segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Examine-se o homem a si mesmo, e então coma do pão e beba do cálice

 

 






Existem pessoas que na vida vão a esbarrar aqui e acolá; tateiam em busca de descobertas sobre o que há de significante e aprazível a deleitar-se. Alguns terminam tal caminhada existencial revestidos de uma carcaça pobre, resultante de nadismos e automatismos que foram a viver em tal monótono tempo de vida. Que foram a fazer estes? O padrão; nasceram, cresceram, se preocuparam com os aspectos basilares de suas épocas, como se aliar a um grupo social, emprego, corridas exaustivas atrás de promoções e especializações deste emprego; casar e ter filhos; ou idas frequentes em baladas e eventos semanais; o consumo de séries e filmes; a aposentadoria, a dedicação em cuidar dos netos e em arrumar a casa... e então aquele velho sentimento de um carro velho na garagem! Uma peça que já cumpriu seu tempo e sua função aqui na Terra e resta-lhe agora o túmulo e o fim da consciência.  


É isto? Isto é vida? Viver ou existir? Por deveras medíocre foi tal vida estapafúrdia, alienada no fluxo do famoso "vá vivendo (vá a viver)  vá seguindo (vá a seguir), pois um dia a felicidade chega!" O anestesiamento e o comodismo enterraram tal indivíduo antes do devido tempo e dentro deste havia somente um sepulcro caiado; um engenhoso Frankeinstein. 


Óh, Sísifo! Condenado a empurrar tal pedra estafante até o mais alto cúme para que ela role novamente! 


Que fazer? "A necessidade aguça o engenho..." como diriam meus colegas lusitanos! E então um de seus mais sublimes poetas, exaltado pelo ufanismo lusitano, Fernando Pessoa, nos diz: 


"Não importa se a estação do ano muda... Se o século vira, se o milênio é outro, se a idade aumenta... Conserva a vontade de viver, não se chega a parte alguma sem ela." 


E então o Frankeinstein acorda de seu mais profundo sono; e aqueles sábios que ouvem a voz da revolta contra o absurdo e abrem a porta de suas almas, são revestidos da glória do autosentido da vida. 


E então ela vai a encontrar (encontrando), esta vagante alma, o que a energiza; o que a dá sentido a ponto de cumprir-se a profecia do Eterno retorno do confesso amante da vida. 


Seria o hedonismo para alguns a libertação do absurdo? Uma vida de incansável estimulação dos prazeres? Que assim examine cada um em seu coração e tome deste cálice! 


Seria a tremenda privação e dedicação assídua a alguma causa religiosa ou quase religiosa (como demonstrou o marxismo/comunismo, incumbido de libertar os escravos do capital e guiá-los à terra prometida da igualdade? Ou o fetichismo da meritocracia e da autoregulação do mercado que os liberais econômicos sonharam ?) Que assim examinem em seus corações os devotos de cada causa religiosa, ou semirreligiosa... e bebam desse cálice! 


Seria a profunda revolta niilista (seja qual for o sentido do niilismo), principalmente o niilismo de negar que qualquer verdade possa ser alcançada?


Deste cálice assim beba, tal ser vivente!


Seria a tentativa incansável, por meio da filosofia racionalista, da tão sonhada busca da Verdade? Verdades acessíveis integralmente à faculdade da razão? Arre... já ouço Friedrich Nietzsche revirando-se em seu túmulo! Embora este jogo de brincar de atingir a onisciência seja seduzente aos amantes da filosofia. 

Que também, estes, bebam de seu cálice! 


Seria, então, a tentativa de viver o ideal nietzschiano? De não adotar nenhum aparente ídolo de nenhuma espécie? APARENTE, pois o próprio Nietzsche ergueu seus altares aos gregos e sua cultura suprema. Viver a vida de forma estética e com o mais profundo gosto, abraçando o sofrimento e se fortalecendo deste? 


Quem assim pensa e compactua, que erga seu cálice e o beba com gosto! O cálice de Dionísio! 


