sábado, 29 de outubro de 2022

A natureza do desejo

 



 Todos nós alguma vez já passamos pela semelhante sensação de enjôo. A receita para esse tipo de sensação é o excesso; e mais ainda: a conquista. O homem enquanto desejador, constituído por uma explosão de sentidos e desejos contraditórios, é um ser aspirante por natureza. A aspiração e a não realização do desejo é o combustível existencial para que este primata guloso se mova na existência.


A inquietação e euforia humana é uma consequência do desejo utópico, platônico e não realizado. Falando de forma biológico-evolutiva, as estruturas cerebrais e orgânicas de um homo sapiens funcionam a base de estímulos e liberações de hormônios do prazer, como a dopamina e a ocitocina, por exemplo. 


O sexo, a apetitosa comida, a realização de um desejo... são sinalizados e recompensados pelo cérebro após a posse, isto é,  a satisfação das carências existenciais. Recompensar o sexo através de hormônios do prazer é um sinal de que nosso organismo está preocupado em reproduzir e manter a espécie viva.


A recompensa de comer uma refeição, através das endorfinas liberadas, são uma sinalização do organismo de que ele precisa se alimentar para sobreviver fisicamente e não morrer de inanição. 


O batimento cardíaco acelerado é um reforço orgânico e cerebral que se manifesta mediante o medo, ou seja, um mecanismo de defesa que visa preservar a espécie humana.


Porém, quando conseguimos o que almejávamos, o que tínhamos curiosidade em conhecer, em ter, em experimentar... esses hormônios de gratificação diminuem. Os hormônios que antes o cérebro produzia por causa de tamanha euforia devido à inalcançabilidade do desejo, agora diminuíram e o ser desejoso vivenciou sensações mais normais, ou quem sabe até tediosas pela baixa de hormônios do prazer. A novidade se foi... desceu ladeira a baixo e caiu na rua do conformismo. 


Por que? Por que? Muxoxa tristemente o coração humano! Por quê o que tanto brilhava não brilha mais e produz tamanha luz moribunda? As ruas de cristal e o caminho de diamantes se tornaram lama e esterco. Um caminho de palha na roça, marcado pela monotonia de pálpebras cansadas dos forasteiros perdidos, se faz a única opção aos seres viventes exauridos da vida. 


Estapafúrdia! Estapafúrdia! Aglomerados de lembranças e momentos que logo se findam é a vida. Um rápido e imperceptível flash na escuridão que logo se dissipa sem nunca ter sido antes notado e que refletiu com tamanha moribundidade estapafúrdia. 


O mundo dos prazeres não tem sentido; o mundo como vontade e representação é um surto coletivo dos homo sapiens. Brada a angústia de dentro de um peito entre 6 bilhões de peitos... MUNDO, MUNDO, VASTO MUNDO. O que é tudo isso? Pessoas que nascem, passam a vida se empenhando em desejar e suprir os desejos... para depois acabarem decompostas no túmulo? 


"Não!' Acrescentou a angústia coletiva do homo sapiens, incapaz de ouvir o grito do silêncio. E então surgiu a alma! Surgiram os contos amenizantes que buscaram controlar o homem de seu surto. As religiões são os famosos "era uma vez". Mentiras reconfortantes! Antes mentiras reconfortantes e indivíduos menos surtados, do que verdades enlouquecedoras. Do que o caminho da roça de pálpebras cansadas e sem ruas de cristal. 


A verdade? Às favas. Todas elas nunca me deram nada senão mais dúvidas, pálpebras cansadas e caminhos de roça repletos de esterco e palha podre. A verdade de nada serve para quem é um flash imperceptível na escuridão do abismo. Moralismo ateu? Que vá para a casa do caralho! O ser humano é livre para se iludir, ou se deprimir! 


-Gabriel Meiller

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Sociedade do cansaço como sociedade da irreflexão

 


Nossa forma de valorar a qualidade de vida através do que fazemos na pós-modernidade tem sido uma valoração que faria os antigos caírem na gargalhada. Os renascentistas se ofenderiam com nossa loucura desvairada em lidar com o conhecimento de forma tão superficial e desinteressada, tratando tudo e todos como um meio para alcançar o fim: a felicidade. Ou melhor, a ilusão da felicidade por meio do entretenimento globalizado. Este entretenimento globalizado é um frenético movimento de (auto)inovações e (auto)aperfeiçoamentos a todo momento e sem a valoração e medição adequada sobre a necessidade dessa constante mudança e troca de coisas, objetos, cargos, pessoas, etc. 


