terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

O significado de expressões envolvendo a palavra "merda"

 


  


   Entrando em uma abordagem socio-filosófica podemos refletir acerca do significado de expressões que envolvem nossos bolos fecais, chamados de "merda" na linguagem cotidiana e vulgar. Expressões como: "Ai, que merda! Você come merda? A vida é uma merda. Fulano é um merda" e por aí vai... são muito faladas pela maioria da população em algum momento de raiva, indignação ou embasbacamento diante de alguma situação. 


Entretanto, os significados destas expressões podem ser muito mais profundos através de análises menos rasas que exigem um conhecimento básico de fisiologia. Segundo a fisiologia, isto é, o estudo das funções regulatórias do corpo com o objetivo de manter a homeostase, a merda humana, ou seja, o bolo fecal humano, são os restos inutilizáveis do aparelho digestivo humano. Nos seres humanos a digestão é tão eficiente que se alguém comesse merda humana, não teria nenhum proveito. Enquanto alguns animais comem merda de outros animais com objetivo de adquirir alguma qualidade nutritiva (pois a digestão de outros animais não humanos é inferior à digestão humana e por isso a merda animal possui alguns nutrientes e é por isso que seu cachorro pode vir a comer merda na rua, pelo fato de estar desnutrido ), a merda humana não serve para absolutamente nada. 


Este "nada" e esta "inutilidade", senhores e senhoras, é o maior insulto! Ao dizer: "você come merda?" Estamos dizendo biológicamente: você come o resto dos restos da digestão que é desprovida de qualquer utilidade. Ou dizer: "você é um merda!", significa algo ainda pior. 


Aos questionadores que não compraram esta ideia, poderíamos apelar para uma abordagem mais existencial. Se um sujeito que possui habilidades em algumas áreas de sua vida e se julga atribuído de qualidades é chamado de um merda, logo, é questionado em sua identidade social toda essa variável de atribuições qualitativas. Dizer ou julgar alguém como "um merda" significa dizer que ele não serve para nada, não tem nenhum sentido para estar vivo, não agrega nenhum tipo de valor a nenhuma sociedade. 


Pensando de forma fria, isto é um insulto significativo, seja ao que ou a quem for direcionado.  Enxergar o significado das expressões para além do nível mais básico é um sinal de ganho de consciência. E a consciência é a recompensa temporária para o ser que sabe que um dia irá morrer, tendo ao menos, iluminado um canto a mais da escuridão que ronda a pequena vela acesa na escuridão do absurdo da existência.


-Gabriel Meiller

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Reflexão em cima da imagem de Neymar




Uma das facilidades do mundo globalizado e suas plataformas de streaming é o variado cardápio de filmes, séries, documentários e até jogos que elas nos fornecem. Basta termos um mínimo de tempo disponível, uma assinatura e muita curiosidade.


Entretanto, a acurácia das análises fica sob o julgamento dos espíritos mais críticos e analíticos que não deixam de aproveitar o lazer  juntamente com a reflexão livre. Em uma onda de documentários que falam sobre personalidades midiáticas, o documentário do Neymar Júnior alcança uma posição entre os top 10 do Netflix. 

 

Em resumo o documentário mostra a vida de Neymar no mundo do futebol; o tal do "white people problem" que não está no cotidiano de indivíduos de classes mais baixas está presente na vida pessoal e profissional de Neymar Jr. Embora o próprio Neymar Júnior tenha "crescido em uma manjedoura", sua vida depois da maturidade não seria mais a mesma. O garoto pobre que morava em Praia Grande já ganhava uma melhor qualidade de vida, após se destacar no futebol brasileiro. Sob o estigma de um garoto habilidoso e mimado, a chuva de jornalistas e comentaristas do futebol virou bordão. Os comentarios giravam em torno de afirmações como: "Estão criando um monstro! ". 


Quem é este monstro?  Apenas um moleque que ganha superpoderes no mundo da bola, sob a promessa de ser um dos melhores do mundo e que age de acordo com sua maturidade e juventude suprimida por obrigações profissionais e ainda deseja curtir a vida, participar de festas e ser quem desconfia que é. Este é o "monstro" achincalhado pelos marmanjos experientes do mundo midiático, sem sensibilidade para detectar no jogador os traços de um jovem normal com aspirações que transcendem obrigações futebolísticas. 


