sexta-feira, 24 de julho de 2026

A ingenuidade da ânsia por definições

 

"É que ele é muito ansioso, sabe? Tem um problema com ansiedade..." disse meu pai ao pedreiro que estava reformando a minha casa. Ele tem toda a razão, eu sou muito ansioso, um neurótico por excelência; entretanto, o que ele talvez não tenha pensado é que eu sou ansioso porque fui criado por ele. 

Ah, seu Flávio, não seria o Gabriel um mini Flávio? Um Flavinho? Com toda a certeza! A grande questão é que a sua rigidez ao me criar e exigir de mim que eu tirasse na escola "de 8 para cima" e ao me punir quando eu levava bilhete, foi um dos fatores que fizeram de mim um ser que quer conhecer muito bem o chão aonde estou pisando. 

Para Lacan, um importante psicanalista, o desejo do Outro é algo que pode trazer ansiedade para os neuróticos. "O que o Outro (instituições chefes, tradições, pais, etc...) quer de mim?" se pergunta o neurótico. E então a angústia da indefinição, das incertezas, começam a perturbar o indivíduo que possui a necessidade de corresponder ao Outro. 

Se a punição ocorre como uma forma de corrigir o indivíduo por não saber o que o Outro, ou melhor, o que o Flávio queria... então o indivíduo tende a querer evitar a punição ao descobrir o que o Ou..., melhor,  o que o Flávio quer. 

Soa grandemente irônica essa constatação flaviana. Ele é quem colaborou para produzir tal ansioso de quem se queixa, e então agora quer que ele não seja mais ansioso. Soa uma piada de mau gosto, uma trolagem de décadas, uma tremenda incoerência daquelas de um artista que pinta um quadro com muito esmero e depois diz que ele ficou uma merda! Mas levemos na esportiva esse tipo de atitude humana, demasiada humana. 

Após anos em terapia, eu descubro que nunca é possível corresponder ao desejo do Outro, ou melhor, saber realmente o que o Outro quer. Vejam o Flávio, por exemplo:  queria que eu fosse um bom estudante e eu não fui na época escolar; mas agora que eu sou um inteligentinho que reflete sobre tudo, inclusive sobre os males da religião e daquilo que chamam de deus, bem como sobre a moral cristã (coisas que podem afrontá-lo, visto que ele é cristão), então talvez não tenha sido tão bom que ele desejasse que eu fosse estudioso. 

Estudar para criticar a educação cristã que ele me deu? Aí já seria too much! O que quero dizer com isso? Que nem mesmo o Outro (Flávio), sabe o que deseja. Então por que eu irei gastar energia para corresponder neuroticamente às pessoas por meio da ânsia por definições? 

As estruturas da linguagem, principalmente a escrita verbal, são estáticas. Mas as dinâmicas da vida e as vontades das pessoas não são! A definição faz parte da linguagem; mas o Real, a vida e suas dinâmicas são o oposto! Há uma constante impermanência que faz parte do universo. Ser um neurótico que tenta buscar certezas por meio da linguagem é um sinal de INGENUIDADE, visto que a vida não é feita de certezas, mas de mudanças. 

Então eu entendi que devo largar a minha ânsia por definições e o meu conhecimento a priori, que é limitado; e cultivar o conhecimento empírico que se manifesta nas relações. 

O que adiantaria, por exemplo, eu querer saber se uma pessoa é ciumenta ao perguntar isso a ela? É provável que nem ela saiba me dizer, pois as pessoas também são "Flávias", também se contradizem, também acham que sabem o que querem, mas mudam constantemente. 

E se o leitor perguntar: "Mas você tem raiva ou ressentimento do seu pai?" Eu direi: "Não... ele é humano, demasiado humano assim como eu, assim como todos." Ele me ensinou o aspecto mais caro da humanidade: a ambiguidade e a incerteza das dinâmicas da vida. 