Isso significa que virou um quase extinto para o homem moderno este constante movimento de cultivar a alta performance a todo custo e em todas as áreas. Vemos, por exemplo, academias lotadas pela busca do corpo ideal. Entretanto esta busca é desacompanhada de reflexão mais profunda sobre: condições a longo prazo de manter esse estilo de vida; grau de necessidade da busca deste ideal; consciência das etapas e da disposição energética que será investida nesse caminho trilhado.  Constatamos pessoas se formando em universidades, mas não calculando os próximos passos a serem dados ou o fato de não chegarem a completar o curso. Vemos pessoas que se casam, têm filhos e se divorciam, recomeçando o ciclo de forma sistemática como que em instinto. Mas não se questionaram sobre a utilidade ou se de fato querem ter filhos, casar, etc.


Muitos buscam o que buscam pelo fato de uma sugestão midiática e pelas bolhas sociais em que estão. A psicologia das massas do cotidiano fez seu trabalho de pauperizar as ações e reflexões do ser humano que é bombardeado por sugestões de hábitos, desejos e fetiches humanos divulgados pela sociedade de forma marketeira. Estes correm uma corrida dos ratos sem o questionamento principal: "Quero isto de fato ou só estou nesta corrida por ego inflado? Pela vontade desmedida de ganhar e me reafirmar em cima do outro em qualquer área e sob qualquer custo?"


Nossa sociedade é a sociedade do cansaço, pois somos poliatletas em uma enorme maratona com diversas modalidades simultâneas. A felicidade virou obrigação e os requisitos mais básicos precisam ser alcançados por nós: corpo ideal, renda ideal, família ideal, hobbies e forma de se vestir ideal... arre! Para o caralho tudo isso! O ideal mata o real e o cansaço exaure aquele que não exerce o pensamento crítico e pessoal sobre o que quer e para onde irá. 


Só poderá ser um bom competidor quem sabe o que de fato quer e por isso reserva tempo e energia ao que deseja e pelo que de fato é movido. Quem deseja o sucesso em tudo não pode alcançar uma alta performance e logo se cansa, sobrecarrega-se e provavelmente não alcançará nada. As redes sociais são desonestas, visto que mostram somente o ideal deturpado de felicidade de alguns, mas não mostra os esforços concentrados e energia exclusiva que estes investiram para chegar até esta posição, muito menos os momentos de crise e agonia pelo qual passaram. 


Muitos Sísifos emergem na pós-modernidade, visto que são escravos de suas irreflexões e impulsos. São inferiores ao Sísifo original, pois nem sequer chegam ao cúme do monte com a pedra, visto que cansam antes do trajeto a ser cumprido e decidem um outro trajeto, um outro projeto de vida, motivados pela ilusão de melhoria e do falso aprimoramento. 


Somos doutrinados e ensinados a desejar de acordo com as sugestões do meio; sujeitos do desejo razo e impensado. Embora nossa maior área do cérebro seja formada pelas partes responsáveis por decisões emotivas e viscerais, podemos usar as áreas mais racionais para administrar nossos impulsos e desejar com intensidade o que podemos almejar além das meras induções externas e das propagandas que visam manipular e manufaturar o desejo da massa para melhor controlá-la. 


É raro hoje em dia o verdadeiro ato de reflexão... em que o indivíduo dedica tempo e cessa tudo o que está fazendo para pensar e traçar planejamentos pessoais de acordo com sua consciência. Hoje a tecnologia e o mundo globalizado podem planejar, desejar e sonhar por nós. Estamos perdendo nossa autonomia em desejar, lutar, pensar e sentir de forma única e subjetiva. 


-Gabriel Meiller

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Sentimento oceânico e a necromancia vivificadora

 



Romain Rolland, em carta a Freud, descreveu uma experiência mística que teve repetidas vezes como "sentimento oceânico" e que em síntese é a sensação de êxtase e de conexão com o todo e sentimento de algo ilimitado, etc.  


O que Rolland descreveu pode ser sentido de diferentes formas por diferentes pessoas. Mas o que chama a atenção é esta experiência de absorção e impacto deste sentimento. Algo espiritual? Sem dúvida! Transcendental. Mas não está necessáriamente ligado a divindades ou religiões; ateus, agnósticos e simpatizantes da grandeza e da profundidade do conhecimento certamente já sentiram um vislumbre desse sentimento oceânico! 


