Aprender a pensar é essencial; aprender a desaprender para aprender coisas novas... é imprescindível. Em reconstrução permanente!
sexta-feira, 10 de novembro de 2023
21 ditados de quem nasceu no primeiro dia do inverno
segunda-feira, 9 de outubro de 2023
O arqueólogo de ruínas
Este texto é inspirado em Memórias do Subsolo, ou melhor, no narrador de Memórias do Subsolo de Dostoiévski. Aqueles que observam enojados os meus movimentos literários recentes, percebem um falatório sobre mim parecido com um narcisismo e... de fato é um narcisismo implícito; talvez até explícito. Ultimamente tenho me analisado com olhar de psicólogo. Melhor ainda: com um olhar melhor do que o olhar "cognitivo comportamental superficial" de um psicólogo: o olhar profundo de um psicanalista!
Hey... olhem aí o meu narcisismo saindo pelas frestas do subsolo, esse danaaado! Em meu narcisismo eu mesmo me examino, identifico minhas fantasias e promovo uma solução para desfazer esses pontos conflituosos. Eu mesmo sou o meu psicanalista, o meu confrontador e o meu redentor... querem mais narcisismo que isso? Minha tentativa de percorrer minhas ruínas internas e examinar cada pedrinha, cada fóssil e entender a origem de todos os destroços sepultados... é o sintoma do meu narcisismo e a sua redenção parcial. Digo "parcial" porque o narcisismo primitivo sempre fará parte de nós e estará tentando nos convencer de que não somos narcisos... de que não apreciamos e não esculpimos nossa imagem interior e de que não nos comprazemos com nosso ego e sua imagem diante do mundo. Freud sabia que o narcisismo era um espectro e que ao se tornar excessivo... poderia petrificar-se em transtorno.
Estou certo nessa constatação, senhores? Ou será que o que eu falei foi somente uma racionalização e uma generalização minha somente para justificar meu narcisismo? No caso, isso também é mais uma confirmação do meu narcisismo. O homem do subsolo dostoievskiano é um homem ambíguo, vaidoso, contraditório, covarde e... narcisista! Talvez não seja no sentido patológico, mas no sentido secundário em que a volta de pulsões para si, para o seu ego... ocorre mais tarde na vida adulta por conta de traumas que o fazem se enclausurar em si mesmo. Mas o que eu admirei nesse homem liquidado pela vida foi sua sinceridade. Seu sincericídio combalido de quem já não consegue nem disfarçar sua fachada porque ela já foi derrubada. Então, ao chegar no ápice do ridículo, ele mesmo decide se abrir sem filtros, entendendo que não há mais nada a se perder, ele já se tornou o maior ridículo de todos aos olhos de todos... até aos olhos daquela meretriz que o acolheu bêbado, quando ele estava obcecado atrás de seus colegas de infância bulinadores para provar que ele era gente, que ele significava algo para eles e tinha de ser respeitado, mesmo depois de todo o enxovalho e papel de ridículo que sofreu na noite anterior porque precisava provar algo a eles.
Pois bem, eu me identifiquei com o homem do subsolo, eu reconheci em mim esses sintomas e... querem saber? Até nesse ato de me reconhecer neste personagem eu fui narcisista, como se essa chaga tivesse que ser só minha, como se essa autocomiseraçãozinha fosse só minha e não pudesse ser de mais ninguém. Não! Não empresto a vocês a fantasia do meu sofrimento com a qual me visto, desfilando e falando de mim... não! Pelo menos nisso me deixem ser especial.
Mas vamos direto ao ponto... entremos em minha caverna e me deixem expor o porquê me considero tão narcisista assim. Ps: talvez eu esteja exagerando e dramatizando tudo isso. Mas isso também é parte do meu narcisismo, senhores.
