domingo, 24 de julho de 2022

A doença de Frankenstein

 





Frankenstein sempre foi um bom homem... tinha um casamento normal e exemplar. Seus filhos estudavam em escolas particulares e eram levados de carro todos os dias. 


Um engenheiro que não deixava faltar nada a sua família e que ajudava seus familiares bem como a vizinhança não era algo de se passar batido. 


Não havia vida dupla em sua história, pelo menos é o que todos sempre acharam. Ele era católico, assistia futebol com os colegas do trabalho e frequentava os happy hours de sexta a noite. 


Tinha uma rotina previsível demais; era tranquilo demais, metódico e previsível como a maioria de seus compatriotas. 


Um dia, sem mais nem menos, após levar seus filhos à escola e fazer uma pausa para almoçar... Frankenstein estacionou o carro em uma rua sem muito movimentos. Olhou para seu lanche: uma embalagem de fast food e depois de comer seu lanche de forma calma e fria... respondeu fortuitamente a mensagem de seu chefe sobre os relatórios da semana passada. 


Após um tempo em profundo silêncio e sem demonstrar qualquer expressão... tateou o assoalho abaixo do banco do motorista e pegou uma arma. 


As cenas seguintes são as mais comuns de filmes de suspense: ele aponta o cano da arma em direção às suas têmporas e puxa o gatilho. Horas depois é identificado e gera um misto de emoções em toda sua comunidade, bem como perguntas sem respostas que atormentam a mente dos mais próximos. 


"O que teria levado Frankenstein a cometer tal sandice?" 


Frankenstein sofria do pior dos males que compensava toda a vida perfeita e exemplar que ele tinha: Frankenstein era incapaz de amar! Amar a si, sua família, e qualquer coisa que fazia; apenas cumpria todos os protocolos sociais e responsabilidades que a sociedade lhe exigia. No final de tudo, sua morte física foi apenas uma tácita consequência de sua morte interior, disfarçada por todas as morais e princípios que ele carregava diante de todos. 


O ato mais lúcido de Frankenstein, talvez, tenha sido dar cabo de tanta encenação que se prolongava por anos. Lamentável seja que a forma que ele encontrou de dar cabo a tudo isto tenha sido a sua autoaniquilação. 


-Gabriel Meiller

sábado, 9 de julho de 2022

As bipolarizações não superadas


  


Claro e escuro, bom e mau, bonito e feio, forte e fraco, justo e injusto, ativo e   passivo... bem como quaisquer outros adjetivos e conceitos que expressam a mentalidade dual do Ocidente ao Oriente. 


O que nós aprendemos destes arquétipos e quais as consequências desses conceitos didáticos que formam a estrutura de nossas personalidades e gêneros? 


A dualidade é magnífica, precisa, encantadora e divisora de águas, ou seja: preto no branco. Entretanto, a bipolarização e o maniqueísmo são o erro de aplicação das dualidades arquetípicas que acometem dos mais novos aos mais velhos. A dualidade como um fim em si mesma gera o adoecimento da psiquê! A dualidade é apenas um meio para que possamos, depois de usar esta canoa que cruza os lagos, abandoná-la e chegar ao nosso destino que ao contrário de ser preto no branco, pode ser cinza, quando não deveras colorido!


O universo não brada aos leitores? Não demonstra que somos uma infindável  combinação de muitos fatores materiais e imateriais que formam algo ou alguém? Átomos, antes de tudo, e depois ilimitadas possibilidades em ser através desses diferentes átomos, gases, elementos químicos, estruturas, crenças, mentalidades e condicionamentos biopsicossociais! 


Mas somos condenados por nossa teimosia em adorar ao permanente, estático e definitivo! O que gera a bipolarização, senhores, é a falsa noção de que somos estáticos e de que todos precisam seguir a um só conceito e ideologia como verdade absoluta. A guerra entre os sexos, por exemplo, como mencionei no texto anterior, só tem sentido quando a sociedade incorpora papéis prontos e acabados e reproduz este papéis sem nenhuma mudança ou aprimoramento. Logo, os homens sempre irão se prender ao conceito hegemônico de correrem atrás das mulheres custe o que custar e de correr a maratona de que precisam ser ricos, fortes, ativos e sedutores sem nenhuma nuance ou flexibilidade nestes conceitos. Logo, o animus aflorado (ver animus e anima de Jung) gera o machismo estrutural e qualquer crítica do movimento feminista é levado como uma afronta ao "ser homem em si", o que nunca foi intenção do feminismo, que se preocupa muito mais em lutar pela emancipação feminina em si. 