Raiva, deboche, ousadia, precipitação travestida de convicções corajosas... este é um misto de caracteres que habitaram Neymar Júnior em sua carreira astronômica no mundo da bola. O que dizer disto tudo? O acaso jogou em um moleque fama, dinheiro e influências quase infinitas do tamanho do mundo. O poder subiu à cabeça daquele adolescente humilde que jogava bola na rua. O que é lógico de se ocorrer? Ingerências existenciais, é claro. O capitalismo engoliu e se apossou da imagem de Neymar Jr; não da pessoa de Neymar, mas de sua representação para o mundo. Chuvas de comerciais na televisão foram adornadas com notíciais midiáticas da vida privada de um dos jogadores mais bem pagos no cenário internacional. 


Neymar Jr foi midiatizado, cristalizado e empossado pelo poder que o vínculo de sua imagem gerou para os grandes empresários e suas marcas. Enquanto isso, no cenário futebolístico, Neymar toma a decisão de sair do Barcelona, visto que Messi estava nas capas dos jornais como a estrela principal do clube. 


O ego inflado do jogador e sua imagem imensa não poderiam suportar tal golpe desferido pela imprensa espanhola. Sua recisão com o clube espanhol, contrariando o clube e o seu pai Neymar (sênior), vão fazer com que a pressão por jogar no Paris Saint Germain seja avassaladora. Vaias dos torcedores recentidos, junto com a pressão para que o primeiro título saia, somada a uma lesão em Neymar, fazem com que o jogador se revolte e chegue ao ponto de agredir um torcedor impertinente. 


Ao final, embora o Paris Saint-Germain tenha perdido a final do campeonato, Neymar se supera e joga de forma fenomenal depois de se recuperar da lesão.  Entende-se que Neymar é um misto de sentimentos no imaginário coletivo. Que sua luta pessoal e coletiva se esbarram entre as filmagens do documentário e que muitos viéses e análises podem ser retiradas nos mais diferentes níveis existenciais, sociais, políticos e econômicos. 


Acima de tudo, a imagem de Neymar é mais uma peça no quebra cabeça da sociedade pós-contemporânea que está sempre em busca de otimização, positividade (tóxica), representação advinda de status de personalidades carismáticas, entre outras características. O capitalismo, entretanto, é um sistema que abarca tudo isto e que está em tudo e todos! Fazendo o bem e o mau; a reparação histórica e a injustiça; a acumulação e a miséria a céu aberto marcada pela ausência de recursos. O capitalismo é o grande Deus supremo no tecido social que se apodera da imagem de pessoas em um pacto sagaz e sutil. 


É impossível colher somente o doce néctar do capitalismo sem também estar disposto a sofrer de seu veneno. E o garoto habilidoso que cresceu jogando bola na parte periférica de Praia Grande, se tornou o jogador mais caro da França sob a missão de cumprir o que o clube lhe designou. Em resumo, o capitalismo é uma extensão do grande surto coletivo em qual a humanidade está inserida por causa de sua primordial ganância que afeta tudo e a todos, sem discriminação de classes sociais.


-Gabriel Meiller

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Examine-se o homem a si mesmo, e então coma do pão e beba do cálice

 

 






Existem pessoas que na vida vão a esbarrar aqui e acolá; tateiam em busca de descobertas sobre o que há de significante e aprazível a deleitar-se. Alguns terminam tal caminhada existencial revestidos de uma carcaça pobre, resultante de nadismos e automatismos que foram a viver em tal monótono tempo de vida. Que foram a fazer estes? O padrão; nasceram, cresceram, se preocuparam com os aspectos basilares de suas épocas, como se aliar a um grupo social, emprego, corridas exaustivas atrás de promoções e especializações deste emprego; casar e ter filhos; ou idas frequentes em baladas e eventos semanais; o consumo de séries e filmes; a aposentadoria, a dedicação em cuidar dos netos e em arrumar a casa... e então aquele velho sentimento de um carro velho na garagem! Uma peça que já cumpriu seu tempo e sua função aqui na Terra e resta-lhe agora o túmulo e o fim da consciência.  


