. O camelo está no árduo esforço que um funcionário faz para que a sua empresa enriqueça e os filhos de seu patrão gozem de férias na Disney. O camelo está presente no executivo que sai de casa para fazer dinheiro e ganhar o mundo, mas adoece de tanto trabalhar e deixa sua família ao desprezo. 


O camelo também é o moralista cristão que se orgulha em carregar pesos pesados, como o sacrifício e a mutilação de si ao renunciar o mundo real em troca de um suposto mundo vindouro. Ele não fuma, não bebe, não transa antes do casamento, não ouve outros estilos musicais a não ser o gospel... e ele ama se sentir honrado por este peso que o esmaga. Ele ainda pede mais para se sentir digno o suficiente diante de todos. 


O camelo é o frequentador religioso das academias que submete seu corpo a uma maratona incansável para ser admirado por sua estética e músculos; é o cientista e o filósofo que se orgulha em se encher da "erva do conhecimento" e ser reconhecido como sábio e intelectual. O camelo é nosso orgulho clamando por reconhecimento através do sadomazoquismo desenfreado que nos assola. Ele pode ser o superego freudiano que em excesso nos quebra existencialmente ao suprimir toda nossa criatividade e vontade de viver. 


Esta é a nossa dimensão interna chamada: camelo! 


-Gabriel Meiller 


sexta-feira, 19 de abril de 2024

Acolhendo o lado negro: para ser grande, sê inteiro!



Sim,  às vezes eu sou escroto e pau no cu mesmo!  Exatamente: às vezes eu invejo os outros pelos seus pontos fortes e privilegiados. Sim, eu também já trai alguém e fui machista, homofóbico, racista e insensível! No final das contas somos todos impoliticamente incorretos e escrotos e está tudo bem, sim! 


 A culpa cristã somada  à militância política de esquerda (ou direita)fez do nosso moralismo uma caverna que nos distancia do mundo em uma grande hipocrisia! 


Condenamos a nós mesmos e ao outro de forma voraz. Até que ponto isso faz bem? Até que ponto a culpa cultural cristã e seu controle rígido é algo bom? Ser gentil consigo mesmo não significa ser um fascista ou sociopata despreocupado com o mundo, mas é o começo do amor próprio. O amor próprio deve ser por inteiro, sem condicionantes e livre da busca incessante para nos tornarmos um cristal lapidado!  Aceitarmos a nós mesmos com nossas falhas é o princípio de uma vida menos doentia e menos corroída pela culpa e pela cobrança excessiva. 


Vejam bem, meus caros, o mundo é assolado por uma epidemia grave: a epidemia do autoaperfeiçoamento sem limites, isto é, a síndrome do cristal lapidado! 


E sim... eu continuarei sendo pau no cu, egoísta, invejoso e mais outros adjetivos negativos, bem como os positivos.  E continuarei me aceitando e convivendo com meu lado negro. E, sim: irei usar a expressão "negro" independente dos protestos da galera do letramento racial, eles que lutem!  Já dizia o poeta: "Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui." E sabem o que eu descobri?  Que eu sou exagerado e dramático por natureza, essa é a minha personalidade na qual muitos reconhecem e que tem características que resvalam no "lado negro" e "lado luminoso".  Sem o meu drama, a minha vida seria uma exclusão, uma cisão e eliminação da minha forma de me expressar !   


Não é possível amputar de nós o nosso lado negro sem também eliminar o lado solar, nobre e alegre! Até quando iremos amputar nossa personalidade e esconder nossos defeitos por causa do julgamento alheio?  Se pudermos mudar, que mudemos; mas se não pudermos... que possamos ter a nossa própria compreensão incondicional em primeiro lugar e depois a compreensão alheia que sempre será condicional! 


-Gabriel Meiller

quarta-feira, 10 de abril de 2024

Aceitando a dualidade

 

A ânsia em maximizar a alegria e evitar a tristeza é a verdadeira desgraça do ocidente. "Não crie expectativas, não se apegue tanto, não fique triste..." são frases comuns e que possuem o objetivo de separar a alegria da tristeza. Isso é absurdo! 


A beleza de aceitar as emoções e todos os polos da dualidade é ser inteiro. "Para ser grande, sê inteiro" disse o poeta Fernando Pessoa.  E ser inteiro significa aceitar cada parte de nós: as partes sombrias e as solares; os sentimentos bons e ruins, o bem e o mal que anda à nossa espreita. 