Minha espiritualidade, assim como a espiritualidade de muitos, é ficar embasbacado com a profundidade e riqueza do conhecimento científico, principalmente quando a cosmologia, astrofísica e outras ciência entram em ação. Quem não navegou por estes territórios e ficou pensativo, impactado, intrigado... e se sentiu imerso nesse oceano de emoções diante da complexidade e mistério do universo? 


A ciência é esta vela no escuro, como metaforou o amado Carl Sagan; este, acima de tudo, nos ensinou esta "espiritualidade científica", ou seja, esse entusiasmo ao encarar a ciência de uma forma vivificante e não mais tediosa como faria um adolescente do ensino médio entediado e sonolento. 


O sentimento oceânico me toma conta, principalmente nas madrugadas e nos momentos em que transito por vários temas transdisciplinares. Gatilhos são ativados e levam a outros temas e... de repente me sinto agoniado por não conseguir devorar todos esses macro-assuntos, pois isso levaria décadas de estudos. Então me sinto afogado em um oceano epistemológico e com uma voracidade que não prosseguiria sem árdua e constante disciplina. Este é o momento em que me afogo e desejo a onisciência fantasiosa expressa na Bíblia. 


É na constatação de minhas limitações cognitivas e existenciais perante toda a existência que eu posso falar como Paulo de Tarso: "Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento... da existência!".  Pois a existência é palco de todos os fenômenos que são maiores do que as interpretações humanas desses fenômenos. Temos no nosso imaginário coletivo todas as contradições possíveis e que são produto da tentativa de dizer o que de fato é a existência. 


Alguém pode mesmo dizer o que é a vida? Para nossa impotência existencial, nasceram os nossos ídolos. O homem, fraco por natureza, concebeu um deus todo poderoso; limitado em conhecimento, concebeu um deus onisciente; pequeno e presente somente a um lugar por vez, imaginou que estaria sendo vigiado e seguro pelo vigilante que estaria em todo lugar: o onipresente. E então, ao invés de conhecer e expandir seus conhecimentos, o homem covardemente se enclausurou na Idade Média, entregando a riqueza do mundo ao seu ídolo asqueroso e impertinente. O conhecimento foi considerado pecaminoso e pervertedor. Esta era de obscurantismo somente teve fim quando o homem se revoltou contra este ídolo e voltou aos caminhos do amor pela Sabedoria. Sim, ela! A dama seduzente e extasiante que faz a humanidade se perder em suas curvas; que dá ao homem o terror e o entusiasmo pelas incertezas dos rumos do universo. 


Ela nos retirou da era da escravidão medieval e nos levou a um novo caminho; incerto, é claro! Aonde não sabemos para onde iremos, como advertiu Nietzsche; mas que nos faz peregrinar pelo vale da liberdade em saber que somos humanos, demasiado humanos. Presos e escravizados; não por deuses, mas por nossas vontades e desejos. E isto, a responsabilidade sobre nós pelas tragédias e grandes feitos, é o que mais importa e nos dignifica. E não a covarde transferência para outrem; não a confiança a "Ele" ou "Eles"... mas a nós! E isto nos basta! 


E ao retornar de meu delírio e êxtase, sento a bunda na cadeira e me preparo para ser consumido neste fogo consumidor. Disposto a navegar pelas correntes que me levem a algum ponto deste oceano epistêmico. Leituras e reflexões atrás de mais leituras e reflexões; ergo sacrifícios nestes altares em que a tinta dos que morreram a muito tempo, clama percepções e pontos de vista por meio de livros. Então me comunico com estes mortos e sou levado ao além do senso comum, tido como louco por uns... lúcido por outros. 

-Gabriel Meiller

domingo, 28 de agosto de 2022

A falência da consciência política brasileira e sua relação com a ignorância histórica

 




Frequentemente tenho contato com conteúdos sobre a história do Brasil pelo fato da minha profissão (como professor de História e Geografia) me impor cotidianamente este ofício. 


Meu resumo até agora sobre a vida política, social e econômica do país pode ser o seguinte: 


O Brasil começou em desigualdade, exploração e corrupção desde seus primórdios. As capitanias hereditárias impulsionaram a riqueza na mão de poucos e a sua perpetuação. As câmaras municipais e os governos gerais exalaram a corrupção luso-brasileira na colônia. Nosso país recebeu a mentalidade de bandeirantes que eram criminosos na metrópole e que ao serem exilados ao Brasil, transmitiram a cultura da roubalheira e do jeitinho brasileiro. 