Não estou dizendo que o homem precisa ser sempre sensível, fraco, desinteressado e passivo... mas que pode sair exatamente desse idolatria associativa dos polos em que ou ele é forte ou fraco, ou pega todas ou é mole e gay, ou é puro e cavalheiro ou tóxico e que maltrata as mulheres. Esta é a doença: a bipolarização que tomou conta da guerra entre os sexos. 


O mesmo apliquemos nas ideologias políticas (que estão intimamente relacionadas à bipolarização entre os sexos), às rivalidades desportivas, ao gostos artísticos e acadêmicos, bem como guerras religiosas, etc. 


O que Nietzsche diria de tudo isto em suas considerações? "A arte da nuance!". O indivíduo pela ótica nietzschiana é aberto, múltiplo e possui inúmeros arquétipos e faces dentro de si mesmo, conforme demonstrado: 


"Eu sou vários! Há multidões em mim. Na mesa de minha alma sentam-se muitos, e eu sou todos eles. Há um velho, uma criança, um sábio, um tolo. Você nunca saberá com quem está sentado ou quanto tempo permanecerá com cada um de mim. Mas prometo que, se nos sentarmos à mesa, nesse ritual sagrado eu lhe entregarei ao menos um dos tantos que sou, e correrei os riscos de estarmos juntos no mesmo plano. Desde logo, evite ilusões: também tenho um lado mau, ruim, que tento manter preso e que quando se solta me envergonha. Não sou santo, nem exemplo, infelizmente. Entre tantos, um dia me descubro, um dia serei eu mesmo, definitivamente. Como já foi dito: ouse conquistar a ti mesmo."


Desta forma, relaxemos os ímpetos bravios e religiosos que clamam pela dualidade como um fim em si mesma e sejamos os inclusivos e refinados em personalidade: seres de almas largas e nuançadas pela arte da nuance. Não digo esquizofrênicos e bipolares, mas amplos e profundos em nossas formas de ser: espíritos livres; capitães de nossas almas e senhores de nossos destinos, ainda que feridos pelas fatalidades do acaso e de forças maiores aos nossos quereres.

-Gabriel Meiller

A dança de Sheeva




A tristeza e a melancolia são naturais da arte de se viver. Em um mundo que preza pela performance e pela estética da perfeita alegria e positividade... a alma se deprime. Os grandes ditadores da depressão são as redes sociais divulgadoras de uma opressão: a hercúlea normatização da vida bem resolvida, bem vivida, feliz e cheia das cores mais vívidas. Sorrisos brancos sem manchas, olhos firmes e compenetrados, metas atingidas, fotos conceituais com fundos perfeitos. 


"Sorria, contente-se, seja o melhor!", urge a puta sombria que escraviza os infelizes com as sombras das aprovações de pessoas (a princípio sem nomes) que representam números importantes de seguidores.  Nossa infelicidade é fruto do descontentamento que é consequência da constante comparação abundante nesta corrida de ratos. 


Estamos no holocausto do autoflagelamento onde os próprios prisioneiros se torturam e se coergem a competir neste eterno e piorado ágon pós-moderno. E os méritos são nossos; nossa expertise, inovação, invenção de um novo portal invisível onde a vida parece editável e passível de redenção... estas revoluções digitais despertaram os impulsos mais potentes escondidos nos recônditos da alma que foram forjados na Idade da Pedra. Nosso ego, entretanto, este carrasco caprichoso... se manifestava através da ênfase dos mais robustos em seus papéis de caça e coleta; a imortalização destes homens alphas era realizada por meio de suas sementes implantadas nas fêmeas. 


Pasmem! Milhares de anos se passaram e os comportamentos continuam os mesmos. Entretanto, adornados pelo atual mecanismo que incrementa esta dança do acasalamento: a industrialização e os valores monetários que simbolizam a garantia do conforto e da segurança material da fêmea que irá abrigar em seu útero a prole deste grande semeador. Este é o sagrado pacto que as construções psicossociais estão, recentemente, tentando mitigar em nome de uma nova transvaloração destas naturezas primordiais coodependentes. 


Mas até quando o Coliseu se reunirá para continuar assistindo esta corrida dos ratos que se adorna de todos os símbolos e recursos extravagantes que fazem o primata cabeçudo, dominado pelos instintos mais primitivos, se vangloriar de sua vontade de potência que se consuma no ato sexual simbolizador do poder da imortalização e perpetuação de suas energias através da sua descendência?  