Ao descer à caverna nesses últimos dias eu tenho enxergado minhas motivações ao ajudar as pessoas sem elas pedirem ajuda. Em que eu sou tão solícito? Quando eu sei de algo e me ofereço para ajudar quem não pediu minha ajuda. Quando, por exemplo, estou aprendendo sobre o mercado de ações, sobre análise técnica e então saio pregando esse evangelho aos meus amigos mais próximos, ou talvez até à instrutora de academia. O que eu quero com isso? Qual o meu real interesse em dizer que seria bom eles investirem, comprarem ações, colocarem algo em renda fixa? A minha autopromoção, oras! Esse é o momento perfeito para que eu mostre como sou bom, como sou atencioso, como tenho paciência, como sou solícito. O meu bem estar se satisfaz quando mostro todas essas fantasias sobre eu mesmo e nessas aventuras eu vou manifestando meus sintomas e meu arquétipo de sábio, inteligente, poderoso... até que de tanto me aventurar eu começo a enxergar esses padrões inconscientes e me questionar, fazendo uma autosabatina e até uma inquisiçãozinha para sentir que sofri o bastante e posso me desculpar provisóriamente por esses atos infames.
Eu estou escrevendo para mim... não é para vocês que estão me lendo até esse momento. Mas se vocês lerem e me derem tapinhas nas costas, comentarem como eu tenho um olhar aguçado, um senso de clareza... ah! É aí que vou vibrar internamente e, depois desse orgasmo intelectual e afetivo, irei me reprimir ao dizer a mim mesmo:
"Isso não é motivo para se orgulhar, é apenas mais um maldito reforço do seu narcisismo e da sua carência afetiva. Se você não foi admirado e não recebeu atenção na escola de seus colegas, ou de seu pai, dos colegas da rua... o problema é seu. Não venha tentar conseguir o que não teve com 27 anos na cara, seu marmanjo descompensado!"
E então ao escrever até agora e constatar tudo isso... me dá uma certa tristeza. Não mais a tristeza narcísica para conseguir a atenção que não tive e desfilar com meu sofrimento e minhas angústias. Mas a tristeza silenciosa que constata o fato de que: não há muito o que fazer! Há padrões comportamentais a serem desconstruídos, excessos a serem medicados e suavizados... e uma vida a seguir consciente de que há buracos que não se fecharão. Eles serão tapados superficialmente, mas ficarão ali como uma armadilha para os momentos em que algum desavisado tatear com um pouquinho mais de pressão e for engolido desavisadamente. E, para encerrar de forma reafirmativa em meu narcisismo: talvez eu não procure ajuda psicológica, exatamente pelo fato do meu orgulho carente que me diz que eu posso resolver esses problemas sozinho... Ele diz o seguinte:
"Vejam: eu estudei para isso! Eu sei como traumas são criados e como posso amenizá-los, como posso desconstruí-los. Só preciso recorrer a olhares atentos que me observam de fora e questioná-los sobre meu comportamento e então... mãos à obra! Não... eu não preciso de psicólogos... eu não sou tão burro, tão fraco ou sem base psicológica e psicanalítica... eu sei o que é a vida e como posso sair dessa neurose excessivamente egoica, vejam! Eu sei... eu sei!!!! Vocês não estão falando com um leigo... vocês estão falando com um neurótico reafirmador que a todo momento quer mostrar pra todos, mas principalmente a si mesmo: de que ele sabe de algo e é capaz de algo!" penso eu atordoadamente megalômano em minhas ruínas.
Ps: agradeço a todos os meus vilões que em sua maldade e desprezo, me fizeram forte. Embora eu seja bastante frágil no ego, me tornei forte exatamente por intuir que fazer tudo por mim mesmo, em um surto de autossuficiência e isolamento, seria uma forma de não precisar de ninguém e nem de suas aprovações que eu tanto desejava. Mas então por que eu ainda as busco??!?!?