A escravidão e a economia de exportação do mercantilismo aprofundaram e foram a base para a exploração e violência. A abolição mal feita da escravidão somente modernizou esta escravidão e deslocou os pobres das fazendas para as favelas e periferias, causando miséria e pobreza. Muitos dos descendentes de escravos ou se tornaram humildes trabalhadores, ou criminosos revoltados. Poucos mudaram de status social e ascenderam à vida digna e à riqueza. 


Quando o Brasil se tocou que nem só de café ele poderia viver, houve a era da industrialização. Muito mal feita, por sinal. Foi nesse cenário que os políticos populistas se aproveitaram da fragilidade do povo e semearam a cultura política populista. Vargas foi o pai fundador deste populismo e o governante que jogava do lado que lhe beneficiava melhor; um grande toma lá da cá. Na segunda ele jogava a favor da esquerda e na quinta: estava com a direita. Tudo isto porque amava o poder acima de tudo e de todos!


Mas com a maturidade, já em seu último governo, Getúlio planejava desenvolver o país. Criou a Petrobrás, o BNDE, bem como esteve disposto a dar prioridade para a nacionalização das empresas e para o trabalhador que seria o sustentáculo da indústria brasileira. Esta atitude que não servia aos desígnios dos EUA, que tinha interesses imperialistas nos recursos brasileiros, fez com que Getúlio enfrentasse oposição de fora e de dentro! A ruína de Getúlio foi querer fazer do Brasil um país desenvolvido e emancipado industrialmente. Isso não era bom para a política estadunidense e qualquer político que tentasse algo parecido, como João Goulart e suas reformas de base, sofreria um golpe militar financiado pelos Estadunidenses e pela elite brasileira aliada. 


Décadas se passaram e a política brasileira está condenada ao populismo de sempre. Políticos que conquistam o povo pelo carisma e não pelas propostas; e os que apresentam propostas decentes sofrem a indiferença e o bocejo do povo. Por que? Porque o brasileiro não tem memória; não analisa a história. Seja porque só tem tempo para trabalhar e sobreviver, seja porque seus lazeres são destinados apenas à cultura K-pop, barzinhos, baladas e fofocas. (Nada contra, mas a vida vai além disso). 


Nossa política é batida, caricata, dominada por coligações partidárias presentes no Senado. O diabo está no Senado Brasileiro e seu preço para o pedágio político é alto! Nenhum presidente governa sem vender sua alma ao centrão! Esta mentalidade veio dos primórdios do jeitinho brasileiro e contra a força da cultura e do hábito nada podem o heroísmo e a obstinação barata.


Nossa elite se vendeu para os interesses externos e para a velha economia de exportação e rejeitou a inovação e potencialização da indústria nacional. Nosso povo, embora tenha toda a informação em mãos, é manipulado por ela e não faz questão de buscar o esclarecimento. 


Resta ao povo... as migalhas. E aos lúcidos: o choro e a desilusão! 


-Gabriel Meiller

domingo, 24 de julho de 2022

Morte, vida e religião no Ocidente

 



Os rituais fúnebres são uma expressão dos maiores mistérios da humanidade: a morte e a relação da humanidade com esta. Conhecemos o medo da morte; medo que amplificou o espírito religioso na espécie humana. Mas conhecemos a veneração à morte praticada pelos antigos? Aos que não buscam as raízes das crenças atuais, estes estão condenados ao grande abismo da ignorância.


Os primórdios da cultura greco-romana são acompanhados de crenças profundas na vida pós-morte. A alma do morto não viajava para outra dimensão, mas ficava na sepultura. Ali deveria ela descansar, caso contrário vagava errante pela Terra e atormentava os homens. Os rituais funerários eram para desejar à alma o devido descanso; as oferendas de comidas, bebidas e sacrifícios humanos na sepultura do morto eram para assegurar-lhe o gozo e a servidão. 


Maior negligência seria não enterrar seus mortos; tanto que generais atenienses que venceram uma batalha foram condenados pela plebe à morte, pois não buscaram os corpos dos soldados mortos para serem enterrados. Isto era falta grave, um insulto às almas que agora eram condenadas a vagar errantes sem seu descanso. 