-Gabriel Meiller Nunes



quarta-feira, 15 de abril de 2026

A vida digital: um contrarritmo à vida natural

 

Ultimamente tenho pensado como as tecnologias digitais, principalmente as redes sociais e os aplicativos de comunicação, têm me cansado. Já repararam como o Chat GPT nos oferece favores sem pedirmos? 


"Se quiser, �⁠posso te montar um “setup de foco” bem enxuto pro seu dia (pensando no seu mestrado), sem radicalismo." 


Essa sugestão veio após eu desabafar com ele sobre como o Whats App acabava me interrompendo nas leituras e sobre como eu usava isso para procrastinar uma tarefa importante. A tecnologia nos oferecendo ajuda contra a tecnologia... em que ponto chegamos? 

A atividade de pensar, de ter que planejar uma estratégia diante de um desafio estrutural da modernidade foi terceirizada para a própria tecnologia da modernidade. 

Todos somos alvos do regime de "economia da atenção" que as redes sociais nos oferecem. O entretenimento tem sido uma novidade que nos afunda sem sabermos a partir do momento em que ele entra automaticamente como um hábito. "Nada pra fazer, vou ver uma série antes de dormir!" virou o padrão. 

E quem nunca se pegou cansado de tanto rolar o feed do Instagram ou Facebook, ou mesmo de consumir vários vídeos interessantes no Youtube? Se não exercermos uma força ativa de controle, nosso subconsciente, por meio do nosso dedo clicante, entra automaticamente no Instagram sem nos darmos conta. E só depois reparamos que entramos no Insta sem pensar se queríamos isso, como que instintivamente. 

A modernidade é um puta de um cassino sofisticadíssimo, que nos atrai pela carícia no ego e pela ânsia de sair do tédio. Os likes de nossas fotos, textos ou vídeos nos incentivam a acreditar que somos muito queridos, enquanto a aprovação das pessoas da vida real ocorre no ritmo naturalmente lento em relação à aprovação digital. 

E quando nos acostumamos com essa dinâmica de recompensa artificial, isto é, anti-vida em ritmo e em dinâmica, nos tornamos prisioneiros do niilismo digital. Esse é um mal estar da civilização atualizado em que, como massa de manobra do entretenimento, adentramos cada vez mais o curral daqueles que desenvolvem essa engenharia para nos dominar pela dependência desse terrível admirável mundo novo.


-Gabriel Meiller

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Um diálogo absurdo com a Vida



"Por que choras, rapaz?" ecoou a vida. Era um eco inexprimível em símbolos, palavras ou qualquer outra forma conhecida de comunicação. 

Eu apenas sabia que havia uma atmosfera inquisitiva da Existência em minha direção. Não eram fadas, duendes, deuses ou outras invenções dos seres desgarrados que passam pelas mesmas aflições que eu. Era a Vida... a dinâmica da sustentação da vida que nos cerca de todos os lados. Não era nada metafísico, mas imanente, algo totalmente distante das superstições teístas. 

Após a pergunta inexprimível, bradei movido pelo ódio: "Porque você é uma merda!" 

Meu choro era o resultado do ódio às dinâmicas da vida. Ela, tendo uma metaconsciência, argumentou:

"Mas como pode alguém odiar as condições que o produziram, isto é, que proporcionaram a sua própria existência?"

Aquela reverberação sutil armadilhou-me no silêncio. Eu simplesmente não sabia o que pensar ou como revidar. 

A raiva, raiz espalhafatosa da semente do medo, cessou temporariamente e um misto de emoções me invadiram. Então, nesse meandro, ela voltou a crivar suas asserções em meu coração:

"Tenho te ensinado, ó animalzinho terrestre, a aceitar radicalmente o que sou. Você não tem visto os meus movimentos? Eu sou impermanência. 

O verbo ser, entretanto, simplifica e induz ao erro sobre o meu verdadeiro instado: um constante devir. O "ser" não me faz alusão, mas confunde a minha imagem diante dos homens. Traiçoeiras são as palavras dos humanos para o entendimento sobre mim!