 

Portanto, caros irmãos e companheiros de jugo existencial, qual for a decisão e percurso existencial de todos os espíritos filhos de seu tempo... que seja esta decisão examinada em tais corações e, no final, beba cada um de seu glorioso cálice! Para que no final, ao acabar a ceia da vida, a morte possa consumar este momento que deva ser eterno, enquanto dura! 


E assim a Morte pergunta ao peregrino caminhante: "Valeu a pena?" E ele dirá: "tudo vale a pena se a alma não é pequena!" Mesmo que as embarcações tenham naufragado e os filhos chorado; mesmo que as mães tenham em vão rezado e as noivas tenham ficado por casar! Pois os portugueses estavam dispostos a navegar o mar do desconhecido... e roubar o ouro e os recursos destas terras aqui de onde falo! A terem cruzado o bravo Atlântico com seus navios negreiros, cheios de escravizados africanos, pelos quais as tribos africanas rivais se vendiam ao aventureiro lusitano em troca de escambos. Mesmo assim valeu-lhes a pena, pois mesmo o jugo do capricho e do crime (que seja este punido pela parcial justiça dos homens) faz parte da vocação da vida!  Sim, os erros! Fazem eles parte da vocação de uma vida mais que vivida! 


-Gabriel Meiller

Esvaziamento dos sentidos existenciais modernos

 



Em toda mesa de cabeceira de um ser humano pós-moderno existem catálogos de manuais sobre: como se deve viver, o que almejar, como se comportar e o que esperar da vida. Em um primeiro momento o serzinho ingênuo e iludido se felizarda com tal engenhosidade da contemporaneidade e entra em um descanso sabático existencial. 


Dois empregos? Uma vida de hobbies, baladas regadas a alterações de consciência, carro importado ou nacional? Férias na Disney? Formação em direito, engenharia ou medicina? Viver de música e da arte? 


O ser humano nasceu para adorar a Deus ou Deuses? O ser humano reencarna em outras existências? O ser humano é um sopro que logo se esvai e só resta a eterna escuridão e o fim da consciência?


Ser liberal ou conservador? Usar drogas ou viver pelas leis e regras morais? Ficar com vários ou namorar? Seguir alguma religião ou viver sem elas?


Para todas estas e outras perguntas existem mostruários de roupas existenciais, pensamentos e modos de ser. Diante destes mostruários cada mortal veste uma roupa e logo depois descarta; outros se identificam e não mais as trocam. 


Mas atenção, muita atenção: o vendedor é um manipulador pertinente! Ele sugere peças de roupas por meio de artifícios engenhosos. As propagandas na mídia, os grupos sociais fechados, os influencers do youtube, a grande mídia... são o vendedor desenfreado. Mas acima de tudo: o surto coletivo da sociedade da positividade tóxica. "Produza, seja, faça, viva, escolha, exista!" De onde vem tudo isso??? Maldito Dasman! Maldita normatização!  


E neste discurso a megalomania do homem da produtividade se torna um imperativo mais que categórico que escraviza o portador do manual na mesa de cabeceira.


"Como assim você não sabe o que quer? Tenho mil e uma opções para que você seja... ande logo! Se vista e diga o que achou!" 


E assim o ser humano sai do mostruário pressionado, insatisfeito e em dúvida sobre o que escolheu! "Será que essa peça me serve mesmo? É a mais adequada?" 


E então o vazio bate à porta... cresce de maneira avassaladora; as frustrações vêem à tona; o sentimento de confusão e de que não se sabe o que quer é crescente e profundo! Quem somos? Somos por que quisemos ou por que fomos coergidos a ser? 


A construção do sentido da vida é pessoal e subjetiva, mesmo que em meio à exposição ao objetivo e ao coletivo-social. O ser que escolhe abandonar o manual da mesa de cabeceira, expulsar o vendedor apressado e manipulador, e averiguar, vestir, trocar, desfilar e usar o mostruário um a um... sai com a certeza (mesmo que ilusória) de que escolheu seus melhores looks. 


