quinta-feira, 21 de setembro de 2023

O identitarismo primitivo



Imaginemos, senhores, que os demais seres vivos consigam se comunicar de forma sutil e instintiva. Por intuição que transcende palavras e gestos... algum tipo de comunicação inconsciente que está clarificada no espírito, no centro vital do entendimento de cada criatura e de cada ser senciente. As plantas, como alguns já sabem, nutrem uma comunicação sutil entre elas através de suas raízes. Mas continuemos em nossa abstraçãozinha que pode ser útil para nosso fetiche filosófico que é uma ilusão sedutora tentando derrubar outras demais ilusões. E desta vez a ilusão a ser derrubada por esse meu fetichezinho ilusório (que de vez em quando eu acredito ser real, senhores), desta vez a ilusão a ser demolida se chama identitarismo primitivo. 


Então voltemos ao nosso ponto no qual desejo fazer uma arruaçazinha e caçoar um pouco, semelhante a uma criança ingênua que finge saber da vida. A questão é a seguinte, senhores: o ser humano é ridículo! Um ser imbecil que vive amontoado em um monte de crenças estúpidas acerca do que nunca jamais entendeu. Sim, senhores! Esta é a mais pura realidade petrificante e gelante da vida: o homem é um mentiroso! Mais do que isso e ainda pior, senhores e senhoras: o homem é um automentiroso, isto é, um sabotador inconsciente e, às vezes, autoconsciente! Acreditem em minha lucidez na qual alguns, seres automentirosos, acusam ser loucura; acreditem no que Lacan nos induziu a ver: o louco é quem está mais perto do Real; o Real é o epicentro da Realidade, do mundo nu e cru tal como... ah! Quem ainda está lendo essas ponderações de um teórico que está sendo, também, induzido por fantasiazinhas? Ele é mais um que está criando uma identidade para a humanidade: a identidade de que não existe loucura e sanidade em si mesmas. Mas acredito que essa fantasia dele talvez seja verdade! Talvez endosse o meu fetiche filosófico e por isso seja sensato!  Então voltemos de forma mais pragmática, senhores; e me perdoem, tenham paciência para com o que quero falar e tentarei ser breve dentro do meu surto de prolixidade literária! 


A questão é que desde o momento em que a humanidade se conheceu como gente, ela acredita nessa mentira: a de que ela é diferente. A mentira de que ela tem uma identidade! O começo sórdido dessa ilusão, dessa autocontação de história ingênua... começou pela linguagem mítica, propagada pelas crenças religiosas. O homo identitus, aquele que precisava se enxergar por meio da essência de algo, começou uma revolução efetuada graças à consciência amplificada e que mudou os rumos de todos os demais seres vivos. Então... a percepção induzida de que este caos tem um sentido, de que seu início se deu por outra consciência amplificada; de que há muito mais além de viver pelo instinto e pela atenção ao momento presente e de que nossas brincadeiras existenciais possuem um propósito... toda essa ilusão seduzente, incluindo a percepção de que somos os comunicadores por excelência, de que somos aqueles que controlam os rumos do planeta que nos gerou por eras... toda essa pataquada patife se tornou um credo inquestionável! Então os demais animais e seres sencientes, como eu vinha dizendo no começo... todos eles se comunicaram ao decorrer dos anos evolutivos acerca do homo sapiens e sua traição aos demais!  


O que eles emanaram em suas comunicações? Eles caçoaram de nós, senhores! Fizeram uma reunião movida a tiração de sarro misturada com sarcasmo negro e indignado. A pauta desse furdunço todo? A abstração humana, a criação de essências identitárias, a teleologia como ordenadora do mundo, as crenças mágicas e a terrível mania antropocêntrica que é movida pela nossa projeção em tudo e em todos. Lógicamente as emanações sutis dos seres não foram expressadas dessa forma, mas como impressões borradas típicas de suas consciências obscuras e estruturalmente diferentes de nossa organização mental. Estes seres sabem, senhores, ou melhor: desconfiam dessa noção maníaca e neurótica de contarmos histórias para nós mesmos. O que é o identitarismo? Não é o mais óbvio que emerge na contemporaneidade e possui pautas de esquerda! Este é apenas um sintoma de uma outra fantasia muito mais antiga: o identitarismo começou nos primórdios da humanidade, quando começamos essa engenhosa mania de contar histórias a nós mesmos por meio de nossas crenças, da abstração e da fuga do presente. 