Se não aceitares a premissa do devir, da constante mudança, serás um homem morto antes da hora. Adoecerá em tua própria expectativa de essência. Em mim não há essências, pois tudo flui como um rio."

Então a vulnerabilidade despertou em mim a petrificação da raiva como escudo: 

"Me tiraste tudo, sua puta desgraçada! Como podes achar que perdas sistemáticas são a sua forma de funcionamento? Como podes achar que eu me contentarei nesse eterno devir?"

Ela revidou pacientemente:

"As perdas sempre apontam para novos começos, para nascimentos posteriores: essa é a origem do que vocês chamam de futuro. Sem perdas, não há nascimentos vivificantes! 

 Quem serias se em mim a dinâmica da morte e da perda não ocorresse? Não estarias aqui, vivo sob esse planeta em uma das trilhões de galáxias. 

Não entendes que tua ânsia por definições e tua constante angústia por estabilidade é um contrasenso ao meu funcionamento constantemente expansivo? 

Não consegues sequer enxergar o espírito de tua época (zeitgeist), que dirá entender a dinâmica que começou e findou inúmeros universos primitivos. 

Estás preso na era da instantaneidade e isso tem consumido o teu senso primata de urgência... não sabes distinguir o que é urgente e o que é trivial. Irá querer se revoltar contra a dinâmica que sustenta todo o universo? Óh, tolo!"

Depois de uma breve pausa, a Vida aumentou o seu tom, um tom demasiadamente humano e lúcido em suas ferroadas:

"Cego, cego! Seu primata burro envelhecido! Ainda estás cru diante do senso de lucidez e da aceitação total das minhas dinâmicas, do verdadeiro amor fati! 

Saia de teu tempo histórico, olhe para trás e veja como essa sua melindrosidade é obra de tua civilização decaída! 

Choras por tudo, se impacienta por tudo, és demasiadamente sério em tudo e o riso se perdeu no nada! Até quando, óh néscio, serás assim? Quando cultuarás  a livre aceitação do que te faz ser quem és? 

Ame o imponderável e nele repouse! Tome café da manhã com o acaso e faça dele o teu escudo. Só assim entenderás que a vida é a alegria do imponderável ao mais sombrio acaso, do mais louco riso à constante despretensão... pois foi exatamente a partir disso que surgiu a tua espécie e a tua consciência limitada."

-Gabriel Meiller 


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O hiperestímulo como hedonismo corrompido

 


A modernidade sofre de uma doença sistêmica incurável. O vício no hiperestímulo, aquela espécie de hedonismo corrompido, adaptado às exigências da modernidade; o que dizer dela? A modernidade é uma meretriz superior que faz de todas as ideologias um instrumento para a sua devassidão. Ela prostitui e instrumentaliza qualquer coisa sã e a torna vil. 

Vocês não enxergam, meus contemporâneos? Não ocorreu a vocês que vivem numa terra de predadores insaciáveis de felicidade? Eles adoram a felicidade, suplicam a ela por uma benesse, ajoelhados em volta de seu altar; usam a caridade para se promoverem e serem felizes, os estímulos sensoriais para serem encantados por liberações torrenciais de dopaminas e ocitocinas. 

Um erro fatal, entretanto, fez deles miseráveis. Famintos que nunca se saciam nesses banquetes de fast food, pornografia e festas intermináveis com drogas e álcool. Eles confundiram a felicidade do verdadeiro hedonismo, equilibrada em estímulos, alicerçada na contemplação da natureza e na satisfação da fome. A felicidade da modernidade é uma fantasia tresloucada, irreal em sua origem: é desejo que leva a mais desejo e a pouca satisfação. 

Vossos apetites, senhores da modernidade, são um bocado de vampiros sedentos que se quadruplicam em crescimento exponencial! Quanto mais cresce o apetitem, mais os recursos neurofisiológicos declinam: os receptores de vossos neurotransmissores são "queimados" de tanta dopamina e logo descem para a membrana que os protegem. Assim, neurofisiologicamente, vocês apresentam excedente de dopamina que é pouco absorvido pelos receptores, causando a diminuição do prazer. 