É isto? Isto é vida? Viver ou existir? Por deveras medíocre foi tal vida estapafúrdia, alienada no fluxo do famoso "vá vivendo (vá a viver)  vá seguindo (vá a seguir), pois um dia a felicidade chega!" O anestesiamento e o comodismo enterraram tal indivíduo antes do devido tempo e dentro deste havia somente um sepulcro caiado; um engenhoso Frankeinstein. 


Óh, Sísifo! Condenado a empurrar tal pedra estafante até o mais alto cúme para que ela role novamente! 


Que fazer? "A necessidade aguça o engenho..." como diriam meus colegas lusitanos! E então um de seus mais sublimes poetas, exaltado pelo ufanismo lusitano, Fernando Pessoa, nos diz: 


"Não importa se a estação do ano muda... Se o século vira, se o milênio é outro, se a idade aumenta... Conserva a vontade de viver, não se chega a parte alguma sem ela." 


E então o Frankeinstein acorda de seu mais profundo sono; e aqueles sábios que ouvem a voz da revolta contra o absurdo e abrem a porta de suas almas, são revestidos da glória do autosentido da vida. 


E então ela vai a encontrar (encontrando), esta vagante alma, o que a energiza; o que a dá sentido a ponto de cumprir-se a profecia do Eterno retorno do confesso amante da vida. 


Seria o hedonismo para alguns a libertação do absurdo? Uma vida de incansável estimulação dos prazeres? Que assim examine cada um em seu coração e tome deste cálice! 


Seria a tremenda privação e dedicação assídua a alguma causa religiosa ou quase religiosa (como demonstrou o marxismo/comunismo, incumbido de libertar os escravos do capital e guiá-los à terra prometida da igualdade? Ou o fetichismo da meritocracia e da autoregulação do mercado que os liberais econômicos sonharam ?) Que assim examinem em seus corações os devotos de cada causa religiosa, ou semirreligiosa... e bebam desse cálice! 


Seria a profunda revolta niilista (seja qual for o sentido do niilismo), principalmente o niilismo de negar que qualquer verdade possa ser alcançada?


Deste cálice assim beba, tal ser vivente!


Seria a tentativa incansável, por meio da filosofia racionalista, da tão sonhada busca da Verdade? Verdades acessíveis integralmente à faculdade da razão? Arre... já ouço Friedrich Nietzsche revirando-se em seu túmulo! Embora este jogo de brincar de atingir a onisciência seja seduzente aos amantes da filosofia. 

Que também, estes, bebam de seu cálice! 


Seria, então, a tentativa de viver o ideal nietzschiano? De não adotar nenhum aparente ídolo de nenhuma espécie? APARENTE, pois o próprio Nietzsche ergueu seus altares aos gregos e sua cultura suprema. Viver a vida de forma estética e com o mais profundo gosto, abraçando o sofrimento e se fortalecendo deste? 


Quem assim pensa e compactua, que erga seu cálice e o beba com gosto! O cálice de Dionísio! 


 

Portanto, caros irmãos e companheiros de jugo existencial, qual for a decisão e percurso existencial de todos os espíritos filhos de seu tempo... que seja esta decisão examinada em tais corações e, no final, beba cada um de seu glorioso cálice! Para que no final, ao acabar a ceia da vida, a morte possa consumar este momento que deva ser eterno, enquanto dura! 


E assim a Morte pergunta ao peregrino caminhante: "Valeu a pena?" E ele dirá: "tudo vale a pena se a alma não é pequena!" Mesmo que as embarcações tenham naufragado e os filhos chorado; mesmo que as mães tenham em vão rezado e as noivas tenham ficado por casar! Pois os portugueses estavam dispostos a navegar o mar do desconhecido... e roubar o ouro e os recursos destas terras aqui de onde falo! A terem cruzado o bravo Atlântico com seus navios negreiros, cheios de escravizados africanos, pelos quais as tribos africanas rivais se vendiam ao aventureiro lusitano em troca de escambos. Mesmo assim valeu-lhes a pena, pois mesmo o jugo do capricho e do crime (que seja este punido pela parcial justiça dos homens) faz parte da vocação da vida!  Sim, os erros! Fazem eles parte da vocação de uma vida mais que vivida! 


