terça-feira, 11 de junho de 2024

A filosofia de um filólogo

 



Havia um tempo em que o homem gostava de filosofar e que a filosofia era sinônimo de refinamento do senso comum. Haviam tempos em que o refinamento intelectual de alguns homens significava tornar as premissas bíblicas mais palatáveis à razão por meio de erudição teleológica. A filosofia, então, passou a ser associada a uma escola dominical de rebentos descolados demais para irem aos cultos, mas corajosos de menos para questionar as premissas metafísicas fundamentais daquela sociedade, visto que questionar aquelas premissas significava questionar as suas próprias origens. 


Vocês conhecem algum conhecido que é sensato demais para não seguir a risca o fundamentalismo cristão, mas covarde demais para desconstruir a moral cristã em seus fundamentos? Ele mantém a crença de que Deus criou o mundo e que ama a humanidade; acredita que Jesus e outros líderes foram importantes no progresso moral da humanidade... mas não assume a crença de forma integral. Ele não se priva do sexo antes do casamento, ele fuma, bebe e vai em festas... esse conhecido é o exemplo de um homem covarde! Digo mais e de forma vernácula: ele(a) é um cuzão(cuzona). Não fede, nem cheira; nem quente, nem frio... vomitável! 


Pois bem... no século XIX vários desses conhecidos filósofos europeus estavam fazendo da Europa um lugar que cultuava o adiamento da morte de Deus.  Eles gostavam de acreditar nas doces consolações da religião cristã, ou de pelo menos sustentar algum teísmo aceitável; os filósofos construiam seus argumentos com base no vontade de acreditar em algo que os consolasse: assim fez Kant e os idealistas alemães. Era uma filosofia como reafirmação e reciclagem do que estava obsoleto; uma reforma da metafísica por meio do culto ao não falseável como sinal da existência da verdade eterna! "Ausência de evidência não é evidência de ausência!" repetiam frenéticamente os desesperados por sentido. Oh, coitados! 


Então um filólogo surgiu com a árdua tarefa de ressignificar o sentido da palavra "filosofia" aos demais filósofos. A filologia foi de especial utilidade para a filosofia; o estudo dos rastros da mentalidade humana expressa nas palavras é uma ferramenta imprescindível ao filósofo. As palavras são fontes históricas imateriais, mais do que documentos oficiais que afirmam dizer supostas verdades por meio de um idioma. Uma história das mentalidades da humanidade transita pelos significados que ela dá ao mundo e a si mesma por meio das palavras e de suas modificações nos inúmeros idiomas. É por isso que um filólogo do século XIX teve vocação para a filosofia mais do que os próprios filósofos: ele aprendeu a rastrear o nascimento das morais, ideias e da psiquê humana. 


Se Freud desenvolveu a  psicanálise (a análise por meio da fala/discurso) foi porque antes dele veio um analista por excelência: o analista do discurso coletivo! Nietzsche analisava as morais das sociedades e dissecava a origem das palavras de muitos idiomas. Em Genealogia da Moral e Além do bem e do Mal é notável como o dissecamento etimológico o permite concluir a diferença da moral dos nobres e moral dos escravos.  O bom e o ruim; o bom e o mau; são máximas de sua análise investiga a moral por trás de cada classe social. Os nobres consideravam como "bom" aquilo que eles faziam e honravam: a tradição, o antigo, o igual; "bom" era tudo aquilo que era feito e produzido por eles mesmos. Eles, os ativos e criadores de valores, eram a referência do bom, ou seja, do que era nobre! Já o "ruim" era tudo o que não era igual a eles, isto é, o desprezível, o escravo, o forasteiro, o "não nobre". 


Essa lógica se inverte quando os escravos moralizavam o mundo: "mau" é tudo o que é nobre, tudo o que é bom na visão do nobre, isto é: tudo o que é agressivo, tudo o que representa riqueza, esbanjamento, perigo e domínio. Apenas o que é inofensivo, pacífico, misericordioso é considerado bom para a moral dos escravos, isto é, daqueles que estão em opressão. Essa observação nietzschiana em uma época de filósofos dogmáticos foi um grande achado: entender que as morais e o conceito de bem e mal são criações humanas de inúmeras classes e sociedades. De que o bem absoluto não existe e de que a Bíblia também é uma construção humana, demasiada humana e produto de uma sociedade específica: uma sociedade de cativos que viveram como escravos em muitos exílios e que também pensavam pela moral dos escravos. O Deus judaico-cristão, inevitavelmente, era uma construção e projeção de um povo aflito por exílios e domínios de outros povos. Por isso, o Deus cristão foi idealizado com todas as características que o povo judeu escravizado desejava que os demais povos tivessem demonstrado para com eles: um Deus misericordioso, bondoso, complacente... um democrata entre os deuses! 