-Gabriel Meiller
A arte da maiêutica
A maiêutica é a arte utilizada e formalizada por Sócrates que consistiu em dar luz às verdades de alguém por meio de perguntas, sendo um fator muito importante para o autoconhecimento de quem utiliza essa ferramenta. Por favor, entendam "verdades" como constatações que fazem sentido pessoal para aquele que medita sobre a vida. E é exatamente sobre a importância da maiêutica como ferramenta de autoconhecimento que precisamos meditar para que possamos partir de algum ponto para navegar no oceano da vida.
A vida é como um enorme oceano profundo, extenso e incerto; sempre partimos da terra continental para navegar pela vida. As ilhas, os continentes e outros relevos terrestres são o nosso porto seguro que nos abriga. Somos formados como seres humanos em baixo de tetos de culturas que nos ensinam a enxergar a vida de algumas perspectivas. Somos em grande parte um depósito do Outro, isto é, de todo um imaginário que veio antes de nós e que nos educou. As ideologias, as crenças religiosas, os sistemas econômicos e as instituições são os elementos que compõem a parte continental que nos é familiar. São todos o nosso chão, nossa âncora e nossa estabilidade.
Quando somos crianças o círculo desse relevo continental é ainda mais delimitado: ficamos em nosso castelinho e em redomas que abrigam nossas ilusões alimentadas por nossa família. Essa estabilidade é necessária pelo menos na tenra infância, assim como a lagarta precisa de seu casulo e do estreitamento desse casulo para que quando ela estiver maturando... possa trabalhar a musculatura interna para rasgar esse casulo e desenvolver suas asas, virando uma esplendorosa borboleta. Se esse casulo for rompido muito antes do desenvolvimento de sua musculatura, a lagarta não se metamorfoseia numa borboleta.
Pois bem... quando chega a hora de navegarmos pela vida e conhecer os sete mares, precisamos estar preparados para cada surpresa e descoberta. Os diferentes mares e continentes abrigam diversidades muitas vezes espinhosas, mas nem por isso menos entusiasmantes. Os ambientes nos quais não estamos familiarizados (nos quais nossa família não nos criou) podem parecer estranhos, obscuros ou tóxicos demais. Para alguns podem até ser... mas muitas vezes são apenas paisagens exóticas nas quais não tivemos raízes e teremos que nos adaptar a esses terrenos que possuem outros nutrientes, outro solo e outro clima. É necessário aprender a apreciar o que não é familiar, o que não nos foi cultivado no passado.
Em meio a tantas mudanças que a vida me promove e que eu frequentemente aceito... encontro uma única pessoa que está comigo o tempo todo nos diferentes relevos continentais: eu mesmo! Já experimentaram conversar consigo mesmos em voz alta? Travaram diálogos e se fizeram perguntas esperando alguma resposta? Esta é a arte da maiêutica! Eu desenvolvi uma regra de ouro de mim para mim mesmo: se, após me encontrar comigo mesmo eu não conseguir uma solução suficiente para algum conflito ou alguma crise que estou passando... então eu recorrerei a alguém que, talvez, possa me auxiliar. Entendam que isso não é uma espécie de narcisismo, mas uma decisão sábia em meio a uma época em que não costumamos nos ouvir e preferimos consultar um guru sem antes ouvirmos nosso eu interno (ou eus internos). E nos tornamos vulneráveis quando preferimos ouvir mais aos de fora (que muitas vezes não nos conhecem no dia a dia) do que a ouvir a nós mesmos e às nossas intuições mais profundas.
É nesse hábito que conseguimos fixar nossas raízes em novos continentes ou ilhas até o momento em que decidirmos partir para novas paisagens silvestres, brincando de exploradores que vão para onde lhes der vontade, sempre conduzidos pelo espírito infantil e aventureiro que ama o processo de descoberta da vida e de suas múltiplas possibilidades de se manifestar.