-Gabriel Meiller

Esvaziamento dos sentidos existenciais modernos

 



Em toda mesa de cabeceira de um ser humano pós-moderno existem catálogos de manuais sobre: como se deve viver, o que almejar, como se comportar e o que esperar da vida. Em um primeiro momento o serzinho ingênuo e iludido se felizarda com tal engenhosidade da contemporaneidade e entra em um descanso sabático existencial. 


Dois empregos? Uma vida de hobbies, baladas regadas a alterações de consciência, carro importado ou nacional? Férias na Disney? Formação em direito, engenharia ou medicina? Viver de música e da arte? 


O ser humano nasceu para adorar a Deus ou Deuses? O ser humano reencarna em outras existências? O ser humano é um sopro que logo se esvai e só resta a eterna escuridão e o fim da consciência?


Ser liberal ou conservador? Usar drogas ou viver pelas leis e regras morais? Ficar com vários ou namorar? Seguir alguma religião ou viver sem elas?


Para todas estas e outras perguntas existem mostruários de roupas existenciais, pensamentos e modos de ser. Diante destes mostruários cada mortal veste uma roupa e logo depois descarta; outros se identificam e não mais as trocam. 


Mas atenção, muita atenção: o vendedor é um manipulador pertinente! Ele sugere peças de roupas por meio de artifícios engenhosos. As propagandas na mídia, os grupos sociais fechados, os influencers do youtube, a grande mídia... são o vendedor desenfreado. Mas acima de tudo: o surto coletivo da sociedade da positividade tóxica. "Produza, seja, faça, viva, escolha, exista!" De onde vem tudo isso??? Maldito Dasman! Maldita normatização!  


E neste discurso a megalomania do homem da produtividade se torna um imperativo mais que categórico que escraviza o portador do manual na mesa de cabeceira.


"Como assim você não sabe o que quer? Tenho mil e uma opções para que você seja... ande logo! Se vista e diga o que achou!" 


E assim o ser humano sai do mostruário pressionado, insatisfeito e em dúvida sobre o que escolheu! "Será que essa peça me serve mesmo? É a mais adequada?" 


E então o vazio bate à porta... cresce de maneira avassaladora; as frustrações vêem à tona; o sentimento de confusão e de que não se sabe o que quer é crescente e profundo! Quem somos? Somos por que quisemos ou por que fomos coergidos a ser? 


A construção do sentido da vida é pessoal e subjetiva, mesmo que em meio à exposição ao objetivo e ao coletivo-social. O ser que escolhe abandonar o manual da mesa de cabeceira, expulsar o vendedor apressado e manipulador, e averiguar, vestir, trocar, desfilar e usar o mostruário um a um... sai com a certeza (mesmo que ilusória) de que escolheu seus melhores looks. 


Ah... a segurança de que a bendita "escolha certa" foi feita! Nada paga o preço desta sensação aconchegante; nada rouba a felicidade de uma vida bem vivida e saboreada pelos sentidos.  


-Gabriel Meiller

O Gênesis científico


 



No princípio a Terra era sem forma e vazia... até que pela ação do tempo biológico e de bilhares de anos, a vida surgiu no mais profundo abismo: o abismo do oceano. É quase certo que não havia um ente que pairava sob a face das águas, tendo em vista que o famoso "haja luz" e "o Espírito de Deus pairava sob a face das águas..." é uma linguagem mitológica muito bem formulada na antiguidade sob a finalidade de explicar em uma linguagem infantil (pois a antiguidade é o jardim de infância da humanidade) a origem do mundo e da vida na Terra. 


A mitologia hebraica, formidável em riqueza de detalhes visto que foi aculturada da tradição de diversos outros povos, a saber: egípcios e babilônios primordialmente... é um dos trunfos da linguagem mítica e simbólica. 


Embora o mítico seja primordial para a base e a continuação da evolução do pensamento humano, voltemos para o ponto central da narrativa: a vida nasceu das profundezas do Oceano. E variando por inúmeros microorganismos que se refinaram e se desenvolveram de forma pluricelular... um descendente que saiu de um ramo de uma espécie ancestral aquática em comum, aquele que migrou da água para a Terra, deu início à jornada terrestre das espécies. 