Ah... a segurança de que a bendita "escolha certa" foi feita! Nada paga o preço desta sensação aconchegante; nada rouba a felicidade de uma vida bem vivida e saboreada pelos sentidos.  


-Gabriel Meiller

O Gênesis científico


 



No princípio a Terra era sem forma e vazia... até que pela ação do tempo biológico e de bilhares de anos, a vida surgiu no mais profundo abismo: o abismo do oceano. É quase certo que não havia um ente que pairava sob a face das águas, tendo em vista que o famoso "haja luz" e "o Espírito de Deus pairava sob a face das águas..." é uma linguagem mitológica muito bem formulada na antiguidade sob a finalidade de explicar em uma linguagem infantil (pois a antiguidade é o jardim de infância da humanidade) a origem do mundo e da vida na Terra. 


A mitologia hebraica, formidável em riqueza de detalhes visto que foi aculturada da tradição de diversos outros povos, a saber: egípcios e babilônios primordialmente... é um dos trunfos da linguagem mítica e simbólica. 


Embora o mítico seja primordial para a base e a continuação da evolução do pensamento humano, voltemos para o ponto central da narrativa: a vida nasceu das profundezas do Oceano. E variando por inúmeros microorganismos que se refinaram e se desenvolveram de forma pluricelular... um descendente que saiu de um ramo de uma espécie ancestral aquática em comum, aquele que migrou da água para a Terra, deu início à jornada terrestre das espécies. 


Das variadas espécies terrestres, entre os inúmeros mamíferos que percorriam o caminho sinuoso que levou até os primatas e ancestrais humanos... adveio o homo sapiens. Este é, como diria Carl Sagan  (este cultivador do arquétipo apolíneo e da racionalidade platônica), a parte do universo que resolveu conhecer a si mesmo. O homem é o universo que se autoconhece! 


"Vida inteligente? Prazer, sou o homo sapiens!"  Demonstrou esta espécie tão contraditória e absurda; sim, somos inteligentes por inúmeros feitos incontáveis espalhados pela história. Entretanto, ainda permanecemos burros por cairmos nos encantos da ganância coletiva da espécie. Ora... se a evolução traumatizou o homo sapiens a sempre buscar o acúmulo como uma tentativa de se prevenir contra a escassez e o inesperado... esta foi a sua grande ironia. 


Mas se a ganância e o fetiche pelo acúmulo desmedido possui fortes raízes na construção social da natureza do homo sapiens... então esta é a espécie mais digna de investigações que a história já sonhou. Afinal, os predadores que são o topo da cadeia alimentar estão exaurindo o planeta e as suas demais espécies através da ganância e deste instinto caprichoso. 


Que mais dizer? a mãe -Terra que os gerou se incumbirá de vomitá-los como um ninho de ratos dispersado e esmagado pelo pneu de uma Picape 4x4 veloz. A natureza, ou melhor, o planeta Terra se autorecicla através de macroprocessos. E as impurezas são removidas e jogadas para longe; assim fará a fúria da mãe-Terra, quando vingar seus filhos irracionais e sua vida que foi devorada pelos animais fantásticos, aqueles mestres da finalidade arrastados pela ganância! 


Naquele dia, revela a sagrada mãe-Terra, vocês colherão de forma fatal e irreparável as suas ações imperialistas. O dia do julgamento revelará o talhamento do animal fantástico e sua pior sina. As catástrofes serão o expurgo e os sinais do começo do fim. 


-Gabriel Meiller

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

O que a tragédia grega e sua interpretação nietzschiana nos ensina de forma prática!






Não é novidade ou assombro para nenhum de nossos neófitos em Nietzsche, talvez para alguns ainda em fase deveras iniciática, de que o filósofo alemão admirava e extraia sua filosofia dos antigos gregos. Não somente dos antigos gregos, mas da antiga tragédia grega do período clássico. Ésquilo e Sófocles foram as principais inspirações na qual Friedrich Nietzsche se inspirou e contemplou o tão comentado Nascimento da Tragédia grega, que se transformou no nome de seu primeiro trunfo: O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. 