-Gabriel Meiller
sexta-feira, 29 de setembro de 2023
Nossos eus internos e o conflito de forças como mobilidade no universo
A palavra eu deve ser destituída de qualquer impressão, por mais que possa parecer contraintuitivo, singular e unificada que sua conotação apresente. Todos empiricamente sabem que temos conflitos de diferentes naturezas devastadoras dentro de nós mesmos. A pergunta que podemos nos fazer é a seguinte: quanto tempo demora para um pequeno eu ser construído dentro de nós? Quando que o primeiro eu surge e quando ele dá lugar a um outro eu mais atualizado e recente? Precisamos pensar em mortes e renascimentos de vários eus e não em uma evolução constante. Talvez a psicanálise tenha sido seduzida pela gramática e pelas suas induções: postulou um eu consciente e o inconsciente, mas apenas como um eu dividido e clivado porque não aceita vontades que vão contra seus próprios princípios. De qualquer forma, as três instâncias do eu já representaram um avanço gigantesco e uma parcial superação da metafísica na linguagem.
Pois bem... meus eus são todos competitivos, o que torna meu conjunto de eus uma enorme bagunça conflituosa e contraditória. Quanto mais contraditória a vida... mais lutas há dentro de um indivíduo e essas lutas fazem parte da dinâmica da vida. "Vida" significa "mobilidade" dentro desse meu dicionário epistemológico. E essa mobilidade só existe pelo constante conflito entre diferentes forças. A vida nunca é estática, mesmo que ela aparente ser estática em macro estruturas. A nossa litosfera terrestre parece estar rígida, sólida e permanente, não é mesmo? Mas por baixo dela há um turbilhão de movimentos de abalos sísmicos e lava jorrando do núcleo da Terra; e a parte rochosa está se movendo, mesmo que de forma muito lenta e imperceptível. Os nossos cabelos também estão crescendo: eles crescem cerca de 1 milímetro a cada 3 dias; o universo está expandindo até agora; nosso coração está, desde o dia em que nascemos, pulsando sem parar e nosso cérebro emitindo ondas que são capazes de acender uma pequena lâmpada (por isso o ícone representando uma lâmpada acesa é usado quando uma pessoa tem uma ideia criativa) pois o cérebro utiliza mais ondas alfa em seus processos de criação de ideias.
Tudo, então, indica constante movimentação, bem como nós mesmos e nossos vários eus e suas partes conflitantes. Fala sério: você, moça pura e sensata, nunca teve fantasias com o irmão do seu namorado? E você, homem, nunca teve fantasias com sua cunhada e se masturbou? Esse conflito sexual é o mais pejorativo e utilizado, entretanto, temos muito mais conflitos que nos deixam atordoados conforme nossa liberdade aumenta. Esse é o motivo pelo qual muitos preferem caminhos retos, isto é, metafísicos. Os caminhos retos são a didática pedagógica da humanidade para não surtar com tanta liberdade e possibilidade de escolhas.
Ultimamente ando com tanta raiva... tanta raiva... que se me dessem um bastão e me deixassem numa sala cheia de objetos eu quebraria todos eles... mas somente se ninguém soubesse quem foi o meliante. Mas pode ser que, mesmo tendo essas condições, no último momento em que eu tivesse prestes a praticar este ato de vandalismo... minha covardia falasse mais alto e eu mesmo não tivesse coragem de ouvir meu eu raivoso que quer vomitar frustrações por meio do impacto e da agressividade; ou talvez meu eu ganancioso decidissse roubar os objetos da sala para vendê-los na esperança de conseguir dinheiro.
Seja como for, que aprendamos a ouvir nossos eus internos, ou dimensões do eu, para aqueles que preferem a unificação didática. Os menos controversos são os mais pobres porque extirpam partes de si mesmos e se tornam pessoas castradas. O eterno conflito é o caminho mais excelente!
-Gabriel Meiller
Um jovem idoso mal-humorado
"O que está acontecendo comigo?" penso eu, enquanto ando de bicicleta na rua, cercado de businas de carros, ruídos diversos, latidos de cachorros e de toda maldita despaisagem urbana acompanhada de pitadas de poluição visual e sonora.