Não é possível que vosso próprio corpo sustente tal desperdício de recursos, pois ele mesmo rejeita o excesso por meio de mecanismos fisiológicos.  Portanto, sereis condenados a vagar como obsessores, amaldiçoados como viajantes sedentos que atravessam o deserto das novidades sem poder desfrutar delas e nem beber a sua água. Vocês são obesos famintos que não conseguem saciar a vossa fome, ó geração de tolos!

Ninguém pode salvar a modernidade de seu niilismo, ou poupá-la de sua alienação no prazer, de seus banquetes macabros que impressiona o mais glutão da antiguidade. Tal obesidade de sentidos irá implodir o prazer pelas suas próprias prerrogativas de maximização. 


-Gabriel Meiller



quinta-feira, 4 de setembro de 2025

A felicidade como a simplicidade dos Campos Elísios

 Quero a paz dos Campos Elísios. Campos verdejantes, amenos e ensolarados; debaixo de uma sombra, a sombra da serenojovialidade, posso observar as dinâmicas da vida sem me angustiar com a falta de resposta para os problemas que assaltam a Terra. A vida é uma maratona caótica, cheia de percalços e adversários que almejam remover seus oponentes da maratona, achando que ela é uma corrida. Na modernidade, a performance é hipertrofiada e o ócio demonizado. Os algoritmos nos levam ao delírio. As informações contrárias fazem guerra em nossa mente e se multiplicam. Clickbaits e scrollings infinitos enlouquecem a alma que se consome em seis, sete... ou dez vídeos em série. 

"Se eu fosse o Diabo, inventaria a internet." alguém me disse certa vez. E pensei: se eu fosse Deus,  além de ter que existir, concederia aos homens a dádiva do censo crítico e a capacidade de dizer "não" aos excessos. Aristóteles, aquele que defendeu o geocentrismo, acertou na grande questão da moderação. Segundo ele:  "A virtude está no meio entre dois vícios, um por excesso e outro por falta." Se o caminho do meio é a chave para o ingresso aos Campos Elísios, a paz só vem por meio da petulância da guerra. O caminho que Sísifo trilhou, ao enganar a morte, foi de cansaço e fadiga inútil ao rolar uma pedra. "É preciso imaginar Sísifo feliz" ponderou Camus. A guerra é um caminho necessário para que um espírito seja pacificado... não o militarismo, mas a guerra que santifica: “Vocês dizem que a boa causa santifica até a guerra? Eu lhes digo: a boa guerra santifica qualquer causa." disse Nietzsche. Ele estava certo, pois é na guerra que nos descobrimos em nossas contradições internas, a guerra que nos faz querer distorcer o mundo às nossas expectativas. E então, depois de um tempo, chegamos a um doloroso ponto em que nos frustramos por não conseguir caber dentro dessa realidade fabricada do mundo. Nos desfiguramos ao tentar entrar nesse mundinho encantado que criamos para nós. A guerra vira um esforço que deságua em desilusão; a desilusão em humildade para compreender a vida, e a humildade: simplicidade.  

O que estou querendo dizer com esse papo diletante? Que a vida não é uma fórmula mágica. Não é um morango, mas um tremendo abacaxi a ser descascado. Nascemos e já recebemos valores de nossos cuidadores, fantasias psíquicas transmitidas pelo convívio, traumas e predileções arbitrárias. Mas eles não sabem disso, ou não nos avisam que isso é apenas um ponto de vista. Talvez eles acreditem que o que eles sabem, seja a mais pura verdade. Então, nós começamos a criar certa maturidade para questionar as verdades de nossos familiares e desembocamos em explorações existenciais. Nos reconfiguramos, corremos atrás da nossa verdade e... questionamos: será que hoje estou melhor dessa forma? Será que sou feliz dentro desses moldes? 