A quem Nietzsche contemplava nestas tragédias e mitologias gregas? Os deuses gregos, bem como os heróis trágicos e os seres místicos. 


Sob a perspectiva de que o mundo helênico se contemplava, como em um espelho, através dos seus mitos e dos deuses olímpicos: orgulhosos, caprichosos, guerreiros, vingativos, sábios, impetuosos, belos, exóticos, fortes, sensuais, divertidos e felizes; tristes e sérios, enfim: deuses antropomórficos! Sob esta perspectiva os gregos se baseavam e mostravam quem eram: um povo guerreiro e engenhoso, cultuador da vida e da harmonia estética, equilibrada pelos pressupostos dionisíacos e apolíneos.


Ao olhar para este suprassumo da Vontade, o filósofo reprimido e aprisionado em sua juventude pelos dogmas do cristianismo e por uma vida abarcada pela rejeição da figura materna e pela ausência paterna, encontra um verdadeiro refúgio no oásis da mentalidade greco-romana e guerreira em essência. 


Por que o adjetivo guerreiro é importante para Nietzsche e a compreensão de sua filosofia? Porque o guerreiro é o arquétipo que lhe coube em sua vida trágica, semelhante à tragédia grega. 


O guerreiro é quem lida com o sofrimento existencial, isto é: a divergência entre as expectativas de que determinadas situações acontecessem de uma determinada forma e a realidade que ocorre de uma forma totalmente diferente da expectada. 


Na tragédia grega o final feliz é abolido; os heróis são "heróis trágicos" pois o destino, isto é, os acontecimentos que transcendem o controle dos personagens, é carrasco e supremo sobre a vida deles. O final ocorre sempre de forma trágica, isto é, contra a vontade dos personagens da tragédia grega. 


Existe alguma possível semelhança com a vida pessoal do filósofo germânico? Ou melhor, com as nossas vidas? Claramente. Pois a tragédia não discrimina nenhum ente sofredor por sua etnia, classe social ou nível intelectual. 


Entretanto, apesar da tragédia ser um tema em que nos identificamos em muitos momentos da vida, ela possui um caráter mister: o aspecto redentor! 


Redenção? O que há de redentor na tragédia e no escárnio da vida humana em bancarrota? Para o falido que sofre o imputamento do inesperado e do trágico, nada há de redentor. Mas para o observador atento, independente das épocas, a tragédia é um ensinamento de amor fati, ou seja, amor ao destino. 


Como o personagem Jó, porventura, disse por meio dos hebraicos após sofrer uma série de tragédias e ser impelido por sua mulher a amaldiçoar a divindade: 


" 'Você fala como uma insensata. Aceitaremos o bem dado por Deus, e não o mal?'  Em tudo isso Jó não pecou com os lábios. "


Em suma, a lição das tragédias e relatos sobre o trágico mostram que da vida e do destino devemos abraçar tanto o sofrimento, quanto o deleite. O bom e o ruim; o aparentemente justo e o injusto, pois o destino e a fatalidade são senhores sobre nossa vontade. E quando abraçamos o sofrimento inevitável e este não nos mata, certamente somos fortalecidos. Recalcitrar aos grilhões do sofrimento inevitável significa gastar energia em vão e perder a oportunidade de viver a vida de forma plena, ou seja: de forma humana, demasiada humana. Navegando para além da dualidade entre o bem e o mal, entre o bom e o ruim. 


-Gabriel Meiller

terça-feira, 28 de setembro de 2021

O desejo em Nietzsche e Schopenhauer




   Toda filosofia de algum pensador é norteada pelo princípio de espaço-tempo, isto é, possui um contexto específico em que ela surge. "Desta lei jamais escaparás", acrescentou a História. Sob todo o invólucro de pensador divinizado, entronizado em sua filosofia, sempre há o lado humano, demasiado humano; analisável e passível de relativização deste pensador.


