Havia um tempo em que o homem gostava de filosofar e que a filosofia era sinônimo de refinamento do senso comum. Haviam tempos em que o refinamento intelectual de alguns homens significava tornar as premissas bíblicas mais palatáveis à razão por meio de erudição teleológica. A filosofia, então, passou a ser associada a uma escola dominical de rebentos descolados demais para irem aos cultos, mas corajosos de menos para questionar as premissas metafísicas fundamentais daquela sociedade, visto que questionar aquelas premissas significava questionar as suas próprias origens.
Vocês conhecem algum conhecido que é sensato demais para não seguir a risca o fundamentalismo cristão, mas covarde demais para desconstruir a moral cristã em seus fundamentos? Ele mantém a crença de que Deus criou o mundo e que ama a humanidade; acredita que Jesus e outros líderes foram importantes no progresso moral da humanidade... mas não assume a crença de forma integral. Ele não se priva do sexo antes do casamento, ele fuma, bebe e vai em festas... esse conhecido é o exemplo de um homem covarde! Digo mais e de forma vernácula: ele(a) é um cuzão(cuzona). Não fede, nem cheira; nem quente, nem frio... vomitável!
Pois bem... no século XIX vários desses conhecidos filósofos europeus estavam fazendo da Europa um lugar que cultuava o adiamento da morte de Deus. Eles gostavam de acreditar nas doces consolações da religião cristã, ou de pelo menos sustentar algum teísmo aceitável; os filósofos construiam seus argumentos com base no vontade de acreditar em algo que os consolasse: assim fez Kant e os idealistas alemães. Era uma filosofia como reafirmação e reciclagem do que estava obsoleto; uma reforma da metafísica por meio do culto ao não falseável como sinal da existência da verdade eterna! "Ausência de evidência não é evidência de ausência!" repetiam frenéticamente os desesperados por sentido. Oh, coitados!
Então um filólogo surgiu com a árdua tarefa de ressignificar o sentido da palavra "filosofia" aos demais filósofos. A filologia foi de especial utilidade para a filosofia; o estudo dos rastros da mentalidade humana expressa nas palavras é uma ferramenta imprescindível ao filósofo. As palavras são fontes históricas imateriais, mais do que documentos oficiais que afirmam dizer supostas verdades por meio de um idioma. Uma história das mentalidades da humanidade transita pelos significados que ela dá ao mundo e a si mesma por meio das palavras e de suas modificações nos inúmeros idiomas. É por isso que um filólogo do século XIX teve vocação para a filosofia mais do que os próprios filósofos: ele aprendeu a rastrear o nascimento das morais, ideias e da psiquê humana.
Se Freud desenvolveu a psicanálise (a análise por meio da fala/discurso) foi porque antes dele veio um analista por excelência: o analista do discurso coletivo! Nietzsche analisava as morais das sociedades e dissecava a origem das palavras de muitos idiomas. Em Genealogia da Moral e Além do bem e do Mal é notável como o dissecamento etimológico o permite concluir a diferença da moral dos nobres e moral dos escravos. O bom e o ruim; o bom e o mau; são máximas de sua análise investiga a moral por trás de cada classe social. Os nobres consideravam como "bom" aquilo que eles faziam e honravam: a tradição, o antigo, o igual; "bom" era tudo aquilo que era feito e produzido por eles mesmos. Eles, os ativos e criadores de valores, eram a referência do bom, ou seja, do que era nobre! Já o "ruim" era tudo o que não era igual a eles, isto é, o desprezível, o escravo, o forasteiro, o "não nobre".
Essa lógica se inverte quando os escravos moralizavam o mundo: "mau" é tudo o que é nobre, tudo o que é bom na visão do nobre, isto é: tudo o que é agressivo, tudo o que representa riqueza, esbanjamento, perigo e domínio. Apenas o que é inofensivo, pacífico, misericordioso é considerado bom para a moral dos escravos, isto é, daqueles que estão em opressão. Essa observação nietzschiana em uma época de filósofos dogmáticos foi um grande achado: entender que as morais e o conceito de bem e mal são criações humanas de inúmeras classes e sociedades. De que o bem absoluto não existe e de que a Bíblia também é uma construção humana, demasiada humana e produto de uma sociedade específica: uma sociedade de cativos que viveram como escravos em muitos exílios e que também pensavam pela moral dos escravos. O Deus judaico-cristão, inevitavelmente, era uma construção e projeção de um povo aflito por exílios e domínios de outros povos. Por isso, o Deus cristão foi idealizado com todas as características que o povo judeu escravizado desejava que os demais povos tivessem demonstrado para com eles: um Deus misericordioso, bondoso, complacente... um democrata entre os deuses!
Esta é a filosofia de um filólogo: refinada e sutil para rastrear a evolução das morais humanas ao decorrer do tempo. O olhar típico de um historiador, isto é, daquele que que estuda a criação das morais, é cético à moral eterna pelo fato de que possui consciência de que tudo nasce, se desenvolve e um dia morre. A premissa de que algo sempre existiu e sempre existirá é abraçada pelos "filósofos" da metafísica, pelos amantes do que não é falseável.
-Gabriel Meiller
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