Das variadas espécies terrestres, entre os inúmeros mamíferos que percorriam o caminho sinuoso que levou até os primatas e ancestrais humanos... adveio o homo sapiens. Este é, como diria Carl Sagan  (este cultivador do arquétipo apolíneo e da racionalidade platônica), a parte do universo que resolveu conhecer a si mesmo. O homem é o universo que se autoconhece! 


"Vida inteligente? Prazer, sou o homo sapiens!"  Demonstrou esta espécie tão contraditória e absurda; sim, somos inteligentes por inúmeros feitos incontáveis espalhados pela história. Entretanto, ainda permanecemos burros por cairmos nos encantos da ganância coletiva da espécie. Ora... se a evolução traumatizou o homo sapiens a sempre buscar o acúmulo como uma tentativa de se prevenir contra a escassez e o inesperado... esta foi a sua grande ironia. 


Mas se a ganância e o fetiche pelo acúmulo desmedido possui fortes raízes na construção social da natureza do homo sapiens... então esta é a espécie mais digna de investigações que a história já sonhou. Afinal, os predadores que são o topo da cadeia alimentar estão exaurindo o planeta e as suas demais espécies através da ganância e deste instinto caprichoso. 


Que mais dizer? a mãe -Terra que os gerou se incumbirá de vomitá-los como um ninho de ratos dispersado e esmagado pelo pneu de uma Picape 4x4 veloz. A natureza, ou melhor, o planeta Terra se autorecicla através de macroprocessos. E as impurezas são removidas e jogadas para longe; assim fará a fúria da mãe-Terra, quando vingar seus filhos irracionais e sua vida que foi devorada pelos animais fantásticos, aqueles mestres da finalidade arrastados pela ganância! 


Naquele dia, revela a sagrada mãe-Terra, vocês colherão de forma fatal e irreparável as suas ações imperialistas. O dia do julgamento revelará o talhamento do animal fantástico e sua pior sina. As catástrofes serão o expurgo e os sinais do começo do fim. 


-Gabriel Meiller

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

O que a tragédia grega e sua interpretação nietzschiana nos ensina de forma prática!






Não é novidade ou assombro para nenhum de nossos neófitos em Nietzsche, talvez para alguns ainda em fase deveras iniciática, de que o filósofo alemão admirava e extraia sua filosofia dos antigos gregos. Não somente dos antigos gregos, mas da antiga tragédia grega do período clássico. Ésquilo e Sófocles foram as principais inspirações na qual Friedrich Nietzsche se inspirou e contemplou o tão comentado Nascimento da Tragédia grega, que se transformou no nome de seu primeiro trunfo: O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. 


A quem Nietzsche contemplava nestas tragédias e mitologias gregas? Os deuses gregos, bem como os heróis trágicos e os seres místicos. 


Sob a perspectiva de que o mundo helênico se contemplava, como em um espelho, através dos seus mitos e dos deuses olímpicos: orgulhosos, caprichosos, guerreiros, vingativos, sábios, impetuosos, belos, exóticos, fortes, sensuais, divertidos e felizes; tristes e sérios, enfim: deuses antropomórficos! Sob esta perspectiva os gregos se baseavam e mostravam quem eram: um povo guerreiro e engenhoso, cultuador da vida e da harmonia estética, equilibrada pelos pressupostos dionisíacos e apolíneos.


Ao olhar para este suprassumo da Vontade, o filósofo reprimido e aprisionado em sua juventude pelos dogmas do cristianismo e por uma vida abarcada pela rejeição da figura materna e pela ausência paterna, encontra um verdadeiro refúgio no oásis da mentalidade greco-romana e guerreira em essência. 


Por que o adjetivo guerreiro é importante para Nietzsche e a compreensão de sua filosofia? Porque o guerreiro é o arquétipo que lhe coube em sua vida trágica, semelhante à tragédia grega. 


O guerreiro é quem lida com o sofrimento existencial, isto é: a divergência entre as expectativas de que determinadas situações acontecessem de uma determinada forma e a realidade que ocorre de uma forma totalmente diferente da expectada. 