Não esqueçam, senhores: todo trabalho duro e todos os esforços do macho são uma dança do acasalamento em busca da imortalidade simbólica. Tudo ou quase tudo gira em torno do sexo; nosso mundo é governado por uma abissal camada sutil e implícita: as relações sexuais. Não se trata do sexo pelo sexo, meus caros! Se trata da urgência da demonstração de poder e força por meio do sexo. E este ego do homem primordial, aflorado na biologia evolutiva do homo sapiens, foi esculpido como uma necessidade de perpetuação da espécie, portanto, de imortalidade em última instância. 


Portanto, se destruírmos o mundo por conta da nossa ganância é exatamente porque a natureza evolutiva desejou salvá-lo por meio do ego que é o desdobramento dos impulsos de procriação. Entretanto, esse impulso de vida gerou morte a partir do momento em que o homem amplificou o seu poder de conquista por meio dos recursos tecnológicos. 


Em resumo: podemos dizer que a vida, em sua ganância caprichosa de querer se perpetuar, se boicotou na encarnação do homo sapiens que capturou esta poderosa energia atômica e a direcionou sem escrúpulos para a arte do acasalamento. 


E todos sabem que a arte somente é feita através da dança em cima do caos e da destruição. Óh, néscios! Não dançaram com o Deus Sheeva no princípio de todas as coisas? Sua dança da destruição é puro capricho para que algo de explêndido tome seu lugar por direito. E quem poderá dizer se isto será melhor ou pior? O vazio será o árbitro e juiz dessa nova era em que os homens serão extirpados da face da Terra justamente como punição por desejarem viver para sempre!

-Gabriel Meiller

sexta-feira, 1 de julho de 2022

A falta de nuance pelo sim e pelo não

 


Quão difícil é ao ser humano o caminho do meio, ou melhor, como diria Nietzsche: desenvolver a arte da nuance. O homem (pós) moderno que baseia a sua vida pelo "sim" e pelo "não" ao invés do "talvez" ou do "Sim, porém..." ou "Não, entretanto..." tem um pesado fardo a carregar. Ele será batido no liquidificador e moído no moinho da vida que cobrará ele por este temperamento afoitamente jovial e globalizado. Digo-lhes que este não sairá do moedor até que lhe pague o último centavo e preste continência à arte da vida em nuances. 


O fantasma desses tempos, que tem assombrado a realidade dos tecidos sociais, é a rotulação excessiva. Este diabo deve ser exorcizado do coração dos desafortunados que imergiram sem filtros e proteções na realidade das redes sociais e na opinião dos influencers. A bipolarização continua uma característica deveras moderna, mas nada nova debaixo do sol. Esquerdista ou direitista; gay ou hétero; nacional ou internacional; patrão ou trabalhador; saudável ou tóxico; magro ou gordo... todas simplificações por um "sim" e por um "não"; por uma linha reta ou um círculo. 


E observando o longo testemunho que a história tem fornecido deste museu de grandes novidades... vejo que a humanidade é este amontoado de fenômenos inadjetiváveis e algo impossível de expressar em palavras sem reduzir o significado inexpressível do que de fato ela é! Basta apenas dizer que a humanidade é! (O Real de Lacan)... apenas é! E este "é" causa grande espanto e temeridade, ao mesmo tempo que maravilhamento e contemplação. 


Poderia algo mais se dizer sobre tudo isso? Seria apenas prolongar o que já se deu por encerrado, chutar cachorro morto. O silêncio da reflexão e a contemplação em pensamento oceânico sobre tudo o que é a humanidade... basta!


-Gabriel Meiller

sexta-feira, 4 de março de 2022

O eterno rasgar-se e remendar-se; caminhos que podem levar à "loucura" ou à maturidade




Confusão. Esta é a palavra definidora de um dos momentos em que estou vivendo; a vida é um constante rasgar-se e remendar-se, como diria Guimarães Rosa. Esta sabedoria é conquistada à base de sofrimento, desilusão e amadurecimento. 

A confusão gera em mim inquietação, ansiedade e todo tipo de oscilação de humor provocada pelo medo. Não é um bom momento em minha vida pessoal e na verdade meus últimos meses têm sido por demais conturbados. 

Sabe o sentimento de que você está sem o controle? Sendo conduzido em um veículo com os olhos vendados por sequestradores e sem saber até onde este rapto irá terminar e em que irá terminar? 

Este é o meu sentimento. O sentimento momentâneo em que se é ultrapassado pela vida. Em que eu já não sei o que quero e o que serei; sei o que fui, mas não sei o que estou me tornando. Esse sentimento de desbussolamento em alguma área da vida de um indivíduo é desestabilizador. 