Esta é a filosofia de um filólogo: refinada e sutil para rastrear a evolução das morais humanas ao decorrer do tempo.  O olhar típico de um historiador, isto é, daquele que que estuda a criação das morais, é cético  à moral eterna pelo fato de que possui consciência de que tudo nasce, se desenvolve e um dia morre. A premissa de que algo sempre existiu e sempre existirá é abraçada pelos "filósofos" da metafísica, pelos amantes do que não é falseável.


-Gabriel Meiller

quinta-feira, 6 de junho de 2024

O âmago da filosofia de Nietzsche em "Além do bem e do mal": o varredor da metafísica filosófica.

 




 

Nietzsche é conhecido na filosofia pelo seu senso de humor provocativo e pelo seu perspectivismo, muitas vezes confundido pelos leigos e preconceituosos como uma contradição inerente do autor. O perspectivismo nietzschiano é a constatação de que a realidade possui verdades plurais e complexas demais para que alguém possa afirmar de forma convicta que sabe de algo.


Nietzsche começa a primeira parte de seu livro como se fosse um Sócrates 2.0, visando confundir seus "adversários" por meio de perguntas. Nietzsche critica muitos pressupostos considerados verdadeiros pela tradição filosófica Ocidental, como: a noção de um Eu racional e imutável, como quis o cartesianismo por meio da simbologia "Penso, logo existo". Essa frase coloca e reafirma a supremacia da razão sobre os demais sentidos, como se a verdade fosse subjugada e pertencente à razão e como se as emoções não fizessem parte dos julgamentos. O que Descartes fez senão sofisticar o platonismo milenar? Essa é a crítica de Nietzsche: Descartes continuou mantendo as premissas do pensamento metafísico na filosofia ao acreditar que o pensar é produto de um Eu racional e imutável (assim como Deus), mantendo o dualismo presente na filosofia da época: de que há um Eu de um lado e o mundo de outro,  dando a entender que nós e o mundo somos separados. 


Nietzsche questiona os filósofos por não serem críticos tanto quanto costumavam acreditar. Ele os acusa de  filosofar com base em suas crenças pessoais e sem questioná-las. A oposição entre conceitos, uma valiosa premissa da metafísica, é cultuada entre aqueles filósofos: a verdade como oposição à mentira; a justiça à injustiça; o bem ao mal; o egoísmo ao altruísmo... como se fossem conceitos separados e opostos intrínsecamente entre si mesmos. 


Mas será que também não há egoísmo no altruísmo, ou será mesmo que há possibilidade de existir o altruísmo sem o egoísmo?  Freud posteriormenre irá mostrar que tudo é obra do ego, ou seja, tudo seria "egoísmo" e tudo teria interesses próprios em gratificação pessoal: sejam interesses conscientes ou inconscientes.  E se esses conceitos "opostos" forem uma mesma característica empregada em lados diferentes? E se forem vistos de forma diferente de acordo com o julgamento de cada pessoa? E se o egoísmo for tão fundamental e importante quanto o altruísmo?  E qualquer um que esteja disposto a pensar nessas críticas, seria como um filósofo perturbado pela ironia socrático-nietzschiana. 


O que Nietzsche estava querendo fazer na primeira parte de seu livro? Ele almejava expurgar o parasita metafísico que se infiltrou na filosofia, tornando-a  um cadáver putrefado pelo conflito de interesses. Muitos filósofos estavam dispostos a reafirmar suas crenças por argumentos  eruditos ao invés de proceder pelo questionamento cruel das velhas verdades do senso comum.