Essa descrição mal humorada e revoltada demonstra o que tenho me tornado ultimamente com o passar do tempo: um jovem idoso ranzinza e cansado de poluições. Eu não sei sobre os demais, mas acredito que minha meia idade tenha chegado antes da hora. "Será o estresse de uma rotina corrida de dois empregos? Será o estresse de um relacionamento amoroso que me dá dor de cabeça pela volatilidade emocional daquela fi..... que me deixa inseguro? " penso com meu botões, não ligando muito para o grande desserviço urbano que me assola ao redor.
"Talvez..." penso em voz alta comigo mesmo, sem ligar para o fato de que o magnífico ato de falar sozinho pode parecer estranho aos transeuntes desgraçados que estão presos na mesma gaiolinha da rotina pós-industrial que também me encontro.
"Mas esses acontecimentos podem ser apenas uma amplificação do que eu já sentia há muito tempo..." me surpreende de sopetão essa constatação, advinda do subsolo da mente!
"É verdade..." expresso verbalmente em um tom um pouco mais alto do que o anterior. E então volto a me enfiar em reflexões mais profundas que me ajudem a fugir dos barulhos ruidosos cotidianos de uma sociedade desastrosa.
É isto, senhores: meu mau humor é uma expressão de descontentamento maior para com a vida, mais específicamente com a sociedade que nos tornamos. Estamos presos em rotinas de Sísifo e em poluições sonoras, visuais e atmosféricas. O conceito de poluição ambiental envolve essas três esferas e possuem a mesma origem: o delírio industrial do homem. Bem... talvez não o delírio em si, pois eu me beneficio dessa balburdiazinha nojenta quando me convém; não posso ser tão hipócrita assim. Mas os excessos de delírio do homem industrial é o que nos adoece! As rotinas absurdas de horas de trabalho para a tentativa de uma qualidade mediana de vida; o motor ensurdecedor de carros e motos que ultrapassa a quantidade de decibéis recomendada pela OMS; o convívio excessivo com parentes por falta de recursos para moradia; o descruzamento de rotinas e a falta de senso comunitário de muitos... tudo isso contribui para com o excesso de delírio do homem pós-moderno.
E tudo isso está assentado em um grande alicerce: a industrialização e os consequentes golpes que ela realiza na saúde física e psíquica dos homens que (sobre)vivem nessa sociedade. Aonde existem casos de moradores de chácara ou fazenda que vivem sofrendo de crises de ansiedade? As chances são muito menores por conta do isolamento do excesso de estímulos industriais diários. E moradores que se localizam em avenidas movimentadas? Esses podem ter uma ligeira tendência a essas crises de ansiedade. E alunos ou professores que trabalham em escolas cujo alarme parece um sinal de presídio? Esses, como eu, também sofrem a cada começo e fim de aula!
Nossa... perdoem-me a verborragia e o alarido gráfico; é que me sinto bem descarregando de forma silenciosa o que para alguns pode ser uma poluição visual literária. Chego à conclusão de que talvez eu seja um jovem idoso mesmo. E preciso da solitude e do isolamento geográfico parcial dos meus parentes. Eu sou o velho que quer paz e sossego e por isso preciso pensar em formas paliativas desse isolamento, enquanto não consigo meu canto definitivo de solitude. Por ora, fones e isoladores de ruído são a minha desesperada saída, junto com momentos em que me isolo na garagem, pescando momentos de silêncio absoluto e meditação.