Naturalmente a quebra das expectativas e idealizações nunca são agradáveis, mas sempre conduzidas por momentos dolorosos. Esta quebra de expectativas e idealizações (muitas vezes extremamente rígidas) sobre como o mundo, as pessoas ou você mesmo deveria ser... é uma dor intraduzível. O famoso rasgar-se e remendar-se!  Pois bem, este momento é meu!

E palavras escritas de um dos maiores conhecedores da alma humana, Friedrich Nietzsche, me fizeram refletir sobre o que estou vivendo: 

"A inclinação à cólera e o instinto de veneração, que são próprios da juventude, não parecem repousar até que tenha desfigurado homens e coisas, para poder assim se desafogar. A juventude em si já é alguma coisa que engana e falsifica. Mais tarde, quando a alma jovem, torturada por mil desilusões, se encontra finalmente cheia de suspeitas..." 

Em suma a ingenuidade e a idealização da juventude sobre a vida em si é um baita liquidificador que bate, tritura e amassa a alma do jovem idealizador. Como bem ressalvou Cartola: "Ouça-me bem amor, presta atenção, o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos tão mesquinhos... vai reduzir as ilusões a pó." Este é o fio condutor! Entender que o preço da maturidade é acompanhado do doloroso processo de se deixar ser rasgado pelos fatos da vida! 

Quando aprendemos a nos relacionar com o mundo de acordo com a realidade, a aceitar as coisas como são, sem uma aspiração de que a vida seja uma Disneylândia, ganhamos paz, vitalidade e contentamento! Este é o desejo que tenho para mim mesmo; não sei aonde a existência e o mundo (como um moinho) estão me levando; estes aparentes sequestradores! Mas torço sofregamente para que eu olhe para trás e não me arrependa de ter vivido e ter sido esculpido como uma bela obra de arte pela vida. Pois no final é o que somos: construções mediadas pelas contingências do universo. 

-Gabriel Meiller
 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

O significado de expressões envolvendo a palavra "merda"

 


  


   Entrando em uma abordagem socio-filosófica podemos refletir acerca do significado de expressões que envolvem nossos bolos fecais, chamados de "merda" na linguagem cotidiana e vulgar. Expressões como: "Ai, que merda! Você come merda? A vida é uma merda. Fulano é um merda" e por aí vai... são muito faladas pela maioria da população em algum momento de raiva, indignação ou embasbacamento diante de alguma situação. 


Entretanto, os significados destas expressões podem ser muito mais profundos através de análises menos rasas que exigem um conhecimento básico de fisiologia. Segundo a fisiologia, isto é, o estudo das funções regulatórias do corpo com o objetivo de manter a homeostase, a merda humana, ou seja, o bolo fecal humano, são os restos inutilizáveis do aparelho digestivo humano. Nos seres humanos a digestão é tão eficiente que se alguém comesse merda humana, não teria nenhum proveito. Enquanto alguns animais comem merda de outros animais com objetivo de adquirir alguma qualidade nutritiva (pois a digestão de outros animais não humanos é inferior à digestão humana e por isso a merda animal possui alguns nutrientes e é por isso que seu cachorro pode vir a comer merda na rua, pelo fato de estar desnutrido ), a merda humana não serve para absolutamente nada. 


Este "nada" e esta "inutilidade", senhores e senhoras, é o maior insulto! Ao dizer: "você come merda?" Estamos dizendo biológicamente: você come o resto dos restos da digestão que é desprovida de qualquer utilidade. Ou dizer: "você é um merda!", significa algo ainda pior. 


Aos questionadores que não compraram esta ideia, poderíamos apelar para uma abordagem mais existencial. Se um sujeito que possui habilidades em algumas áreas de sua vida e se julga atribuído de qualidades é chamado de um merda, logo, é questionado em sua identidade social toda essa variável de atribuições qualitativas. Dizer ou julgar alguém como "um merda" significa dizer que ele não serve para nada, não tem nenhum sentido para estar vivo, não agrega nenhum tipo de valor a nenhuma sociedade. 


Pensando de forma fria, isto é um insulto significativo, seja ao que ou a quem for direcionado.  Enxergar o significado das expressões para além do nível mais básico é um sinal de ganho de consciência. E a consciência é a recompensa temporária para o ser que sabe que um dia irá morrer, tendo ao menos, iluminado um canto a mais da escuridão que ronda a pequena vela acesa na escuridão do absurdo da existência.


-Gabriel Meiller

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Reflexão em cima da imagem de Neymar




Uma das facilidades do mundo globalizado e suas plataformas de streaming é o variado cardápio de filmes, séries, documentários e até jogos que elas nos fornecem. Basta termos um mínimo de tempo disponível, uma assinatura e muita curiosidade.