Somos filhos de Deus? Somos bons ou maus? Ah... quem sabe, então, somos ateus? Bem... tudo isso é de uma espécie de bobaaaaaagem tremenda. "Já sei", falo a mim mesmo: "somos sensatos!", e caio então em outra bobagem, em outro jogo mental de bobagens e adjetivações. Adjetivar é uma bobagem, senhores! É tanta bobagem que eu mesmo cometo várias e frequentemente acredito no que falo. Por isso me previnam de minha doença pitoresca, me livrem de ser mais bobo do que sou! Falem: "tudo isso é uma grande bobagem, senhor!" e confirmem, assim, a minha bobagem! He he he he he... Perdoem-me os paroxismos de loucura... desconfio e emano frequentemente que esses paroxismos e essa minha irracionalidadezinha é mais decente do que vossas identidades metafísicas, do que vossa crença fiel ao livro do Ocidente. Vejam: quanto mais fixo o pensamento sobre o mundo, mais mentiroso ele é! Quanto mais sensato somos, mais idiotas estamos sendo! Pessoas de uma opinião só são as mais imbecis! São aqueles que querem construir um castelinho de vidro aonde batem as ondas do mar.  Mas... isso já fica para uma outra oportunidade, senhores!


Bem... até mais!  Se forem me procurar... estarei na reunião junto com os seres sencientes, traindo a nossa espécie e as bobagens dela que eu mesmo cometo! 


-Gabriel Meiller

domingo, 17 de setembro de 2023

O poeta das mil faces: quando Lila (o brincar criativo divino) é a única saída

 


Quem somos nós? De onde viemos e para onde vamos? A maior parte dos questionamentos humanos e das identidades humanas giram em torno dessas perguntas fundamentais. Viraram perguntas batidas e cafonas para muitos, embora todos saibam sua importância.  


E então nós navegamos em resposta a essas perguntas e às variações delas. Muito bem, senhores: eu já naveguei pelos sete mares em busca das melhores respostas a essas perguntas e a conclusão que eu, um jovem adulto de 27 anos, cheguei é esta: a vida é Lila! "Lila" é um conceito oriental e hinduísta que diz que nosso mundo é uma criação dos deuses, isto é, um brincar criativo dos deuses. Não somente isto, mas estendido a nós: esse conceito diz que a vida é uma grande brincadeira na qual somos atores e atrizes! É a vida como despretensão, isto é, sem uma finalidade única e eterna como as vertentes ocidentais cristãs enxergam. 


Esse é o princípio e a filosofia que direciona minha vida, senhores! É a minha visão para a vida: de que ela é o que nós quisermos que seja. Não há um sentido, por isso damos sentido da nossa forma e ao nosso jeito. Isso é um chute que quebra qualquer cabresto metafísico  que engessa as personalidades que necessitam de "um eixo" na vida. Esses perfis psicológicos que precisam de um eixo e têm suas razões para aceitarem as religiões escriturísticas e os imperativos categóricos. Mas saibam que à primeira ressaca: esse gesso irá se estilhaçar e o sofrimento será terrível; porque a vida é mar bravio e os deques de eixos metafísicos são constantemente quebrados. 