Covardia maior seria fugir do que nos incomoda e aceitar somente as alegrias. As alegrias não são alegrias sem o parâmetro das tristezas para nos ajudar a avaliar o que é bom. O bom, além de subjetivo, é inexistente sem o ruim. Só existe conhecimento se houver a comparação entre as partes que formam o todo.


É razoável abraçar a tristeza, assim como a alegria porque a dor é tão próxima do prazer... como cantou Freddie Mercury. 


-Gabriel Meiller 




quarta-feira, 3 de abril de 2024

Mortes, rupturas e renascimentos

    



Depois da grande tragédia raiou a esperança como o sol inesperado que surge por de trás da nuvem negra. O caminho da cura muitas vezes é a doença, bem como o consumo que a chaga traz ao seu refém.  Os limites que são cruzados se revelam como novas linhas de partida; limites devem ser cruzados, mas o cruzamento deles pode nos levar à quase loucura. Entretanto, quando conseguimos sair do turbilhão da nuvem negra em que estávamos envolvidos, nós renascemos no sol como fênix. 


Um homem/mulher não é definido pelo que é... mas pela capacidade de ser diversas novas versões de si mesmo(a). Sim, a possibilidade de ser é muito valiosa; o tolo se apega sempre ao que foi e se prende no passado. Mas aquele que está disposto a encarar o abismo e receber dele uma encarada maior (e o abismo é sua vida interna), se torna a verdadeira fênix.  


Eu já morri diversas vezes nessa vida. A grande primeira ruptura e morte foi quando eu decidi abandonar toda uma criação religiosa que me aprisionava e me alienava do mundo. Quem vê minha admiração por Nietzsche sabe do que estou falando. Essa morte para a crença em ideais religiosos e metafísicos foi a que mais me deu vida e vida em abundância. Mas sabem de uma coisa? Volte e meia substituímos nossos antigos ídolos por novos... e sempre será assim. Então me aprisionei novamente na ilusão de que uma pessoa poderia me fazer completo e toda aquela ladainha do amor romântico. Mais uma vez me tornei prisioneiro das minhas emoções que, no ímpeto da juventude, não repousaram até que eu me desfigurasse pela exaustão de fazer uma relação falida dar certo. 


Percebi, após o ocorrido de 4 anos, que o problema estava não somente em mim e na pessoa. Estava também na estrutura com a qual aprendemos a amar românticamente alguém.  Em relações desse tipo o exclusivismo emocional cerca o casal e o sufoca!


Amorosamente falando, esse (des)afeto só pode ser direcionado ao cônjuge e a mais ninguém. O sexo também só pode ocorrer com o escolhido(a) e mais ninguém. O que isso significa senão comer batata frita todos os dias até vomitar? Aí estava o problema para mim! Eu não sou daqueles que se contenta em comer batatas fritas todos os dias; eu gosto de comer um bife a parmegiana em um dia; uma lasanha em outro; um purê com carne moída em outro dia e por aí vai. Então, assim como a religião me trouxe dor de cabeça e eu decidi romper com isso... o amor romântico (uma quase religião) me deu outra dor de cabeça terrível e também decidi romper com ele. 


Agora, após outra morte e renascimento... eu quero ser um espírito livre. Daqueles que vai aonde o vento lhe impelir, navegando os setes mares e vivendo a vida como bem entender e desejar. São rupturas minhas e de mais ninguém ou apenas aos que enxergam a vida de forma semelhante.


-Gabriel Meiller 

terça-feira, 2 de abril de 2024

O brincar alegre

  A vida é o brincar alegre dos espíritos humanos: a cada momento em ser algo diferente. Eles se servem de ideologias, dogmas ou qualquer outro acervo teórico para que leiam o manual da brincadeira. Alguns se perdem no manual e deixam de brincar, já outros esquecem até das regras fundamentais do jogo. Que importa? Vale a diversão, valem as explorações pelo mundão em céu aberto. Vale, desta forma, o ir sendo a cada momento uma diferente versão de si mesmo a cada dia, a cada ano, a cada época! 


"Para ser grande, sê inteiro", disse o poeta. E acrescentou: "Nada teu exagera ou exclui".


-Gabriel Meiller