terça-feira, 26 de setembro de 2023

A razão como hipóstase e os suspiros do cristianismo platônico por meio do "Penso, logo existo"

 


Após o último texto em que escrevi sobre a subordinação da razão aos instintos, alguns membros fizeram boas observações que questionam sobre o problema das emoções e dos instintos como se eles fossem responsáveis pela brutalidade da sociedade. Além disso, pintaram e santificaram a nossa razão como se ela fosse o eixo para a nossa sociedade progredir e a ponte para nos trazer o controle sobre os instintos que foram adjetivados (não disseram isso diretamente, mas mostraram uma linha cartesiana de pensamento que quer dizer isso no fundo) como ruins, maus e responsáveis pela desordem na sociedade! 


Pois bem, esses membros mais kantianos em sua cosmovisão de mundo enxergam a meia verdade da razão e por isso a santificam! Mas a bem da verdade este é o grande problema: razão e emoção foram transformadas em hipóstases em meu texto,  ou seja, não existem de fato na realidade! É apenas uma ficção didática para que eu falasse que: dentro do complexo jogo das faculdades humanas, um aspecto dessas faculdades foi santificado, isto é, separado no imaginário humano há muito tempo e mais valorizado em detrimento de outros (aqueles que rotulamos de instintos, emoções, sentimentos, etc). 


Então, quando estamos a ponto de esfaquear alguém na rua (seja lá qual for o motivo), podemos dizer que é a razão que nos impede de tal ato? Duvido muito, senhores! O que nos impede de fazer tal barbaridade (ou às vezes não impede, como vemos nos noticiários) são as faculdades instintivas, muito mais do que a faculdade da razão! É o medo de ser preso, de matar alguém, de perder o controle; é este medo que nos impede de fazer tal barbaridade!  Entretanto, em outros indivíduos o medo de matar é sobreposto pelo ódio e pela vontade de aniquilar a vítima. Quando o ódio vence o medo, ocorre alguma agressão; e possivelmente o agressor se arrependerá depois (ou não). 


Aonde está a razão nesses momentos? A razão está diluída nesse turbilhão conflituoso de faculdades, pois no momento todas as faculdades estão em um eterno emaranhado conflituoso. E se fôssemos brincar de priorizar qual faculdade teve papel decisivo em impedir um assassinato, eu digo que o instinto teve esse papel e a razão somente o acompanhou com justificativas que corroborassem tal decisão prévia dos sentimentos, emoções e luta interna entre eles. 


O problema, senhores, é que somos covardes demais para admitir que: usamos a razão somente quando ela nos convém. Ela não é, de forma nenhuma, tão benfazeja quanto idealizamos. Quando alguém não tem coragem de bater de frente com o chefe, pai, pastor, esposa... usa "a razão" como pretexto para evitar o conflito, ou seja, para mentir para si mesmo e dizer que só não fez "isso ou aquilo" porque é civilizado. Mendaz! Só não fez "isso ou aquilo" porque é covarde, porque o medo venceu!  E então disse a si e aos outros: "Devemos ser racionais e deixar as emoções de lado!" 


Ora... que covardia sigilosa é essa, senhores kantianos? Até os dominicalistas reconheceriam que isso foi trapaça!  Sejam honestos: o medo do conflito congelou vocês e os tolheu de um conflito que poderia ser proveitoso. Então não me venham com essa... essa desculpinha furada!... esse papo furado pseudointelectual de que a razão nos impede do caos e de que, ainda por cima, essa beata é o progresso da civilização. Afinal de contas: a razão não existe! Ela é uma hipóstase! A realidade em si é um emaranhado inseparável de faculdades. A razão, então, é um platonismo cristianizado que vigorou no Ocidente como uma das mais populares hipóstases! Enquanto essa ideia de razão per se existir em nossa imaginação, o cristianismo continuará a dar seus suspiros em nossa quase laicidade... mesmo que Deus já esteja morto! 


-Gabriel Meiller

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