Mas àqueles que se cansaram de procurar um eixo rígido, engessado, um "porto seguro" e estático... digo-lhes que podem procurar um novo "eixo" que na verdade seria um eterno navegar, um eterno vagar! Lembro nitidamente de um membro que comentou em um de meus textos que "eu estava à deriva!". E, de fato, eu estava à deriva na vida e desconstruindo conceitos cristãos dos meus 20 anos (e ainda estou). Eu estava me sentindo perdido e à deriva por estar passando por várias mudanças pessoais e não somente mudanças teóricas e morais. Aquele comentário me fez refletir e achar, ingenuamente, que eu tinha que achar um eixo na vida. Um eixo? Pois bem, meu eixo foi a constante navegação na vida, a constante deriva! 


E essa deriva foi suportada teóricamente por noções nietzschianas de destruição das noções metafísicas de "eixo", de "certo" e de "errado". O errante para a moral cristã é aquele que não achou um caminho, não encontrou um certo! É aquele que anda à deriva por vários caminhos, este é o errante: o que anda no erro, ou melhor, nos erros! Essa origem etimológica da palavra "errado" já demonstra que a moral cristã metafísica precisa acreditar em um eixo, e que o eixo, o estável, é o certo!  O outro suporte teórico foi justamente a noção de Lila, da vida despretensiosa e sem nenhum sentido coletivo metafísico. 


Desta forma, posso ser o poeta das mil faces, como representa Fernando Pessoa! Alguém que coloca diferentes máscaras sociais de acordo com a situação. Este é o meu sentido: brincar de diferentes formas e com os mais variados atores e atrizes. Esse enriquecimento da vida, este culto aos sentidos e à diversidade... este eterno brincar é o meu caminho, a minha verdade e a minha vida.  Eu considero  humildemente que minha experiência de vida é madura se comparada com de muitos da minha idade. Considero também que nem todos conseguiriam viver dessa forma e precisam se apegar a alguns ideais estáticos e metafísicos. E muitos dos que lêem meus textos acham estranho o fato de eu não ter "um eixo" e podem me rotular como louco. Pois bem:"o louco" é o arquetipo de quem não possui eixos! O louco é aquele que vaga sem nenhum destino. Então, estão certos: este é o caminho da loucura, do peregrino sem destino  final, do viajante que ama a experiência do caminho e não o destino em si.


Então continuemos, amigos! E enquanto uns caminham à Terra Prometida sob o canto "Castelo forte é o nosso Deus...", outros cantam " a vida é despretensão e somos poetas de mil faces..." sem nenhum rumo a não ser o que suas vontades decidirem espontaneamente! 


-Gabriel Meiller

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Crítica ao meu antigo Eu metafísico e um diálogo interno com meu relativismo

 


Rolando a barra do meu blog e relendo textos da época metafísica eu percebo que fiz uma evolução no pensamento: enquanto cristão eu já desconstruía o fundamentalismo religioso que antes eu abraçava. No auge da minha fase cristã, eu já aderia à moda crescente, como muitos cristãos aqui, de enxergar a Bíblia por meio de Jesus Cristo (como Deus encarnado) e deixar de fora todas as partes consideradas "ultrapassadas" e desarmônicas com os evangelhos. "É mesmo?" Converso sozinho comigo mesmo e zombo desse eu ingênuo. E complemento: "E não pôde enxergar a contradição também nos quatro evangelhos  e na construção do seu amado Jesus?" 


O fato é que os próprios evangelhos, embora sejam tidos pelos cristãos descolados como suprassumo da revelação, também possuem contradições que os olhares hermenêuticos dos cristãos não estão destreinados para enxergar. O treino da hermenêutica cristã é o treino da harmonização bíblica! O olhar de um cristão é treinado para ler os 4 evangelhos, que possuem informações contraditórias, e sintetizar essas 4 versões em uma e dizer: "São singularidades de cada autor, mas a revelação é a mesma!" 