Se formos honestos conosco... diremos: não existe uma verdade universal. Sabemos que o que somos, é um papel social construído por uma infinidade de circunstâncias, aleatoriedades, fatalidades e planejamentos. E sabemos que quanto mais colocamos condições específicas para sermos felizes... a felicidade foge de nosso alcance: "Eu serei feliz no dia em que eu casar." E então o sujeito casa e enjoa da esposa, assim como um comilão enjoa de comer batatas fritas todos os dias. "Eu serei feliz no dia que tiver muito dinheiro e não precisar trabalhar." Então o sujeito atinge seu objetivo e depois de meses, fica entediado e procura problemas de forma inconsciente para sair do tédio e da mesmice. 

Uma verdade valiosa se traduz no fato de que: somos um eterno poço desejante sem fundo. O desejo sempre persegue a falta e não a satisfação. Se nada falta, desejamos algo que não podemos ter. E então, a felicidade corre, bem como um rato correria de um gato. A felicidade não pode ser acomodada dentro da acumulação de metas futuras. Ela deve se sentar debaixo de uma árvore nos Campos Elísios e observar a grama, sentir o vento e se acostumar com o silêncio da paisagem. Ser feliz envolve acomodar a felicidade dentro de pequenos gestos da nossa realidade; assim: tanto o pobre, quanto o rico serão felizes, apesar de seus bens ou falta deles. Não molestem a felicidade: ela floresce assim como uma criança que leva a vida na brincadeira. "Se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino da Felicidade". 


terça-feira, 29 de abril de 2025

A mentira contemporânea das mil e uma possibilidades e a mediocridade sistêmica como consequência

 

"Não dá para ser bom em tudo." ecoa o ditado do senso comum. De fato, ninguém ousa desafiar esse princípio e os que acham que o estão desafiando, estão fantasiando e se mostrando ridículos, aliás, medíocres em tudo. Sabe-se que o termo medíocre deriva do termo médio; alguém medíocre não é ruim, bem como não é bom. Uma pessoa medíocre não se destaca de nenhuma forma, estando dentro, engolida pela média; a média é a ausência de destaque. 


A ironia dos mais esforçados é justamente essa: se esforçam para serem irrelevantes ao diluir os esforços em inúmeras áreas. Essa cobrança de sermos bons em tudo não é obra do acaso, mas do tempo em que vivemos. A vida de boas aparências das mídias sociais impõe a utopia do ser bom em tudo. Entretanto, ser bom em algo exige renúncia de esforços em outras áreas, além de limitação própria de forma consciente. O pilar do destaque em uma área se assenta na atrofia! Uma pessoa atrofiada em algumas áreas é hipertrofiada em outras, isto é, muito foda em outras áreas! Nesse terreno do destaque a harmonia foi banida, aniquilada, pois aqueles que se destacam em uma área são horríveis em outras. 


Assim sendo, escolhas devem ser vistas como limitações às mil e uma possibilidades que a modernidade atual acha que podemos desenvolver. Não! Não podemos ser tudo o que queremos, podemos apenas ter essa ilusão que no final se torna amarga demais para os que envelhecem e olham para trás e lamentam não ter dito mais "nãos" para que algo fosse solidamente construído pelo caminho da justa privação com objetivos que no futuro dão frutos. Esses frutos serão vistos como uma conquista fácil pelos desavisados que não trilharam a trilha de lágrimas e privação que este indivíduo trilhou. 


Desta forma, entende-se que a contemporaneidade implantou uma mediocridade sistêmica àqueles que simplesmente entraram no automatismo da autoperformance alienante que não limita o seu trabalho de melhoria às poucas áreas. Afinal, para onde queremos ir? O que nos vale os esforços e o nosso tempo? O que nos traz satisfação duradoura? Essas são perguntas vitais para nos guiar no meio de uma poluição sonora de vozes sem fim que é a contemporaneidade. 