 O expurgo nietzschiano da filosofia almejava demolir as premissas não falseáveis do idelismo filosófico, principalmente por meio da crítica a Kant. O pressuposto de algo fixo e imutável deveria ser varrido para sempre do ofício do filósofo. O fixo e imutável, o nômeno, Deus, a eternidade... todos esses "pré-juízos" eram inimigos da busca às verdades da existência. Nietzsche começa o livro ridicularizando os filósofos dogmáticos ao dizer:


"Supondo que a verdade seja uma mulher, não seria bem fundada a suspeita de que todos os filósofos, na medida em que foram dogmáticos, entenderam pouco de mulheres?" 


Poderíamos parafraseá-lo, dizendo: "Vocês nerds inteligentinhos não pegam nem mulher, nem a verdade; são péssimos em pegar qualquer uma dessas coisas, porque não sabem como se aproximar delas!"


Nietzsche era um comediante, alguém que sabia que a despretensão filosófica era a chave do conhecimento: a despretensão ocorria no fato de que suas críticas e sua filosofia não pretendiam construir algo definitivo, mas consistiam muito mais em questionar o que os demais pensavam ser A Verdade definitiva. Nietzsche foi o verdadeiro Sócrates que deu certo ao reconhecer a existência como ela é: complexa e incerta ao olhar perspectivista humano! 


-Gabriel Meiller

quarta-feira, 5 de junho de 2024

O excesso de ideologia como vício identitário

 


Um punhado de ideologia e o bando se reúne; dois punhados de ideologia e ele se secciona em guetos. Ideologia é o cadáver morto da filosofia e o niilismo a esperança de quem teve relações sexuais com esse cadáver. 


O niilismo é a negação da vida e o desprezo dela por inúmeras formas criativas. Já repararam no homo-ideólogos? Ele examina bem cada palavra, cada confissão que o outro faz e se atenta a repreendê-lo como um fiscal epistemológico, como um cão de guarda da Verdade. Mal sabe ele que vive pela sua verdade, enquanto os outros vivem pelas demais e isso nunca mudará. Aonde está a verdade verdadeira e quem pdoe defini-la? A incapacidade de responder essa pergunta sem soar ridículo demonstra a fragilidade do homem diante da existência como uma complexidade epistemológica irreconciliável. 


O ideólogo cai num tipo de niilismo bem peculiar, como se fosse uma mistura entre o ativo (a reafirmação de uma ideologia) e o passivo (negação de todos os demais ideais que não coadunam com esse ideal). O ideólogo torce os conceitos na maioria das vezes para que eles caibam em seu mundo idealizado que prega sobre "como o mundo deveria ser".   E então a filosofia como postura cética que questiona para se aproximar de alguma intuição/noção (mesmo que subjetiva) de "verdade",  é sacrificada em prol de um bom motivo para se morrer, como diria Albert Camus. Pois um bom motivo para  viver, também é um bom motivo para se morrer, ou melhor, para tirar a própria vida em ato de desespero. 


Mas para que tanta ideologia? Alguém perguntaria, desconfiando que no fundo sabe e também pratica isso. E a resposta ressoa de dentro: para sua autoafirmação diante do mundo! Seja uma ideologia por meio de argumentos racionais e eruditos, seja uma ideologia encarnada em práticas concretas que exibem força, poder e autoridade. "A vida é vontade de poder", disse Nietzsche. O que é a vontade de poder? Ela significa literalmente: um desejo ativo de poder fazer algo, isto é, colocar sua vontade, seu controle no mundo, alterando a realidade. O ser humano gosta da sensação de controlar e modificar o mundo, assim como um artista gosta de esculpir/criar algo e ver o quão prazeroso isso foi pelo fato de ter sido obra sua! 


Essa vontade de poder, porém, faz da humanidade o que ela é: uma luta de forças constantes e contrárias. Aos ideólogos que insistem em fazer da humanidade um lugar melhor, desejo-lhes força para vencer as próprias frustrações decorrentes do adiamento constante e infinito dessa esperança provavelmente ingênua. A humanidade com sua teimosia tem muito mais a ver com apreciação, choque, espanto e admiração do que: controle, luta de classes, transformação, etc. A humanidade é o feitiço lançado pelo feiticeiro e que saiu de controle há muito tempo


-Gabriel Meiller.

domingo, 2 de junho de 2024

A fraqueza do homem e Deus como seu sintoma

 

O que é Deus? Essa pergunta não tem resposta certa e absoluta; então a resposta mais adequada deveria ser: não se sabe.  Mas como todos gostam de cultivar a sua verdade e brincar de desvendar o cosmos, posso me arrogar a trazer pareceres lógicos com base nas ciências e na filosofia: Deus é a necessidade e o sintoma que vem da fraqueza humana. 