Ora, no destreinamento hermenêutico para enxergar a Bíblia como uma miscelânia de diferentes crenças, percebe -se que há muitas divergências na qual cada autor enxerga Jesus, na qual descrevem seus feitos, e na qual descrevem seu sepultamento e sua ressurreição. Mas o olhar cristão não se incomoda e racionaliza: o que importa é que todos dizem a mesma mensagem: Jesus foi batizado, morreu e ressuscitou! Oh, simplórios! Quanta necessidade de crença. Então, muito bem: necessidade de crença não se refuta! Só outra necessidade de crença elimina a anterior e nenhuma sistematização de refutações fará algum fiel mudar de ideia.


E por que eu mudei? Ah, porque a religião já não representava quase nada para mim. Porque o Jesus descolado, o nazareno loko da revolução, já não simbolizava nada além de uma construção engenhosa. O relativismo me inundou e transbordou em mim antes mesmo de ter contato com Nietzsche. A história me alertou e foi minha conselheira: "quantas religiões temos no mundo, Gabriel? " E eu respondi: "Tantas quanto possamos imaginar e criar!" E ela prosseguiu de forma aguda e quase perversa: "Então, o que te fez cristão: nascer em uma família cristã ou numa cultura cristã? Pelo menos as probabilidades de você ser da religião vigente são altas, não é mesmo? Se você nascesse em um país árabe, provavelmente flertaria com o Islã!"


Então eu meneei suavemente a cabeça, engolindo essa "nova iluminação" em um misto de emoções. Era eu contra eu mesmo! O Gabriel metafísico, versus o Gabriel relativista e científico: aquele que descobrira que, sim, viemos de um ancestral em comum com os macacos; aquele que descobrira que o Gênesis é uma alegoria; aquele que descobrira que Jesus Cristo como deus encarnado foi um construção em cima da figura histórica de um nazareno; aquele que tirou o último alicerce de sua fé metafísica: Jesus Cristo como carro chefe do cristianismo descolado, do cristianismo que aprendi com Caio Fábio D'Araújo Filho. Foi um momento de total rompimento, inclusive com o pessoal do Caminho da Graça, que seguia esse Jesus de Nazaré descolado. Não rompi por querer, afinal, eu ainda frequentava aquele ambiente sem crer em Jesus Cristo; apenas frequentava movido pelos laços humanos!  Mas então veio a pandemia e tudo o que já estava naturalmente se desfazendo... acabou-se por desfazer-se.  


A morte do mito, a morte da fé; o que isso trouxe em mim senão um luto sufocado? Um luto reprimido e mal sentido? Freud já postulou que " As emoções não expressadas jamais morrem. Elas são enterradas vivas e voltarão mais tarde, mais feias."  Percebo isso com mais clareza hoje. Uma identidade de 20 anos morreu, isto é fato! Ainda hoje tento sepultá-la, mas ela ainda está viva de outras formas. 


"E quem eu sou agora?" Me pergunto hoje. "Um cínico!" Respondo a mim mesmo. O cinismo surgiu do total desprezo dos filósofos pelos bens materiais; a eles interessava pregar com a moral sua forma de pensar. Mas o meu cinismo não despreza os bens materiais: ele despreza a suposta verdade! Qualquer afirmação  que digam: "Vejam, eu achei a verdade, ela está aqui!" Eu direi: "Olha só  querido... não querendo estragar seu entusiasmo, mas..." E lá vou eu jogar baldes de água fria, pontuando outras visões contraditórias dessa suposta verdade. 


Este é o meu cinismo: o desprezo pela verdade!  A constatação de que boa parte do que afirmamos ser verdade, é apenas interpretação do olhar humano e restrição nesse pressuposto. "Que cara mais mau humorado...", critico a mim mesmo; e complemento: "Deixe as pessoas seguirem seu caminho provisório, deixe elas formarem sínteses sobre o que precisam; seja despretensioso! Não seja um destruidor de convicções, deixe elas mesmas destruírem se e quando quiserem." 


Então perdoem-me, senhores! Perdoem-me pelo relativismo selvagem e pelo cinismo à verdade. Quem vos fala é um guerrilheiro bruto que precisa relaxar diante de tantas verdades e nenhuma certeza. 


