segunda-feira, 14 de agosto de 2023

A pedagogia dos sentidos

 




Uma das definições mais lúdicas de pedagogia pode ser a seguinte: a arte do aprendizado guiado. O aprendizado é natural e muitas vezes associado com a palavra "pedagógico". Entretanto, há uma diferenciação mínima e balizadora: o aprendizado ocorre em todo lugar e a todo momento, enquanto a pedagogia exige um lugar(es) e momentos específicos. Por isso, o aprendizado é guiado de alguma forma e por algum método a variar de acordo com o tempo e a cultura. 


A pedagogia dos sentidos seria o método mais natural e empírico para educar uma criança, através de constatações dela conforme os sentidos e as situações mostrem a elas aspectos de fenômenos a serem aprendidos. O aprendizado ocorre por associações conscientes  de fenômenos (na maior parte das vezes) e a ligação dos fenômenos entre si envolvendo o aprendiz. Um exemplo concreto: quando entendo a relação entre uma alimentação desregrada, gordurosa e cheia de excessos e o predomínio e maior frequência de doenças, eu consolidei um aprendizado! Entretanto, o que julgará o caráter sólido e ativo deste aprendizado é o reforço do mesmo. Se eu aprendo de forma prática, sentindo em meu corpo essa relação de má alimentação, sendentarismo e baixa imunidade; além da experiência de mudar essas variáveis por meio da oportunidade de mudar a alimentação, me exercitar e presenciar uma melhora substancial... então as chances de um aprendizado efetivo e significativo serão muito maiores! 


O sofrimento (não somente ele) pode ser um ótimo professor porque ele é prático. Deste princípio origina-se a pedagogia dos sentidos e não somente uma pedagogia teórica e abstrata que na maioria das vezes é ineficiente. 


É interessante observar que a epistemologia dessa pedagogia teórica tem base na tradição cartesiana, sob o jargão: "Penso, logo existo" colocando o pensamento como superior sob as demais faculdades. E essa tradição tem origem na pedra fundamental: o culto à razão como a faculdade mais importante e divorciada dos demais sentidos. Essa constatação nos faz entender a importância da unificação e igual atribuição da importância de nossas múltiplas faculdades orgânicas. A valoração é desigual, portanto! A memória é multisetorial, pois envolve a capacidade de abstração, generalização, sintetização e extrapolação, entre outros mecanismos que ocorrem pela interação dos sentidos, como o tato, olfato, paladar, visão e audição. 


Entretanto, senhores e senhoras pedagogas, o que nossas escolas ainda reproduzem? Uma dinâmica pedagógica ainda antiga e da idade da pedra grega! Um culto à razão pura, como anteriormente eu discorri  sobre o plote de Platão! Entretanto, em outros países como a Suécia, Dinamarca, Finlândia e o próprio Portugal (com o exemplo da Escola da Ponte), trazem esse pressuposto da Pedagogia dos Sentidos como o motor da educação! Enquanto isso no Brasil temos uma cultura que ojeriza um dos maiores pedagogos que também ensinou esses princípios, a saber: Paulo Freire. Quando não o odeiam, o idolatram, mostrando que não há um senso crítico entre os indivíduos da moral de rebanho acadêmica ou religiosa. 


Minha pergunta se encerra da seguinte forma: superamos mesmo essa tradição de supremacia da razão pura? Uma tradição que diviniza a consciência em detrimento da subestimação das demais faculdades? 


-Gabriel Meiller

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