Alguns, é verdade, estão mais distantes e cobertos pela falta de documentação de sua época, de sua psiquê, tornando-se vultos históricos, obscurecidos pelos relatos dos relatos dos relatos de quem eles eram ou deixaram de ser. Sócrates, Pitágoras, Homero, Platão, Jesus, Buda... são exemplos de vultos que foram preenchidos por arquetipias, anseios humanos do que eles deveriam ser. Essa fábrica de heróis, de ídolos, começa quando o suposto herói não pode ser tocado, nem conhecido concretamente. 


Na caso de Schopenhauer e Nietzsche, estes espíritos são mais palpáveis, delineados, conhecidos. Suas ações, vidas, traumas, derrotas, abrangentes escritas, etc. Através desta máxima de que estão mais próximos de nós e são psiquês passíveis e possíveis de análise e conhecimento... podemos afirmar que a filosofia destes autores é uma síntese de alguns determinantes: contexto histórico; criação e experiências pessoais/subjetivas; e inspirações teóricas e filosóficas destes autores. 


Schopenhauer é conhecido pela sua máxima de que o desejo é equivalente ao sofrimento, sendo esta máxima retirada e absorvida do budismo. Mais do que isso: o desejo é o ente metafísico que governa todas as coisas de forma voraz, desgovernada, intransigente. O mundo schopenhaueriano não é ordenado, racional, nem linear; mas a expressão da loucura do desejo e do acaso. Nunca, na história da filosofia, o pessimismo filosófico foi tão bem sucedido quanto em Schopenhauer. Um sistema metafísico ateu foi o que Schopenhauer deu ao mundo, através de suas influências filosóficas baseadas em Kant e na antiga filosofia indiana/búdica. Sua vida depressiva, os impactos com a miséria humana em suas viagens, a morte de seu pai e a falta de sintonia com sua família fez de Schopenhauer o que ele se tornou. 


Existem certas condições na existência que aguçam os sentidos dos filósofos e uma delas é o sofrimento. A condição em que Schopenhauer foi colocado na existência deu a ele uma visão ampla e aguçada que influenciou o outro filósofo: Friedrich Nietzsche. 


O mestre do martelo um dia foi um devoto cristão em tenra idade; seus avós e seu pai foram pastores protestantes.  Ah, o ethos protestante esmagador! O protestantismo foi um catolicismo astuto e racionalista. E as seduções do ethos protestante passaram diante dos olhos de Friedrich Nietzsche. Afinal, era uma tradição familiar desde seu bisavô a formação de pastores e homens protestantes. Como escaparia Friedrich deste destino ascético que o aguardava? Sua primeira perda ocorreu com a morte de seu pai aos seus cinco anos de idade. A figura paterna... a responsável pela proteção, consolo e segurança se foi e este órfão aprendeu desde cedo o que evidenciaria em sua filosofia: o caminhar sem muletas! Afinal, desde criança este jovem Nietzsche aprendeu a caminhar por si mesmo e por suas percepções de mundo. Seria necessário que se cumprisse a palavra que o destino proferiu sobre ele: "este será o Übermensch!"


Sua forma de honrar o falecido pai foi decidir seguir o seu caminho e através disso o jovem Nietzsche entrou para o Ginásio de Naumburgo com dez anos e decidiu se dedicar a estudar a Bíblia. Quanto mais se aprofundava, mais questionava o cristianismo e suas aberrações. Aquilo que o esmagou e quase o matou... o fez mais forte! E que força manifestou o jovem Nietzsche ao ir para a Guerra Franco-Prussiana e ao beber da cultura grega os pressupostos de que a vida é uma constante luta entre o fraco e o forte, que manifesta sua vontade de potência e impera sob os fracos. Em Nietzsche o desejo é levado ao êxito, à realização e ao capricho dionisíaco. O indivíduo é instinto, potência, realização desejosa e tudo o que aflora de dentro de si. Pecado seria não ouvir a si mesmo e aos impulsos da natureza humana; o mais grave pecado seria se alienar do mundo do aqui e agora em detrimento de "verdades eternas", de ideais que veneram o nada: nihil. E o niilismo foi invertido em Nietzsche, e passou a significar toda metafísica que condena a única vida: a vida terrena. 