-Gabriel Meiller

terça-feira, 12 de setembro de 2023

A melhor crítica nietzschiana: a crítica antropológica a Deus.

 




Que todos sabem que Nietzsche é o crítico mais voraz que ruge com seu martelo a respeito da moral cristã absoluta, isso é um fato dado e obsoleto. Mas por que o "Deus está morto" gerou todo esse rebuliço a ponto de terminar de supultar (pois o iluminismo já tinha começado essa árdua tarefa) o aguilhão da agudez (pois a religião cristã por meio da moral ainda deixa suas marcas no Estado) da religião no Estado?


O "Deus está morto" foi profundo e pragmático. Não foi uma afirmação no sentido: "A entidade existente chamada Deus está morta." como se ela tivesse existido e então morreu; Nietzsche estava falando do Deus cristão na mente humana. Era uma afirmação da interpretação do Deus cristão. Nietzsche confessou em Ecce Homo que seu ateísmo instintivo não o fazia perder tempo com a entidade Deus; visto que provar a inexistência de um Deus soa como provar a inexistência de um dragão invisível na minha garagem que é imune a qualquer aparelho de detecção de alguma vibração ou temperatura, como exemplificou Carl Sagan. 


Então, se o Deus ontológico era perda de tempo para Nietzsche, o Deus antropomorfizado, ou melhor, o Deus antropológico construído pela mente humana, esse sim deveria ser analisado e constatado como morto! Por que? Porque de fato  o mataram!  Pelo iluminismo, pelo afastamento da igreja católica e sua interferência no poder temporal do Ocidente; pela constante laicização e a possibilidade de outros valores que não fossem cristãos. Matar Deus, então, significa mudar a concepção moral do Deus ontológico e  consecutivamente da moral!


Mas Nietzsche visava a crítica do Deus antropológico para ir mais fundo ainda. Ah, essa topeira persistente e imparável; esse rapazote de visão aguçada que sente o faro da privação aos sentidos do corpo: que sente o faro do platonismo adaptado ao cristianismo! 


Nietzsche enxergou em Eurípedes o começo da maior tragédia de todas: a tragédia do privilégio do que não se vê em detrimento do que se vê! Parece familiar aos senhores esta estratagema? Sim, está em vosso livro sagrado: 


"Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno." - 2 Coríntios 4:18.


Essa foi a tendência que começou a entrar em ascensão no Ocidente: uma revolta contra aquilo que se vê, a saber: o corpo! E uma idolatria para com tudo aquilo que não se vê, a saber: a mente, alma e a razão como juiz máximo de todas as demais faculdades submetidas a este novo juiz. Ou se quiserem nos termos de Nietzsche: o domínio do apolíneo sob o dionisíaco! 


O centro de toda crítica nietzschiana, ou seja, sua guerra de morte: foi travada contra o desequilíbrio da valoração expressa na máxima do platonismo: a superioridade da mente em detrimento da inferioridade e transitoriedade dos sentidos! A razão, pela narrativa nietzschiana, passou a dominar sob os sentidos em escala de importância e então o cristianismo foi fundamentado sob essa valoração platônica que considerava o pecado/transitório como produto das vontades da carne. E o combate ao pecado, como combate à carne!  A grande questão é que o pecado foi a interpretação cristã do que seria o "engano" para o platonismo, do que seria a cópia barata do mundo das ideias em comparação com o mundo das essências. Para Nietzsche essa concepção platônica foi o delírio que pegou e fez de todos lunáticos que cultuavam uma vida imaginária em detrimento  desta vida. O que é isso senão ódio à vida? O que ainda é isso senão niilismo?!! 


Desta forma, por que criticar o Deus ontológico? Chutar cachorro morto não leva ninguém a nada; tentar expulsar um dragão invisível da garagem é perda de tempo. Deixemos os meninos descolados, os metafísicos refinados se divertirem com seus dragões imaginários na garagem, que mal isso faz a alguém? Mas o Deus cristão histórico e antropológico que dá margem para a condenação da carne e dos instintos... esse deve ser alertado a todos, para que saiam da emboscada mortal de autossabotagem! 