Os criminosos eram condenados a não ter um enterro, mas os homens de bem deveriam tê-lo por deveras. 


Com o tempo os conceitos foram evoluindo, isto é, mudando de forma. E então o conhecido Hades, constituído pelo Tártaros (lugar dos maus), Campos Elísios (lugar dos virtuosos) e Campo de Asfódelos (dos irrelevantes) surge nas crenças religiosas destes povos.


Coincidentemente (ou não), o conceito de inferno do Novo Testamento, surge quando os judeus/cristãos, entram em contato com esta cultura helênica. E na epístola sob o nome de Pedro (2 Pedro 2:4, que óbviamente não foi ele quem escreveu) cita o Tártaros no idioma grego para falar do inferno. As Bíblias traduzem de diversas formas, adaptando segundo melhor lhes convém.  


Mas o que isto significa? Que a cultura greco-romana influenciou por deveras todo o Ocidente e o próprio cristianismo que nasceu no paganismo através de conceitos greco-romanos, como o conceito de inferno, bem como as liturgias do culto, através da oratória grega e também a sutil arte de se apropriar de qualquer festa pagã (vide o natal e a páscoa pagãos). 


Podemos concluir que há uma intensa ligação entre a morte, vida e as religiões; o sentido dos mitos e das crenças religiosas orbitam nessa necessidade vital do por vir que sacrificou por muito tempo a vida no aqui e no agora. Entretanto, quando ensaiamos em sair dos mitos e do estado religioso, uma angústia brota no coração do homem. Poderão os mitos modernos, através da sociedade pautada no conhecimento científico, tecnológico e nos rituais da performance social (ser sempre o melhor e se superar perante a si e os outros) preencher tal angústia e contentar o coração do homem?  Esta é a mais obscura questão que de antemão já possui vislumbres: é evidente que não!  


Enquanto isto navegamos na grandeza do desconhecido e na satisfação de viver construindo nosso sentido singular ao que chamamos de vida! 


-Gabriel Meiller


(Ps: Referência teórica sobre as crenças de vida após morte nas sociedades greco-romanas: "Cidade Antiga", de Fustel de Coulanges.)

A doença de Frankenstein

 





Frankenstein sempre foi um bom homem... tinha um casamento normal e exemplar. Seus filhos estudavam em escolas particulares e eram levados de carro todos os dias. 


Um engenheiro que não deixava faltar nada a sua família e que ajudava seus familiares bem como a vizinhança não era algo de se passar batido. 


Não havia vida dupla em sua história, pelo menos é o que todos sempre acharam. Ele era católico, assistia futebol com os colegas do trabalho e frequentava os happy hours de sexta a noite. 


Tinha uma rotina previsível demais; era tranquilo demais, metódico e previsível como a maioria de seus compatriotas. 


Um dia, sem mais nem menos, após levar seus filhos à escola e fazer uma pausa para almoçar... Frankenstein estacionou o carro em uma rua sem muito movimentos. Olhou para seu lanche: uma embalagem de fast food e depois de comer seu lanche de forma calma e fria... respondeu fortuitamente a mensagem de seu chefe sobre os relatórios da semana passada. 


Após um tempo em profundo silêncio e sem demonstrar qualquer expressão... tateou o assoalho abaixo do banco do motorista e pegou uma arma. 


As cenas seguintes são as mais comuns de filmes de suspense: ele aponta o cano da arma em direção às suas têmporas e puxa o gatilho. Horas depois é identificado e gera um misto de emoções em toda sua comunidade, bem como perguntas sem respostas que atormentam a mente dos mais próximos. 


"O que teria levado Frankenstein a cometer tal sandice?" 


Frankenstein sofria do pior dos males que compensava toda a vida perfeita e exemplar que ele tinha: Frankenstein era incapaz de amar! Amar a si, sua família, e qualquer coisa que fazia; apenas cumpria todos os protocolos sociais e responsabilidades que a sociedade lhe exigia. No final de tudo, sua morte física foi apenas uma tácita consequência de sua morte interior, disfarçada por todas as morais e princípios que ele carregava diante de todos. 


O ato mais lúcido de Frankenstein, talvez, tenha sido dar cabo de tanta encenação que se prolongava por anos. Lamentável seja que a forma que ele encontrou de dar cabo a tudo isto tenha sido a sua autoaniquilação. 


