Agora, sob uma interpretação tênue da tradição platônica (e não de Platão em si) que cindiu o mundo em dois, reflitamos na Alegoria da Caverna de forma mais livre, crítica e temática pelo tradicional questionamento da filosofia, isto é, o questionar da verdade sem chegar a ela de forma definitiva.
Sob a intenção de criticar a falsidade dos sentidos, Platão propôs a razão e o pensamento filosófico como guias do homem no mundo. A parte produtiva disso é a capacidade limitada e parcial do homem se libertar de seus enganos pela autorreflexão. Sob esse ponto de vista, a alegoria da caverna representa uma revolucionária libertação de um sistema de aprisionamento humano porque liberta:
1)O homem de sua ignorância pela falta de questionamento. 2)O homem das amarras de um rebanho/grupo social que o pressiona a continuar nas sombras das tradições que o aprisiona.
Oh, Platão, homem de profunda instrospecção: a tradição filosófica te louva por criar um aprisionante veneno que liberta! De tanta introspecção criastes um mundo divorciado da realidade, o mundo das ideias em que tudo é perfeito. Por acaso almejastes a perfeição e na verdade a encontrou por vias de alucinação? Serás mesmo um louco benfazejo ou uma espécie de maluco beleza, ou apenas um sedutor barato? Ou quem sabe estavas somente a usar uma metáfora sobre esse mundo das ideias, algo somente alegórico e que não pretendia divorciar o mundo de sua naturalidade e imperfeição que é perfeita?
Muitos possuem motivos para concluir que usavas apenas uma metáfora para engrandecer a razão e o inatismo humano; outros podem acreditar que havia uma realidade do mundo das ideias em que acreditavas; mas o que de fato ocorreu foi que teus discípulos, oh mestre incompreendido!, transformaram o Ocidente num sepulcro da razão.
O pensar se tornou extremamente teórico e ineficiente: suprimiu as emoções, os sentidos e as demais faculdades em detrimento da gélida razão e demasiada seriedade cristã. O cristianismo enquanto sistema se fortaleceu e bebeu em teu princípio do mundo das ideias para justificar um além; o cristianismo como platonismo da plebe!
Platão, a incógnita! O desvirtuador da humanidade ou a sua possível redenção que foi transvalorada? Mas nada disso foi seu agudo plot, senão a crença por parte de Platão de que a humanidade seria capaz de se libertar pelas vias da razão! A razão, corrompida pelos traumas, sentimentos e pulsões (Nietzsche e Freud demonstraram) é apenas serva e escudeira das emoções: "defendemos racionalmente nossas paixões! " Existe algo mais paradoxal do que esta constatação?
Ah, Platão e suas boas intenções! Oh, o redentor da humanidade acabou por pervertê-la! De boas intenções o inferno existencial está cheio!
Eis o insight de Platão: emoções são enganosas e nossos sentidos nos traem; usemos o pensamento para romper este engano dos instintos.
Vieram outros e constataram: "Ah, senhor idealista! Não enxergas a razão como topo do iceberg das emoções e determinada por elas? A fisiologia do cérebro determinou a razão como posterior e determinável pelos instintos. "
Alguém cuja existência é ameaçada ou quando não consegue realizar suas ambições, suspende a razão em prol dos instintos. Um apocalipse na sociedade (ou ainda menos) é sinônimo do reinar dos instintos mais primitivos. A razão, desta forma, só reina quando a estabilidade e a paz a tomam nos braços.
E vocês, senhores(as)? O que suspeitam que Platão tentou elucidar?
-Gabriel Meiller
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