-Gabriel Meiller

domingo, 3 de setembro de 2023

Deus me revelou que Ele não existe (e nem é)

 


Somos seres de sentido e carecemos de lógica. Mas uma síndrome silenciosa e típica de quem estuda demasiado e em diversas áreas é a "síndrome de corrosão da lógica". Essa síndrome assola àqueles que começam a fazer autorreflexões, isto é, uma crítica a sua linha epistemológica de pensamento, além da crítica de outras linhas epistemológicas, ou seja, a crítica da verdade. 


O título do texto é contraditório e um absurdo e ele é o ponto máximo da minha intuição sobre o que é a existência: uma contradição que não cabe  em nossa visão de mundo. Certa vez, um homem de tanto procurar a verdade encontrou o absurdo: Deus apareceu a ele e revelou que o universo surgiu do nada por meio do Big Bang. Foi-lhe revelado que o Big Bang surgiu do nada absoluto, isto é, as partículas fervilharam do caldo do nada e antes disso nada existia! 


Deus ainda lhe explicou que a ideia da autoexistência de Deus foi uma recorrência da teleologia humana que precisa de um começo, meio e fim, bem como de um criador com consciência cósmica e que tenha noção do  bem e do mal! 


Ao receber essa revelação de Deus, o homem saiu pela rua e pelas igrejas pregando esta nova palavra: "Deus me revelou que ele não existe, Deus não existe!" Então um pastor protestante versado em filosofia lhe disse: "Tens razão, meu filho! Ele não existe, ele é, pois ele está além da existência."  


O homem que recebeu essa revelação ficou indignado pois não era essa a mensagem que ele queria introduzir. O pastor usou a teleologia para obscurecer a verdade: de que a verdade não existia no universo e de que o próprio universo surgiu do nada. E que Deus lhe revelou essa verdade!  Então ele voltou a falar: "Não, caro pastor! Deus não existe e nem é! Deus é uma invenção humana antropomorfizada, mas Ele me revelou isso para que a humanidade passe a crer nestas palavras!" 


A igreja, os ouvintes das praças e das avenidas o taxaram de louco! Um esquizofrênico ou um bufão zombeteiro que fala por paradoxos. E então, depois de tanta importunação o homem se pôs a gargalhar e dizer: "Sim... eu sou louco! Sou louco como todos os senhores! Pois lá no fundo, todos vocês fazem o mesmo: os ateus dizem que o universo surgiu do nada e que Deus é apenas mito! E os teístas dizem que Deus sempre existiu! Aonde isto faz sentido a algum de vocês se formos levar a razão até seus limites? É irracional à mente humana o conceito de autoexistência de um ser; e também irracional à mente humana o conceito de algo surgir do nada. Quem tem mais fé para sustentar sua tese e construir as demais a partir desses pressupostos? Ambos de vocês possuem uma convicção em um princípio irracional que é racionalizado para que vossas crenças sobrevivam. E eu não posso também falar um absurdo destes? É tão mais provável deus me revelar sua inexistência assim como o é para vocês o mundo surgir do nada e Deus autoexistir. Todos carecemos de razão, senhores; todos devemos ignorar a falta de sentido lógico da existência..."


O homem silenciou a todos! E depois de um longo e demorado silêncio... se pôs novamente a gritar: DEUS ME REVELOU QUE ELE NÃO EXISTE, ACREDITEM! A RAZÃO ESTÁ MORTA, A RAZÃO ESTÁ MORTA!  AGORA SÓ NOS RESTA A VIDA EM DESPRETENSÃO! 


E assim como o badalar dos sinos às 18:00 da tarde, o profeta da contradição e da morte da razão passava pelas ruas gritando e anunciando a morte da razão e, consecutivamente, a morte da verdade! 