Entretanto, a acurácia das análises fica sob o julgamento dos espíritos mais críticos e analíticos que não deixam de aproveitar o lazer  juntamente com a reflexão livre. Em uma onda de documentários que falam sobre personalidades midiáticas, o documentário do Neymar Júnior alcança uma posição entre os top 10 do Netflix. 

 

Em resumo o documentário mostra a vida de Neymar no mundo do futebol; o tal do "white people problem" que não está no cotidiano de indivíduos de classes mais baixas está presente na vida pessoal e profissional de Neymar Jr. Embora o próprio Neymar Júnior tenha "crescido em uma manjedoura", sua vida depois da maturidade não seria mais a mesma. O garoto pobre que morava em Praia Grande já ganhava uma melhor qualidade de vida, após se destacar no futebol brasileiro. Sob o estigma de um garoto habilidoso e mimado, a chuva de jornalistas e comentaristas do futebol virou bordão. Os comentarios giravam em torno de afirmações como: "Estão criando um monstro! ". 


Quem é este monstro?  Apenas um moleque que ganha superpoderes no mundo da bola, sob a promessa de ser um dos melhores do mundo e que age de acordo com sua maturidade e juventude suprimida por obrigações profissionais e ainda deseja curtir a vida, participar de festas e ser quem desconfia que é. Este é o "monstro" achincalhado pelos marmanjos experientes do mundo midiático, sem sensibilidade para detectar no jogador os traços de um jovem normal com aspirações que transcendem obrigações futebolísticas. 


Raiva, deboche, ousadia, precipitação travestida de convicções corajosas... este é um misto de caracteres que habitaram Neymar Júnior em sua carreira astronômica no mundo da bola. O que dizer disto tudo? O acaso jogou em um moleque fama, dinheiro e influências quase infinitas do tamanho do mundo. O poder subiu à cabeça daquele adolescente humilde que jogava bola na rua. O que é lógico de se ocorrer? Ingerências existenciais, é claro. O capitalismo engoliu e se apossou da imagem de Neymar Jr; não da pessoa de Neymar, mas de sua representação para o mundo. Chuvas de comerciais na televisão foram adornadas com notíciais midiáticas da vida privada de um dos jogadores mais bem pagos no cenário internacional. 


Neymar Jr foi midiatizado, cristalizado e empossado pelo poder que o vínculo de sua imagem gerou para os grandes empresários e suas marcas. Enquanto isso, no cenário futebolístico, Neymar toma a decisão de sair do Barcelona, visto que Messi estava nas capas dos jornais como a estrela principal do clube. 


O ego inflado do jogador e sua imagem imensa não poderiam suportar tal golpe desferido pela imprensa espanhola. Sua recisão com o clube espanhol, contrariando o clube e o seu pai Neymar (sênior), vão fazer com que a pressão por jogar no Paris Saint Germain seja avassaladora. Vaias dos torcedores recentidos, junto com a pressão para que o primeiro título saia, somada a uma lesão em Neymar, fazem com que o jogador se revolte e chegue ao ponto de agredir um torcedor impertinente. 


Ao final, embora o Paris Saint-Germain tenha perdido a final do campeonato, Neymar se supera e joga de forma fenomenal depois de se recuperar da lesão.  Entende-se que Neymar é um misto de sentimentos no imaginário coletivo. Que sua luta pessoal e coletiva se esbarram entre as filmagens do documentário e que muitos viéses e análises podem ser retiradas nos mais diferentes níveis existenciais, sociais, políticos e econômicos. 


Acima de tudo, a imagem de Neymar é mais uma peça no quebra cabeça da sociedade pós-contemporânea que está sempre em busca de otimização, positividade (tóxica), representação advinda de status de personalidades carismáticas, entre outras características. O capitalismo, entretanto, é um sistema que abarca tudo isto e que está em tudo e todos! Fazendo o bem e o mau; a reparação histórica e a injustiça; a acumulação e a miséria a céu aberto marcada pela ausência de recursos. O capitalismo é o grande Deus supremo no tecido social que se apodera da imagem de pessoas em um pacto sagaz e sutil. 


É impossível colher somente o doce néctar do capitalismo sem também estar disposto a sofrer de seu veneno. E o garoto habilidoso que cresceu jogando bola na parte periférica de Praia Grande, se tornou o jogador mais caro da França sob a missão de cumprir o que o clube lhe designou. Em resumo, o capitalismo é uma extensão do grande surto coletivo em qual a humanidade está inserida por causa de sua primordial ganância que afeta tudo e a todos, sem discriminação de classes sociais.


-Gabriel Meiller