Ao ser esmagado pelo cristianismo, Nietzsche se fortalece na certeza de que tudo o que importa é colocar a vontade de potência no centro de tudo. Um profundo egotismo e uma repulsa aos imperativos categóricos, bem como o culto ao indivíduo é o pensamento central de Nietzsche. Os ídolos? Todos passam pelo martelo; cristianismo, comunismo, democracia, budismo e outras religiões... todos para as favas. Esses ideais de ressentidos, do populacho que precisa se definir a partir dos fortes e condená-los por dominarem sobre a Terra... são todos décadence. A compaixão é loucura, pois promove a conservação dessa decadência, do fraco. 


O insucesso com as mulheres e rejeição vinda delas, bem como o convívio desagradável com a mãe e irmã de Nietzsche, deu a ele o ar misógino que tanto faltava para a cereja do bolo. O que dizer então de forma geral da filosofia de Nietzsche? Uma filosofia de antítese. Um combate mortal e incansável contra o cristianismo e contra os ideais platônicos e metafísicos. Eis o que fez com que Nietzsche se tornasse o "filósofo de adolescência", isto é: lido por adolescentes antes de se tornarem adultos. Seria possível que esses jovens, ao crescerem, não notassem o princípio de realidade de Freud? De que nem sempre o além-homem, a vida de surfe no acaso da existência, a vida estética como obra de arte e de prazer como finalidade máxima, são possíveis de realização? 


A utopia nietzschiana é estilhaçada quando o discípulo de nietzsche dá de cara com a realidade e enxerga que nem sempre o desejo traz satisfação plena e de que nem sempre o além-homem supera a si mesmo e anda sem as muletas existenciais. Desta forma, percebemos que tanto Nietzsche, quanto Schopenhauer enxergam a importância do desejo e sua devastadora influência sobre o mundo. Porém, a forma que cada um lida com essa realidade se manifesta de formas opostas entre eles. 

-Gabriel Meiller

sábado, 11 de setembro de 2021

Os "blá blá blás" não ecológicos

 



Estou cansado dos "blá blá blás"

Do mais do mesmo sobre os "blá blá blás".


Estou cansado das picuínhas do inutilismo; do sermão do padre do nada. 

Do proclamador da loucura da normatividade. 


Estou cansado do militante querendo moldar o mundo à sua imagem e semelhança.


Do irritante reacionário que quer conservar o patriarcado e a loucura da escravidão pós-moderna.


Estou cansado do LGBTQI+..... que quer que todos o chamem pelo pronome que ele tirou do.... (censura) sem ter nenhum senso de que o tio João e a dona Maria não sabem nem o que é o LGBTQI+...


Estou cansado do fiscal do politicamente correto; bem como do tiozão que fala tudo na cara sem pestanejar. Chega de marxismo, de neoliberalismo, de cristianismo, de ateísmo, de todos os "ísmos" existentes que vão apenas ficar inutilmente nos ísmos. 


Estou farto de todo crítico que tem hobby em criticar por criticar, sem nada a acrescentar. Dos que usam a Bíblia para tentar me mudar; ou a ciência para tentar me delimitar. 


Todos para as favas, para a Cochinchina; para o cabaré; para onde os deixem em paz, sem precisar ter motivos para usarem todo o seu "Blá blá blá".


Estou exausto de todo este "blá, blá, blá..." pois enquanto ele continua: o clima continua a piorar, a natureza a se prejudicar... e a Terra a adoecer. Com todo esse "blá, blá, blá..." até mesmo o "mais lúcido e filosófico blá, blá, blá..." em breve não haverá mais "blá, blá, blá..." pois a Terra irá nos extirpar, nos vomitar, pelo clima que está prestes a piorar. 


Se todo proselitismo cristão; se toda chatisse e militância ateia; se todos os demais "blá, blá, blás" fossem dedicados a preservar o meio ambiente, o ecossistema, a origem de todas as espécies... talvez, mas só talvez, o mundo fosse um lugar melhor e menos chato. 