Qual o resumo dessa história? Não acreditamos na verdade; acreditamos no que temos necessidade de crer! Acreditamos no que nos faz bem, no que nos faz sentido; a maior mentira é que acreditamos na verdade: só acreditamos na nossa verdade, então criamos a verdade à nossa imagem e semelhança. 


-Gabriel Meiller

sábado, 2 de setembro de 2023

A grande dissolução do ego: um mergulho em mares profundos

 




Já morri diversas vezes, senhores. Já não sou mais eu desde que aceitei a manifestação da contradição neste campo de batalha biopsíquico que vos fala! 


Quem é o meu Eu? Um apanhado de vontades, pensamentos e sentimentos que se alternam em todo o tempo. Não há dualidade, há decalidades! 


Eis o meu submarino para águas profundas: a aceitação das contradições que habitam em mim e na humanidade. Minha filosofia é para aqueles que suportam a descida ao profundo abismo do Oceano, mais afastado do que a calamidade do Titanic onde a pressão é esmagadora àqueles que ainda possuem ideais metafísicos absolutos.


Os ideais metafísicos não são o problema; o problema é a seriedade com que os manuseamos. Somos demasiado pretensiosos, demasiado sérios! Precisamos da despretensão, meus caros! Gravem esta palavra chave: des-pre-ten-são!


Ela é a chave para a vida em abundância: se desprender de uma visão no momento adequado; não ter uma pretensão a todos os momentos; uma pré-tensão significa uma tensão desnecessária; não pretender nada é necessário para que a criatividade surja e a pretensão se aplique quando os novos objetivos forem necessários; novos objetivos que só aparecem quando não há uma pré-tensão, um objetivo totalitário e universalizante barrando todas as possibilidades de ser que aparecem com a maré das incertezas e da impermanência. 


A despretensão é uma constante dissolução do ego; não devemos nos enxergar com uma essência, não! Nossa única essência é a não-essência, a inconstância, ou melhor: a impermanência. 


Nosso velho Heráclito estava corretíssimo sobre nós e sobre os rios, porque ele estava falando de uma coisa só: tudo é feito da mesma submatéria! Dos átomos que são uma espécie de energia, de oscilação (im)permanente. A luta começa entre a interação das menores partes da matéria que neste conflito fundam os alicerces de todo o mundo: o mundo como conflito eterno de forças que começam desde a mecânica quântica até as maiores partes da matéria. 


Se há conflito em tudo, em nós também ele está presente nas mais diversas dimensões e áreas: pois somos parte do universo e abrigamos em nós bilhões de bactérias, milhões de células e milhares de interações entre as desigualdades que nos formam em um organismo que possui uma diferente e intrigante consciência de si mesmo e de seu funcionamento. 


Somos, então, seres da contradição e devemos aceitá-la. Aceitar a contradição significa aceitar todas as partes de si! Significa dizer um sagrado "sim" ao mundo! Mas quem não ama o mundo, diz que ama as coisas de Deus. Filhinhos, aprendam de uma vez: quem alega amar a Deus, nunca poderá amar ao mundo, pois as coisas do mundo significam o eterno conflito de forças. Os que amam a Deus morreram para esse conflito e preferem o nada. Essa é a essência da metafísica: a morte e aniquilação de partes de si mesmo pela não movimentação da vida. Essa morte ocorre justamente pela estatização. Metafísica= estatização. Estatização= ausência de conflitos existenciais das forças que estão em nós e no mundo. 


Os metafísicos fiéis não aceitam sua natureza e por isso recorrem a outra; mas quem sabe relativizar até a metafísica, este se livra dela sem precisar negá-la por completo e por falta de uma longa e prolongada reflexão constante sobre suas estruturas de dominação (Nem todos conseguem essa metódica proeza de desmantelamento).