A grande verdade é que a modernidade mente constantemente para nós como parte do lucro que essas mentiras geram.  Não podemos ser tudo o que quisermos... nem de longe! E crescemos com uma premissa subterrânea e traiçoeira: temos que ter sempre tudo do bom e do melhor. Temos que ter qualidade de vida em tudo. Temos que ser felizes em tudo. A cobrança em ser de forma artificial pelo constante fazer nos sufoca e nos traz exaustão. Mas não se preocupe: a indústria e o capitalismo também lucram com a frustração e com a depressão do ideal não atingido! O Deus Capitalismo nunca passará fome em seu altar sacrificial, essa é uma das únicas certezas que rivaliza com a certeza da morte. 


-Gabriel Meiller 

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Sobre a vida como um jogo de xadrez



Tenho refletido sobre a metáfora da vida como um jogo de xadrez, isto é, sobre a importância de pensar antes de fazer uma jogada. Há muitas escolhas e consequências na vida e por isso a agilidade não deve ser confundida com impulsividade. No jogo de xadrez existem armadilhas em que uma peça é oferecida como uma emboscada para que após um ataque mal pensado, o oponente chegue ao xeque, ou ao ponto de pegar uma peça preciosa do jogador impulsivo, como a rainha, por exemplo. 


Na vida o princípio é o mesmo. Se formos muito reativos, podemos cair em emboscadas; a resposta apressada leva a confrontos desnecessários. É importante calcular as jogadas (reações contra outras pessoas) e refletir se temos poder ou culhão para enfrentar quem nos incomoda sem sermos devastados por um contra-ataque sinistro. Tenho aprendido a ler o tabuleiro ao meu redor e a antecipar mentalmente as jogadas para que eu saiba qual será a melhor jogada a ser feita. O confronto direto quase nunca é do meu feitio; ele traz muito mais prejuízos do que vitórias. Ao contrário, ao invés de "atacar" alguém (metaforicamente), eu prefiro deixar o adversário jogar e tomar a atitude, com ar inquisitivo que me é característico, como se perguntasse: você veio com qual intenção? 


Meu ar fechado e passivo geralmente é minha forma de precaução. Se o adversário propõe um apaziguamento, aceito de bom grado e sem retrucar. Se ele me sugestiona a fazer algo que me custará menos esforço do que um confronto direto ou conflito, também faço o que foi proposto por ele e deixo-o "sair por cima".  Fazer inimigos é um custo indesejável e desnecessário e odiar uma pessoa traz o dobro de trabalho e consome muito energia, além de contaminar o meu julgamento da realidade. Eu prefiro a indiferença e a distância que esfria os envolvimentos e as animosidades, principalmente em terrenos que são cruciais para mim, como a área profissional. 


A distância equilibrada, isto é, o ar de impessoalidade com pitadas de boa vontade aparente e solicitude para um auxílio nas demandas profissionais de quem precisar de mim é o feijão com arroz do xadrez da vida. Ser um bom profissional sem a necessidade de se expor demais é sempre uma medida mais segura, com exceção de algumas áreas que exigem um carisma muito personalista, como a área de vendas e de mídias sociais. Obviamente, em outros ambientes essa metáfora pode ser atenuada e as afetividades (negativas e positivas) podem ser menos reprimidas e mais transparentes. Entretanto, a vida continuará sendo um enorme xadrez, mesmo que o adversário mude e a cena passe a focar em um jogo de "nós contra nós mesmos", o que no fundo sempre se mostrará um fato irrefutável. Antes de um outro adversário, nós somos o nosso primeiro adversário.  É por esse motivo que a contemplação e o ócio, que é o propiciador dela, é tão fundamental para a vida! Para jogarmos contra nós é necessário que pausemos os jogos paralelos com os demais e nos voltemos a nós mesmos pela reflexão. 


Obviamente, existem diversos estilos de jogo de xadrez: os mais agressivos e exploradores, bem como os mais defensivos e conservadores que atuam no contra-ataque. Cada um com seus pontos fortes e fracos. Os estilos podem mudar de acordo com a fase do jogador e as demandas dele. Mas o que nunca pode ser perdido de vista são as consequências da inconsequência de jogadas impensadas que são fruto da falta de reflexão e de um excesso de distração causada pelo entretenimento procrastinador. 