O apóstolo Paulo trouxe a máxima que supostamente ouviu de Deus: "Minha graça é suficiente para você, pois meu poder se aperfeiçoa na fraqueza." 


"Fraqueza" é a palavra adequada, senhoras e senhores. É pelo medo da morte, de tomar decisões e criar novos valores que o homem é fraco. A fraqueza impele-o para o niilismo cristão. O que é niilismo? É o desamor à vida, o desprezo a ela em várias instâncias.  E o niilismo cristão nasce justamente dessa fraqueza: o medo de viver e de aceitar o mundo como ele é: finito e temporário. É nessa fraqueza que o poder de Deus (ou deuses) se fortalece e o ser humano monta a sua fábrica de ídolos monoteístas e politeístas por meio das religiões. 


O que o cristianismo, ou melhor, o niilismo cristão prega? Que essa vida é transitória e inferior à vida vindoura: 


 "Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam"; disse a Escritura. 


O que é esta vida perto da vida que virá e que é eterna? Nada. O que é este corpo finito perto do corpo "glorioso" e eterno que virá? Nada. E então o cristianismo incrementou esse niilismo com o platonismo que também prega que esse mundo dos sentidos em que estamos é imperfeito e que o mundo inteligível, o mundo das ideias (para o cristianismo, o mundo espiritual) é o mundo que mais importa. 


O cristianismo assaltou o platonismo e o plagiou de forma cruel para se sofisticar cada vez mais. E se o mundo posterior é o mais importante... essa vida aqui não merece tanta atenção e os instintos, as obras da carne, devem ser renunciadas. A vida é levada em banho maria em prol de um futuro incerto. Há um cheiro bem específico aqui: o medo de viver e de escolher por si mesmo! 


Mas para o homem forte, aquele que escolhe por si e cria seus próprios valores, Deus pode ser qualquer coisa, inclusive: nada! Que sejamos fortes para que em nós Deus e seus representantes não nos assaltem em nada, principalmente no amor à vida e na possibilidade de montarmos os nossos próprios valores. Sejam eles "bons", sejam "ruins". 


Sem mais: carrego em mim as marcas de Cristo; e essas marcas são inúteis e desnecessárias. Que os fiscais de Deus carreguem como camelos as normas do livro sagrado, mas não se oponham aos que preferem ser livres, verdadeiramente livres do peso do niilismo cristão em um Estado despretensiosamente laico.


-Gabriel Meiller

sábado, 1 de junho de 2024

O apagamento das divisórias e a burlagem do gosto pelo absoluto


Existem linhas... daquelas semelhantes às linhas imaginárias que formam coordenadas geográficas. Os trópicos de câncer, de capricórnio e a linha do equador sociais são os nossos costumes morais que norteiam o que somos enquanto sociedade. E as chamadas divisórias são as linhas de limite entre o que é nosso e o que é do outro; o aceitável e o inaceitável.


Somos uma construção refinada de muitas morais que foram aculturadas em nosso íntimo e que formaram linhas divisórias bem delineadas. Somos emoções complexas  que são resultado de diversos ensinos, crenças e vivências. A forma de amar,  ler e sentir o mundo de forma particular foi impressa nas profundezas de nossa psiquê e mesmo que posteriormente passemos por mudanças  que alterem radicalmente a nossa identidade, as camadas dos velhos eus ficarão sedimentadas em nós de forma permanente. 


"Tudo é disposto de forma que o pior gosto, o gosto do absoluto, seja cruelmente burlado e profanado até que o homem aprenda a colocar um pouco de arte em seus sentimentos..." 


O gosto do absoluto é o que nos faz criar divisórias não somente entre nós e o outro, mas entre nós e os nossos diversos eus antigos. Não somos um eu harmônico, mas uma somatória e uma amálgama de diversos eus. E quando aprendemos a colocar arte em nossos sentimentos, convivendo com nossas contradições, não opondo a verdade à mentira, o egoísmo ao altruísmo, a agressividade à passividade e o nosso bem ao nosso mal... então nós derrubamos essas divisórias artificiais que segmentam nossos eus e nos tornam pobres em sentimento e em humanidade. 