Mas esta é a vitória que vence a metafísica: a despretensão e o ouvir aos instintos! Filhinhos: não deixem que a vontade de verdade reine sobre vós: ela é como um homem conservador que trilha caminhos tortuosos: ele finge estar satisfeito com sua mulher, mas na calada da madrugada sai para procurar as transexuais e os garotos de programa e dar a eles suas partes de trás. 


A vontade de verdade é o negar de si mesmo em nome da pretensão e de uma busca imaginária que nega a vida e se contenta com a morte por esta ser o prêmio que leva à suposta vida eterna. Em verdade, em verdade vos digo: a vida eterna é esta a quem vós negais, óh filhos da Bíblia e do ascetismo de todas as religiões que negam este mundo em prol de uma esperança de vida eterna.


-Gabriel Meiller

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Existência precede a essência

 

 


Ficou claro aue o homem é o animal rebelde? Então posso me ir embora...


Não... restam os dominicalistas e os que conhecem esse conceito apenas na mente, mas não na vida! Então resta-me berrar às pedras e ser taxado de louco, resta-me ser o bufão belicoso. 


Para a metafísica o homem é definido pelos deuses e pelo deus cristão: ele é a imagem e semelhança de Deus. Isto significa que ele é racional porque Deus assim o quis. 


Para o existencialismo e o darwinismo o homem é o animal rebelde que sofreu uma mutação e passou a produzir a chamada cultura. Não houve um artífice que desenhou e projetou o homem para ser algo. Dentro da espécie do homem, há varios homens, mulheres e seres não binários. 


No reino social um homem (macho) nasce assim por determinação da biologia; mas pode se tornar mulher trans. Em parte por sua decisão, em parte porque a própria biologia assim o quis por meios fenotípicos; há os nascimentos de hermafroditas, também. O que dizer disto? 


O homem primeiro existe, vive, aprende e depois se define! Depois descobre uma essência bem diferente da essência metafísica. 


Os homens são ambíguos; já presenciei homens casados com mulheres que estavam em aplicativos lgbtqia+, tendo relações sexuais com outros homens no sigilo; e estes são muitos! Já presenciei aqueles que adoram mulheres trans porque querem a figura feminina somada à "surpresinha" que literalmente os atravessam. Ops!!! Perdoem-me a indiscrição, ela faz parte da minha pedagogia filosófica. No Brasil o pornô mais acessado é o pornô trans e um dos lugares onde mais matam e agridem mulheres trans! (Fenômeno social e psicológico de negação da pulsão de excitação sexual por meio da violência). 


Mas, em contrapartida, o homem trans (mulher original que se tornou homem)não possui tanta audiência ou endeusamentos. E por quê?  Porque não possuem falo em meio a uma cultura falocêntrica que liga o pênis ao poder! As mulheres trans são as únicas mulheres que possuem um falo, representando poder e possibilidade de serem ativas e passivas e sem a reprodução sexual de outro ser vivo. Poxa... quanta diversidade. E depois vocês ainda brincam com a preferência do jogador Mbappé? Ele foi inteligente, isso sim! 


O que tudo isso diz? Que somos seres sem essência; não há um homem e mulher e mulher e homem; macho e fêmea como assim quis a tradição e as doutrinas religiosas conservadoras. O homem pode fazer o que bem quiser com seu botão... inclusive praticar a submissão e ser dominado.


Isso nos leva à perspectiva de que somos atores sociais em constante mudança, mesmo quando ainda cismamos em um mesmo papel social. O que é atuar senão definir uma essência? Nossa essência foi construída por outras influências. Um ator como Jim Carrey percebeu isso ao se ver em crise por ir à fundo demais em seus papéis de identidade. Quem era ele se sempre era fácil demais se perder após os seus filmes? Não havia uma essência, haviam papéis que foram aprendidos em casa e no meio social.


Sou mais prático que Sartre por causa do espírito nietszchiano: Não existe essência, ela também é uma invenção! Existe o papel de uma essência por meio da existência! 


-Gabriel Meiller