Sou aquele profeta apocalíptico do silêncio, que se indigna com mentes imprudentes que quebram o bendito silêncio na sala de refeição dos escritórios. Daqueles malditos que não sabem ficar em silêncio consigo mesmos e precisam vomitar tudo o que pensam e sentem de forma descabida. Das pessoas sem noção que colocam música externa no escritório de ambiente de trabalho... pior: que ficam vendo vídeos com áudio externo de trechos de pregação e ainda acham ruim quando eu viro com uma cara de desacreditado procurando a origem de tal "barulho sacro". Isso já é o cúmulo! Por isso eu desvio os olhares quando cruzo com algum colega de trabalho que sei que no momento que seus olhos fizerem contato visual com os meus... isso o fará achar que tem o direito de vomitar alguma cotidianidade em meus ouvidos nada dispostos a ouvir esses murmúrios quebradores de silêncio.
Minha máxima, então, é esta: escrevam-me! Não me mandem áudios... escuto melhor com os olhos!
-Gabriel Meiller
terça-feira, 26 de setembro de 2023
A razão como hipóstase e os suspiros do cristianismo platônico por meio do "Penso, logo existo"
Após o último texto em que escrevi sobre a subordinação da razão aos instintos, alguns membros fizeram boas observações que questionam sobre o problema das emoções e dos instintos como se eles fossem responsáveis pela brutalidade da sociedade. Além disso, pintaram e santificaram a nossa razão como se ela fosse o eixo para a nossa sociedade progredir e a ponte para nos trazer o controle sobre os instintos que foram adjetivados (não disseram isso diretamente, mas mostraram uma linha cartesiana de pensamento que quer dizer isso no fundo) como ruins, maus e responsáveis pela desordem na sociedade!
Pois bem, esses membros mais kantianos em sua cosmovisão de mundo enxergam a meia verdade da razão e por isso a santificam! Mas a bem da verdade este é o grande problema: razão e emoção foram transformadas em hipóstases em meu texto, ou seja, não existem de fato na realidade! É apenas uma ficção didática para que eu falasse que: dentro do complexo jogo das faculdades humanas, um aspecto dessas faculdades foi santificado, isto é, separado no imaginário humano há muito tempo e mais valorizado em detrimento de outros (aqueles que rotulamos de instintos, emoções, sentimentos, etc).
Então, quando estamos a ponto de esfaquear alguém na rua (seja lá qual for o motivo), podemos dizer que é a razão que nos impede de tal ato? Duvido muito, senhores! O que nos impede de fazer tal barbaridade (ou às vezes não impede, como vemos nos noticiários) são as faculdades instintivas, muito mais do que a faculdade da razão! É o medo de ser preso, de matar alguém, de perder o controle; é este medo que nos impede de fazer tal barbaridade! Entretanto, em outros indivíduos o medo de matar é sobreposto pelo ódio e pela vontade de aniquilar a vítima. Quando o ódio vence o medo, ocorre alguma agressão; e possivelmente o agressor se arrependerá depois (ou não).
Aonde está a razão nesses momentos? A razão está diluída nesse turbilhão conflituoso de faculdades, pois no momento todas as faculdades estão em um eterno emaranhado conflituoso. E se fôssemos brincar de priorizar qual faculdade teve papel decisivo em impedir um assassinato, eu digo que o instinto teve esse papel e a razão somente o acompanhou com justificativas que corroborassem tal decisão prévia dos sentimentos, emoções e luta interna entre eles.
O problema, senhores, é que somos covardes demais para admitir que: usamos a razão somente quando ela nos convém. Ela não é, de forma nenhuma, tão benfazeja quanto idealizamos. Quando alguém não tem coragem de bater de frente com o chefe, pai, pastor, esposa... usa "a razão" como pretexto para evitar o conflito, ou seja, para mentir para si mesmo e dizer que só não fez "isso ou aquilo" porque é civilizado. Mendaz! Só não fez "isso ou aquilo" porque é covarde, porque o medo venceu! E então disse a si e aos outros: "Devemos ser racionais e deixar as emoções de lado!"