-Gabriel Meiller

domingo, 5 de setembro de 2021

O zumbido zombeteiro deveras absurdo de uma mente agnóstica

  


" É... como o mundo é complicado e complexo. Cacete, hein... pior que se fosse só o mundo que fosse assim, menos difícil seria. Mas ainda tem outros mundos no próprio mundo... aff! Os mundos interiores de cada um, de cada mente que mente a si mesma. 


Tanta religião, tantas guerras, pobreza e miséria; tantos executivos pobres... pobres de alma e ricos em matéria; adornados pela religião do amor ao próximo, mas vazios do amor e do próximo. 


Se bem que.... o que seria o amor e quem seria meu próximo? Devo aceitar o conceito de amor cristão e o conceito de próximo também deveras cristão? Hum... sei lá! Depende... de cada contexto, acho eu. 


Mas essas pessoas que só pensam em si... elas devem ser muito sem Deus no cora... pera! Deus no coração? Mas deus não existe! É uma invenção da mente humana pela necessidade de proteção, afeto, conforto, estabilidade... é a projeção paterna na metafísica. Acho que deve ser isso mesmo. Afinal, Freud disse isso, não é mesmo? 


É... é isso mesmo! Ou não? Não! Peraí! De que deus Freud falava? Todos? Do judaico cristão? Acho que dá na mesma, afinal, todo ateu coloca tudo no mesmo saco. Mas peraí... o que é deus? É força criadora, além do plano físico e originador desse plano físico? É algo, alguém, ou nenhuma dessas duas categorias? 


Puts... assunto confuso pra burro... pra burro não é, né? Afinal, ninguém que fosse burro ou desinteressado pensaria consigo mesmo dessa forma. Mas o que não entendo é sobre o que é ser ateu; alguém que não acredita em nenhum dos deuses e no Deus cristão, ou alguém que também não acredita em nada além do material? É possível ser ateu de uma Força criadora? Uma Força criadora diferente das divindades antropomorfizadas e que atribuíram nas divindades as emoções e sentimentos deveras humanos? Ira, julgamento, amor, bondade, condenação, destino... etc? 


Agora fica mais difícil rotular e diferenciar um  ateu... ou melhor: ateus de ateus! Afinal, qual a garantia que temos de que realmente o senhor Freud acertou na loteria cósmica? Se acertou, acertou no deus cristão antropomorfizado, corrompido pela cultura cristã eurocêntrica e judaico primitiva. Pois é possível condenar o conceito humano da Força criadora e não a Força criadora inumana e amoral? Talvez...


Eita... isso é uma forma teísta sofisticada de se pensar? Não... mas não sou teísta. Nem sei se cabe no teísmo essa Força criadora; se caber, também não sei se acredito nisso.  Quais as evidências de algo metafísico... ou não evidências? Difícil! Talvez eu seja louco por pensar assim, tenha ultrapassado os limites da sanidade.


Mas... quem disse isso? Ah, acho que o meu pai evangélico; ou aquele ateu que disse que estou andando à deriva, sem um rumo. Ué... mas... mas... peraí! Por que pensar dessa forma é andar à deriva? Quem estipulou que devo seguir um lado? O que é lado? O que estou seguindo não é considerado um lado? Por quem? Pois pra mim é um lado, sim! Ah... talvez seja aquela coisa lá, né? A tal da normatividade. Esses que me disseram que devo seguir um lado estão seguindo a tal da normatividade. Deve ser isso... coitados! 


Acho que eles devem pensar que sou indeciso com essa tal coisa de visão de mundo. Mas eu, sendo agnóstico, sou isso mesmo? Ou eles é que querem que eu adote um 'lado'? Pois eles devem pensar que se eu não adotei um desses lados, talvez eles possam estar equivocados nas visões deles... e reconstruir a definição e as certezas deles que seriam destruídas... seria horrível para eles. Coitados! Tudo bem, melhor deixar isso para lá, não vão me entender. Aliás, essa coisa toda de discriminar os supostos 'isentões' não é nada novo. 


