terça-feira, 26 de setembro de 2023

A razão como lacaia das emoções e dos sentidos

 

"Penso, logo existo" virou o sintoma da nossa racionalidade excessiva, isto é, do nosso racionalismo alienante. Embora tenhamos uma vasta literatura que comprove como sintoma ou como denúncia do racionalismo que acometeu a sociedade como um todo, não precisamos sempre nos refugiar nos livros, senhores; talvez o refúgio seja ainda mais sintomático para essa constatação anterior. 


Muitas vezes a busca da racionalização dos sentimentos é um convite para o enterramento deles. Costumamos ser coachings que fazem palestras sobre como arrumar nosso quarto, como limpar o lençol da cama e passar pano no chão; gritamos e nos exultamos em toda a explanação desse "como" procedimental. E quando chega a hora da práxis, ou seja, de realmente arrumar o quarto... nos imbecilizamos de mais teoria, e mais teoria, e... ainda mais teoria! 


Como fugir deste looping redundante? Saindo da faculdade eleita como o carro chefe existencial pelo Ocidente: da razão. Sair da razão no sentido de não colocá-la como superior aos demais processos que, na realidade, trabalham unificados. É preciso desfazer a abstração e a separação que nós mesmos fizemos: razão x emoção. Em verdade podemos dizer que nunca separamos  a razão (ou por que não: razões?) das emoções, pois ela sempre foi uma subordinada, uma lacaia das emoções e dos nossos instintos. A razão, na verdade, está subordinada aos nossos sentidos. Pensamos e intuímos algo lá no fundo da consciência, isto é, nas partes inconscientes. E então a razão, essa parte recente em nossa anatomia cerebral, se encarrega de dar lógica ao que sentimos para que coloquemos isso na sociedade. 


Queremos exercer domínio sobre alguém o tempo todo ou quase sempre. Então, usamos da razão das lógicas dos papéis sociais para isso: "sou seu chefe... sua mãe... seu marido... seu pai... seu professor... " e por aí vai o discurso legitimador. Mas o que está por trás dessas justificativas racionais? O desejo de exercer poder e influência sobre o outro. Se o formalismo dos papéis não for oportuno... então apelamos para o suborno! E se o suborno, por um acaso, não for suficiente... ah! Então usamos da violência acompanhada dos sentimentos e emoções mais primitivas. 


Então concluimos que a razão é um fetiche do Ocidente, mas na verdade ela é uma lacaia dos nossos instintos e emoções conflitantes. Vestimos a máscara de racionais, mas por trás dela existe toda a irracionalidade que Freud, Nietzsche  e muitos outros filósofos exploraram anteriormente. "Ah... o homem da razão; a razão do homem!" Nunca vimos discurso tão mentirosamente convincente e tão armadilhesco. Esse discurso faz o homem pensar que é sensato; não há nada mais medíocre e mesquinho do que um homem se ver como sensato, nada mais deveras perigoso do que um primata cabeçudo cheio de moral desfilando por aí. Que ao menos esse primata cabeçudo saiba que não é lá flor que se cheire, que dentro dele há emoções e razões que vão para além do bem e do mal, derradeiramente distante de tudo que há de "mais belo e sublime!". 


-Gabriel Meiller

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