Na tragédia grega o final feliz é abolido; os heróis são "heróis trágicos" pois o destino, isto é, os acontecimentos que transcendem o controle dos personagens, é carrasco e supremo sobre a vida deles. O final ocorre sempre de forma trágica, isto é, contra a vontade dos personagens da tragédia grega. 


Existe alguma possível semelhança com a vida pessoal do filósofo germânico? Ou melhor, com as nossas vidas? Claramente. Pois a tragédia não discrimina nenhum ente sofredor por sua etnia, classe social ou nível intelectual. 


Entretanto, apesar da tragédia ser um tema em que nos identificamos em muitos momentos da vida, ela possui um caráter mister: o aspecto redentor! 


Redenção? O que há de redentor na tragédia e no escárnio da vida humana em bancarrota? Para o falido que sofre o imputamento do inesperado e do trágico, nada há de redentor. Mas para o observador atento, independente das épocas, a tragédia é um ensinamento de amor fati, ou seja, amor ao destino. 


Como o personagem Jó, porventura, disse por meio dos hebraicos após sofrer uma série de tragédias e ser impelido por sua mulher a amaldiçoar a divindade: 


" 'Você fala como uma insensata. Aceitaremos o bem dado por Deus, e não o mal?'  Em tudo isso Jó não pecou com os lábios. "


Em suma, a lição das tragédias e relatos sobre o trágico mostram que da vida e do destino devemos abraçar tanto o sofrimento, quanto o deleite. O bom e o ruim; o aparentemente justo e o injusto, pois o destino e a fatalidade são senhores sobre nossa vontade. E quando abraçamos o sofrimento inevitável e este não nos mata, certamente somos fortalecidos. Recalcitrar aos grilhões do sofrimento inevitável significa gastar energia em vão e perder a oportunidade de viver a vida de forma plena, ou seja: de forma humana, demasiada humana. Navegando para além da dualidade entre o bem e o mal, entre o bom e o ruim. 


-Gabriel Meiller

terça-feira, 28 de setembro de 2021

O desejo em Nietzsche e Schopenhauer




   Toda filosofia de algum pensador é norteada pelo princípio de espaço-tempo, isto é, possui um contexto específico em que ela surge. "Desta lei jamais escaparás", acrescentou a História. Sob todo o invólucro de pensador divinizado, entronizado em sua filosofia, sempre há o lado humano, demasiado humano; analisável e passível de relativização deste pensador.


Alguns, é verdade, estão mais distantes e cobertos pela falta de documentação de sua época, de sua psiquê, tornando-se vultos históricos, obscurecidos pelos relatos dos relatos dos relatos de quem eles eram ou deixaram de ser. Sócrates, Pitágoras, Homero, Platão, Jesus, Buda... são exemplos de vultos que foram preenchidos por arquetipias, anseios humanos do que eles deveriam ser. Essa fábrica de heróis, de ídolos, começa quando o suposto herói não pode ser tocado, nem conhecido concretamente. 


Na caso de Schopenhauer e Nietzsche, estes espíritos são mais palpáveis, delineados, conhecidos. Suas ações, vidas, traumas, derrotas, abrangentes escritas, etc. Através desta máxima de que estão mais próximos de nós e são psiquês passíveis e possíveis de análise e conhecimento... podemos afirmar que a filosofia destes autores é uma síntese de alguns determinantes: contexto histórico; criação e experiências pessoais/subjetivas; e inspirações teóricas e filosóficas destes autores. 


Schopenhauer é conhecido pela sua máxima de que o desejo é equivalente ao sofrimento, sendo esta máxima retirada e absorvida do budismo. Mais do que isso: o desejo é o ente metafísico que governa todas as coisas de forma voraz, desgovernada, intransigente. O mundo schopenhaueriano não é ordenado, racional, nem linear; mas a expressão da loucura do desejo e do acaso. Nunca, na história da filosofia, o pessimismo filosófico foi tão bem sucedido quanto em Schopenhauer. Um sistema metafísico ateu foi o que Schopenhauer deu ao mundo, através de suas influências filosóficas baseadas em Kant e na antiga filosofia indiana/búdica. Sua vida depressiva, os impactos com a miséria humana em suas viagens, a morte de seu pai e a falta de sintonia com sua família fez de Schopenhauer o que ele se tornou. 