O apagamento dessas divisórias é um convite a vivenciar de forma plena a vida que em si é plural e complexa.


Hoje eu estava andando na praia e ouvindo música e então a nostalgia das músicas de infância/ adolescência emergiu. Antes de ter derrubado essa divisória eu nem sequer me atreveria a escutar  e cantar aquelas músicas. Eram músicas gospel da Oficina G3 e de um eu que hoje já não pensa pelas categorias metafísicas (isto é, acreditando num ser superior que criou o mundo e ama o ser humano). Mas aquele eu de décadas passadas ainda vive nos escombros das amálgamas da minha totalidade. Por esse motivo eu o convidei a ressurgir. Ouvi e cantei as músicas que representam as crenças que um dia eu já tive, sentindo a nostalgia e as implicações passadas daquele eu.  Ao fazer isso eu entendi que isso também é ser historiador: historiador da minha própria vida. 


As crenças metafísicas são um lado meu que não pode e nem deve ser apagado, mas rememorado e acolhido pelos demais eus. Essa é a beleza do fim das divisórias, da queda dos muros de berlim, do fim das oposições que criam o bem e o mal.  E nesse ato eu faço, assim, as pazes comigo mesmo e com o meu passado sem ter raiva do que fui e sendo feliz por quem sou hoje. Embora eu não me reconheça mais como teísta, crente ou religioso, entendo a força desse universo que me fez mais forte ao quase ter me matado. Pois o caos interno que cria uma estrela dançante, também forja verdadeiros diamantes e nuances internas que fazem da vida o que ela é: complexa e misteriosa. 


-Gabriel Meiller 

sexta-feira, 31 de maio de 2024

O animal doente: o homem teleológico


A teleologia é o hábito de dar finalidade às coisas. Poderíamos mencionar a frase "os fins justificam os meios" para isso. Existem diversos ramos na teleologia, isto é, no hábito de dar finalidade a algo. A finalidade do trabalho costuma ser pensada como: enobrecimento do caráter e a possibilidade de sustento aos que vivem no sistema capitalista; a finalidade da musculação é pensada como requisito para "colocar o shape" e melhorar a saúde física e mental. A finalidade da escola costuma ser pensada como a propiciação de condições básicas para criar um cidadão crítico e independente (risos). A finalidade da faculdade  costuma ser pensada como a formação e habilitação do estudante para exercer uma profissão (risos, novamente). 


E a finalidade da vida?  Quem ou o que irá se atrever a colocar uma finalidade a essa metadinâmica? 


Só podem ser as religiões e suas réguas morais e existenciais, é claro. Só podem ser os líderes religiosos atrevidos que são ingênuos o bastante para achar que sabem o que é a vida e o que devemos fazer dela (lágrimas).


"Vivemos para adorar e glorificar a Deus..." diria um protestante ou católico. 


"Vivemos para amenizar o sofrimento dos seres sencientes..." diria um budista. 


"Vivemos para fazer o bem e evoluir aqui nesta vida..." diria um espiritualista. 


E então os mestres da finalidade ganham o status de coachings sobre o sentido da vida. Estes são os verdadeiros mestres da finalidade, os homens teleológicos. E o excesso de sentidos e finalidades que damos à vida podem trazer exaustão, cobranças, medos e angústias. 


Mas... e se quisermos romper com algumas réguas morais normativas? E se nos portarmos como espíritos livres questionadores que desenvolvem sua própria finalidade? Se tentarmos, em alguma medida, cultivar um pouco do além-homem de Nietzsche? Seremos um cão que anda sozinho com a própria coleira na boca, atravessando as ruas da cidade. Nos primeiros momentos, viver sem a finalidade padrão pode nos trazer novos medos e inseguranças, isto é verdade. Mas depois dessa mudança a leveza e o sentimento de pertencimento a si mesmo não têm preço. É necessário, no entanto, vencer o medo do desconhecido e mergulhar (mesmo que de forma tímida) na moral que vai para além do bem e do mal. É necessário definir o seu próprio conceito de bem e mal.

 

E um dos benefícios ao não colocar metas e finalidades em tudo o tempo todo (ou melhor: colocar a sua própria meta e finalidade em tudo) se concretiza na sanidade mental. O relaxamento do córtex pré frontal ocorre quando não há uma finalidade constante nos assombrando e psicossomatizando nossas emoções em sintomas corporais como dores de cabeça, tensão muscular, queda da imunidade, dores de estômago, depressão, ansiedade, etc. 