Ora... que covardia sigilosa é essa, senhores kantianos? Até os dominicalistas reconheceriam que isso foi trapaça! Sejam honestos: o medo do conflito congelou vocês e os tolheu de um conflito que poderia ser proveitoso. Então não me venham com essa... essa desculpinha furada!... esse papo furado pseudointelectual de que a razão nos impede do caos e de que, ainda por cima, essa beata é o progresso da civilização. Afinal de contas: a razão não existe! Ela é uma hipóstase! A realidade em si é um emaranhado inseparável de faculdades. A razão, então, é um platonismo cristianizado que vigorou no Ocidente como uma das mais populares hipóstases! Enquanto essa ideia de razão per se existir em nossa imaginação, o cristianismo continuará a dar seus suspiros em nossa quase laicidade... mesmo que Deus já esteja morto!
-Gabriel Meiller
A razão como lacaia das emoções e dos sentidos
"Penso, logo existo" virou o sintoma da nossa racionalidade excessiva, isto é, do nosso racionalismo alienante. Embora tenhamos uma vasta literatura que comprove como sintoma ou como denúncia do racionalismo que acometeu a sociedade como um todo, não precisamos sempre nos refugiar nos livros, senhores; talvez o refúgio seja ainda mais sintomático para essa constatação anterior.
Muitas vezes a busca da racionalização dos sentimentos é um convite para o enterramento deles. Costumamos ser coachings que fazem palestras sobre como arrumar nosso quarto, como limpar o lençol da cama e passar pano no chão; gritamos e nos exultamos em toda a explanação desse "como" procedimental. E quando chega a hora da práxis, ou seja, de realmente arrumar o quarto... nos imbecilizamos de mais teoria, e mais teoria, e... ainda mais teoria!
Como fugir deste looping redundante? Saindo da faculdade eleita como o carro chefe existencial pelo Ocidente: da razão. Sair da razão no sentido de não colocá-la como superior aos demais processos que, na realidade, trabalham unificados. É preciso desfazer a abstração e a separação que nós mesmos fizemos: razão x emoção. Em verdade podemos dizer que nunca separamos a razão (ou por que não: razões?) das emoções, pois ela sempre foi uma subordinada, uma lacaia das emoções e dos nossos instintos. A razão, na verdade, está subordinada aos nossos sentidos. Pensamos e intuímos algo lá no fundo da consciência, isto é, nas partes inconscientes. E então a razão, essa parte recente em nossa anatomia cerebral, se encarrega de dar lógica ao que sentimos para que coloquemos isso na sociedade.
Queremos exercer domínio sobre alguém o tempo todo ou quase sempre. Então, usamos da razão das lógicas dos papéis sociais para isso: "sou seu chefe... sua mãe... seu marido... seu pai... seu professor... " e por aí vai o discurso legitimador. Mas o que está por trás dessas justificativas racionais? O desejo de exercer poder e influência sobre o outro. Se o formalismo dos papéis não for oportuno... então apelamos para o suborno! E se o suborno, por um acaso, não for suficiente... ah! Então usamos da violência acompanhada dos sentimentos e emoções mais primitivas.
Então concluimos que a razão é um fetiche do Ocidente, mas na verdade ela é uma lacaia dos nossos instintos e emoções conflitantes. Vestimos a máscara de racionais, mas por trás dela existe toda a irracionalidade que Freud, Nietzsche e muitos outros filósofos exploraram anteriormente. "Ah... o homem da razão; a razão do homem!" Nunca vimos discurso tão mentirosamente convincente e tão armadilhesco. Esse discurso faz o homem pensar que é sensato; não há nada mais medíocre e mesquinho do que um homem se ver como sensato, nada mais deveras perigoso do que um primata cabeçudo cheio de moral desfilando por aí. Que ao menos esse primata cabeçudo saiba que não é lá flor que se cheire, que dentro dele há emoções e razões que vão para além do bem e do mal, derradeiramente distante de tudo que há de "mais belo e sublime!".
-Gabriel Meiller
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