Existem certas condições na existência que aguçam os sentidos dos filósofos e uma delas é o sofrimento. A condição em que Schopenhauer foi colocado na existência deu a ele uma visão ampla e aguçada que influenciou o outro filósofo: Friedrich Nietzsche. 


O mestre do martelo um dia foi um devoto cristão em tenra idade; seus avós e seu pai foram pastores protestantes.  Ah, o ethos protestante esmagador! O protestantismo foi um catolicismo astuto e racionalista. E as seduções do ethos protestante passaram diante dos olhos de Friedrich Nietzsche. Afinal, era uma tradição familiar desde seu bisavô a formação de pastores e homens protestantes. Como escaparia Friedrich deste destino ascético que o aguardava? Sua primeira perda ocorreu com a morte de seu pai aos seus cinco anos de idade. A figura paterna... a responsável pela proteção, consolo e segurança se foi e este órfão aprendeu desde cedo o que evidenciaria em sua filosofia: o caminhar sem muletas! Afinal, desde criança este jovem Nietzsche aprendeu a caminhar por si mesmo e por suas percepções de mundo. Seria necessário que se cumprisse a palavra que o destino proferiu sobre ele: "este será o Übermensch!"


Sua forma de honrar o falecido pai foi decidir seguir o seu caminho e através disso o jovem Nietzsche entrou para o Ginásio de Naumburgo com dez anos e decidiu se dedicar a estudar a Bíblia. Quanto mais se aprofundava, mais questionava o cristianismo e suas aberrações. Aquilo que o esmagou e quase o matou... o fez mais forte! E que força manifestou o jovem Nietzsche ao ir para a Guerra Franco-Prussiana e ao beber da cultura grega os pressupostos de que a vida é uma constante luta entre o fraco e o forte, que manifesta sua vontade de potência e impera sob os fracos. Em Nietzsche o desejo é levado ao êxito, à realização e ao capricho dionisíaco. O indivíduo é instinto, potência, realização desejosa e tudo o que aflora de dentro de si. Pecado seria não ouvir a si mesmo e aos impulsos da natureza humana; o mais grave pecado seria se alienar do mundo do aqui e agora em detrimento de "verdades eternas", de ideais que veneram o nada: nihil. E o niilismo foi invertido em Nietzsche, e passou a significar toda metafísica que condena a única vida: a vida terrena. 


Ao ser esmagado pelo cristianismo, Nietzsche se fortalece na certeza de que tudo o que importa é colocar a vontade de potência no centro de tudo. Um profundo egotismo e uma repulsa aos imperativos categóricos, bem como o culto ao indivíduo é o pensamento central de Nietzsche. Os ídolos? Todos passam pelo martelo; cristianismo, comunismo, democracia, budismo e outras religiões... todos para as favas. Esses ideais de ressentidos, do populacho que precisa se definir a partir dos fortes e condená-los por dominarem sobre a Terra... são todos décadence. A compaixão é loucura, pois promove a conservação dessa decadência, do fraco. 


O insucesso com as mulheres e rejeição vinda delas, bem como o convívio desagradável com a mãe e irmã de Nietzsche, deu a ele o ar misógino que tanto faltava para a cereja do bolo. O que dizer então de forma geral da filosofia de Nietzsche? Uma filosofia de antítese. Um combate mortal e incansável contra o cristianismo e contra os ideais platônicos e metafísicos. Eis o que fez com que Nietzsche se tornasse o "filósofo de adolescência", isto é: lido por adolescentes antes de se tornarem adultos. Seria possível que esses jovens, ao crescerem, não notassem o princípio de realidade de Freud? De que nem sempre o além-homem, a vida de surfe no acaso da existência, a vida estética como obra de arte e de prazer como finalidade máxima, são possíveis de realização? 


A utopia nietzschiana é estilhaçada quando o discípulo de nietzsche dá de cara com a realidade e enxerga que nem sempre o desejo traz satisfação plena e de que nem sempre o além-homem supera a si mesmo e anda sem as muletas existenciais. Desta forma, percebemos que tanto Nietzsche, quanto Schopenhauer enxergam a importância do desejo e sua devastadora influência sobre o mundo. Porém, a forma que cada um lida com essa realidade se manifesta de formas opostas entre eles. 

-Gabriel Meiller