Na questão sexual os mestres da normatividade questionam e discriminam os bissexuais. Pensam: 'Eles são indecisos, com essa história de amarem homem e mulher ao mesmo tempo. Eles precisam escolher um lado, ou um, ou outra!'  E acham que é irreconciliável essa condição humana; afinal, será mesmo? Mas muitos desses não professam em seus livros que 'tudo é possível ao que crê'? Ora, bolas! Estão querendo ser os mestres da normatividade mesmo! Que coisa chata a arrogância humana! Presente em todos, até em mim. É o que dizem os mestres da normatividade, pelo menos. Mas sei que em mim também há a arrogância; afinal eu sou humano, demasiado humano. 


E o que dizer dos mestres da normatividade que repudiam o ato de querer as duas coisas além da sexualidade? Misturar o salgado e o doce; mergulhar o pão francês no café com leite? Irão dizer, esses mestres da normatividade, que isso é coisa de louco. Que é resultado de uma alma que quer tudo e não quer nada! Arre... não me deixam em paz nem em meus gostos alimentares!


E gostos políticos então? Os da direita me condenam, e os da esquerda também. Não posso eu ser um social democrata? Não posso discordar da cartilha de São Marx e das doutrinações de Adam Smith? Posso... e devo! Afinal... tenho cérebro, tenho personalidade. 


Mas e o que dizer das teleologias? O teísta pensa que o mundo foi feito por Deus ou Deuses para um propósito. Há no final da insignificante vida humana um destino? Céu e inferno? A reencarnação? O renascimento? O fim de tudo e da matéria? Afinal, outra visão teleológica  quase inexplorada, é a tal da visão ateia. 


Ah... esses ateus! Afirmam dogmaticamente o seguinte: deus, e não só ele, mas toda a metafísica, é uma criação da mente humana pois a realidade é fria, difícil de se tragar; a vida é o que é, e temos que aceitá-la sem mitos. Afinal são muletas humanas para suportar a realidade. 


'É mesmo?' Penso em tom zombeteiro; e se não for isso? E se invertermos esse raciocínio? Se formos transvalorá-lo? A transvaloração dos valores ateus! O tiro que sai pela culatra! 


E se existir a tal da metafísica? Se existir a Força criadora desantropomorfizada? Ou se existirem ao menos outras vidas? E os ateus, com receio de aceitar estas premissas por causa do que a religião fez com elas, negam elas. Pois a interpretação  e aplicação humana do metafísico na antiguidade era pífia, ruim, agressiva, manipuladora e redutora. E os ateus podem estar questionando essa interpretação, achando serem elas a verdade, ou melhor, a mentira. E são! Mas são pela má interpretação humana da existente metafísica? Ou da inexistência dela mesma? Esse é o ponto... do qual eu não faço a mínima ideia!


Por que a realidade tem que ser fria ou alegre? Porque não as duas coisas? Por que o bom tem que ser mitificado? Ao menos nem uma vez iremos nos dar bem? Ao menos uma vez essa estranha história de que depois dessa vida as coisas vão melhorar não pode ser verdade? Talvez... quem sabe... sei lá! Talvez seja, talvez não seja. 


Mas independente dessa discussão toda... não acho que ateu e teísta sejam inteligentes ou burros! Crença não define  nada disso. Mas a aplicação dessas crenças! Eu acho... talvez! Pois existem ateus burros e cristãos burros! E ateus inteligentes e cristãos inteligentes! Mas e os agnósticos? 'Ah.. esses são mais sóbrios e inteligentes ainda!' Ops... essa foi minha arrogância falando. Devo me policiar! Na verdade inteligência e burrice vão além de rótulos de qualquer epistemologia e cosmovisão! Mas mais inteligente ainda é quem não rotula ninguém como inteligente ou burro por causa de sua visão de mundo... "


Assim fervilhou minha mente enquanto eu estava a caminho de algum compromisso. 


-Gabriel Meiller