Se queremos ser mestres da finalidade... que criemos a nossa própria finalidade por meio dos nossos próprios valores para que assim sejamos como o cão da imagem abaixo. 





-Gabriel Meiller

quarta-feira, 15 de maio de 2024

A metamorfose do camelo em "Assim Falou Zaratustra"

 

No primeiro discurso de Zaratustra, após ele perceber que sua missão não era falar às multidões , mas sim agir como um lobo desgarrado que afasta do rebanho as ovelhas oprimidas pela moral de rebanho, ele menciona sobre as três metamorfoses do espírito humano. Os arquétipos são em sequência: camelo; leão; e a criança! 


O discurso de Nietzsche nesse livro ficcional, por meio de sua personificação zaratustriana, tenta encarnar todos os seus principais conceitos já explanados anteriormente, principalmente o conceito do Übermensch (além-homem ou super-homem). E seu primeiro discurso retrata a trajetória na qual o espírito humano terá que  percorrer até alcançar esse ideal nietzschiano. O primeiro estágio a ser superado para que o Super-homem possa emergir é o estado pesado e moralista da humanidade: o camelo. 


O camelo é descrito como  a representação de um espírito forte pelo fato de suportar as pesadas cargas e ainda carregá-las com reverência. Que cargas são essas? São as tradições humanas, ideologias, dogmas e toda obrigação representada pelo imperativo categórico kantiano no qual Nietzsche se opunha severamente: o "tu deves!". O dever, a obrigação em demasia é um aspecto que sufoca o ser humano e o priva de chegar ao estágio criador por excelência. Quem é criativo? Quem não segue padrões a todo momento; é necessário ser transgressor para ser criador (papel que começa no leão e se realiza na criança), porém, o camelo não quer ser criador, e sim um imitador! 


O camelo pode ser representado pelos moralistas, pelos "responsáveis", pelos disciplinados e workaholics que amam o dever e o colocam acima da diversão e do descanso. "Descansa, militante!" diria Nietzsche nos dias atuais. Seja este um militante cristão, seja um militante de esquerda que carrega em seus ombros (como o camelo) o peso do mundo e daqueles que sofreram as injustiças. 


Jesus, o sofredor, é o camelo por excelência. Ele carregou, na mitologia cristã, os pecados de todo o mundo diante de seu pai celeste. Mas, se Jesus era Deus, segundo essa mitologia, a diferença deste personagem para nós... é insuperável. É por esse motivo que a compaixão, um forte ideal cristão, é um desmonte à vontade de viver. A compaixão se ocupa da miséria do outro e o trata como um incapaz. O excesso de compaixão e piedade, somados à caridade compulsória... são venenos que a cultura cristã (aspirante à miséria) nos relega.


O camelo, de outras formas, pode estar em muitas intenções e sistemas humanos. O camelo está no árduo esforço que um funcionário faz para que a sua empresa enriqueça e os filhos de seu patrão gozem de férias na Disney. O camelo está presente no executivo que sai de casa para fazer dinheiro e ganhar o mundo, mas adoece de tanto trabalhar e deixa sua família ao desprezo. 


O camelo também é o moralista cristão que se orgulha em carregar pesos pesados, como o sacrifício e a mutilação de si ao renunciar o mundo real em troca de um suposto mundo vindouro. Ele não fuma, não bebe, não transa antes do casamento, não ouve outros estilos musicais a não ser o gospel... e ele ama se sentir honrado por este peso que o esmaga. Ele ainda pede mais para se sentir digno o suficiente diante de todos. 


O camelo é o frequentador religioso das academias que submete seu corpo a uma maratona incansável para ser admirado por sua estética e músculos; é o cientista e o filósofo que se orgulha em se encher da "erva do conhecimento" e ser reconhecido como sábio e intelectual. O camelo é nosso orgulho clamando por reconhecimento através do sadomazoquismo desenfreado que nos assola. Ele pode ser o superego freudiano que em excesso nos quebra existencialmente ao suprimir toda nossa criatividade e vontade de viver. 


Esta é a nossa dimensão interna chamada: camelo! 


-Gabriel Meiller