-Gabriel Meiller

sábado, 9 de julho de 2022

As bipolarizações não superadas


  


Claro e escuro, bom e mau, bonito e feio, forte e fraco, justo e injusto, ativo e   passivo... bem como quaisquer outros adjetivos e conceitos que expressam a mentalidade dual do Ocidente ao Oriente. 


O que nós aprendemos destes arquétipos e quais as consequências desses conceitos didáticos que formam a estrutura de nossas personalidades e gêneros? 


A dualidade é magnífica, precisa, encantadora e divisora de águas, ou seja: preto no branco. Entretanto, a bipolarização e o maniqueísmo são o erro de aplicação das dualidades arquetípicas que acometem dos mais novos aos mais velhos. A dualidade como um fim em si mesma gera o adoecimento da psiquê! A dualidade é apenas um meio para que possamos, depois de usar esta canoa que cruza os lagos, abandoná-la e chegar ao nosso destino que ao contrário de ser preto no branco, pode ser cinza, quando não deveras colorido!


O universo não brada aos leitores? Não demonstra que somos uma infindável  combinação de muitos fatores materiais e imateriais que formam algo ou alguém? Átomos, antes de tudo, e depois ilimitadas possibilidades em ser através desses diferentes átomos, gases, elementos químicos, estruturas, crenças, mentalidades e condicionamentos biopsicossociais! 


Mas somos condenados por nossa teimosia em adorar ao permanente, estático e definitivo! O que gera a bipolarização, senhores, é a falsa noção de que somos estáticos e de que todos precisam seguir a um só conceito e ideologia como verdade absoluta. A guerra entre os sexos, por exemplo, como mencionei no texto anterior, só tem sentido quando a sociedade incorpora papéis prontos e acabados e reproduz este papéis sem nenhuma mudança ou aprimoramento. Logo, os homens sempre irão se prender ao conceito hegemônico de correrem atrás das mulheres custe o que custar e de correr a maratona de que precisam ser ricos, fortes, ativos e sedutores sem nenhuma nuance ou flexibilidade nestes conceitos. Logo, o animus aflorado (ver animus e anima de Jung) gera o machismo estrutural e qualquer crítica do movimento feminista é levado como uma afronta ao "ser homem em si", o que nunca foi intenção do feminismo, que se preocupa muito mais em lutar pela emancipação feminina em si. 


Não estou dizendo que o homem precisa ser sempre sensível, fraco, desinteressado e passivo... mas que pode sair exatamente desse idolatria associativa dos polos em que ou ele é forte ou fraco, ou pega todas ou é mole e gay, ou é puro e cavalheiro ou tóxico e que maltrata as mulheres. Esta é a doença: a bipolarização que tomou conta da guerra entre os sexos. 


O mesmo apliquemos nas ideologias políticas (que estão intimamente relacionadas à bipolarização entre os sexos), às rivalidades desportivas, ao gostos artísticos e acadêmicos, bem como guerras religiosas, etc. 


O que Nietzsche diria de tudo isto em suas considerações? "A arte da nuance!". O indivíduo pela ótica nietzschiana é aberto, múltiplo e possui inúmeros arquétipos e faces dentro de si mesmo, conforme demonstrado: 


"Eu sou vários! Há multidões em mim. Na mesa de minha alma sentam-se muitos, e eu sou todos eles. Há um velho, uma criança, um sábio, um tolo. Você nunca saberá com quem está sentado ou quanto tempo permanecerá com cada um de mim. Mas prometo que, se nos sentarmos à mesa, nesse ritual sagrado eu lhe entregarei ao menos um dos tantos que sou, e correrei os riscos de estarmos juntos no mesmo plano. Desde logo, evite ilusões: também tenho um lado mau, ruim, que tento manter preso e que quando se solta me envergonha. Não sou santo, nem exemplo, infelizmente. Entre tantos, um dia me descubro, um dia serei eu mesmo, definitivamente. Como já foi dito: ouse conquistar a ti mesmo."


Desta forma, relaxemos os ímpetos bravios e religiosos que clamam pela dualidade como um fim em si mesma e sejamos os inclusivos e refinados em personalidade: seres de almas largas e nuançadas pela arte da nuance. Não digo esquizofrênicos e bipolares, mas amplos e profundos em nossas formas de ser: espíritos livres; capitães de nossas almas e senhores de nossos destinos, ainda que feridos pelas fatalidades do acaso e de forças maiores aos nossos quereres.

-Gabriel Meiller