-Gabriel Meiller

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

A angústia ao ler Modernidade Líquida

 

Há uma corrosão emocional que vem me assolando conforme eu rumino os apontamentos assertivamente cortantes de Bauman. Posso definitivamente dizer que "Antes eu te conhecia só de ouvir falar, mas agora os meus olhos te lêem", parafraseando Jó. Mas ler Bauman sem me envolver profundamente com a modernidade que me cerca é impossível. Ainda mais com a profundidade que sempre me foi característica em minhas investigações. Modernidade Líquida escancara de forma cíclica e cada vez mais profunda a cada capítulo o motivo de sermos tão solitários, inseguros e cansados psicológicamente. Bauman entende que a estrutura de um capitalismo global e flexível em que tudo está em constante transformação, também nos transformou em moribundos sem identidade estável. As comunidades sólidas de antigamente que se baseavam em laços profundos e que duravam por toda a vida, sofreram a liquefação (se tornaram líquidas e temporárias como a roupa do dia em que vestimos). A estabilidade de um emprego em que possamos fazer carreira sem nos preocupar com a demissão e o corte de gastos, virou um sonho de concurso público. As relações que duravam décadas, hoje são sentenciadas a morrer quando o cônjuge (visto como um produto a ser consumido até a satisfação do outro desvanecer) se exaurir da novidade da relação. Um grande "até que  o fim do desejo nos separe; até que um novo desejo mais selvagem nos separe de vez." A novidade ganhou um prestígio ilimitado e o tédio causado pela espera foi abolido; a procrastinação que antes tinha um objetivo de adiar os planos para que fossem melhor consolidados no futuro, virou um adiamento infinito em detrimento do consumo de pequenos prazeres imediatos anestesiantes que nunca satisfazem quem os consomem. Mas essa lógica de cassino é feita para ser assim: nem muito prazer para não satisfazer completamente o moribundo sem identidade e o encorajar a não voltar tão cedo; nem tão pouco para que ele desanime da busca e desista de voltar. 


Toda essa constante mudança, estímulos rasos e procura crônica por autoafirmação da nossa identidade individual é uma alienação da modernidade líquida. Uma corrida dos ratos que ninguém escapa; os grupos atuais se sustentam pelo desejo do indivíduo de estar neles e de sair quando for conveniente. Mais perverso do que isso, o grupo funciona por uma lógica de ódio ao diferente:  a esquerda que odeia a direita e a cancela; a direita que considera a esquerda como um bando de autoritários do politicamente correto e os abomina veementemente. A união do grupo é pelo ressentimento; o ressentimento nos atravessa quando enxergamos pessoas que conquistam o que sempre sonhamos e não conseguimos, muitas vezes pela aura do socialismo e do ódio à conquista meritocrática do outro ou mesmo pela herança herdada; a irritação nos assola quando escolhemos algo e depois vemos que havia outra coisa muito melhor como opção. 


Estamos todos presos em uma lógica do consumo como consequência de uma condição volátil que determina a nossa identidade. Consumimos pessoas em relações; vestimos uma skin identitária em grupos que depois é removível; veneramos a frágil reafirmação da nossa autoestima em likes de Facebook e Instagram.  Esta é uma parte perceptível da modernidade líquida: a constatação de que o fato de nos prendermos a algo estável é uma tremenda loucura, sendo que na próxima quadra terá algo melhor. A preferência pela velocidade que faz os dias correrem velozmente sem fim, correndo atrás do futuro redentor é o grande surto coletivo venerado. Somos carentes de novidade, pois o antigo causa repulsa no indivíduo moderno, isto é, o indivíduo que acredita que o fututo será sempre melhor.  Somos crentes do progresso constante do futuro e não nos tocamos que isso é ardilosamente mendaz. 


Ainda por cima: vivemos uma era de niilismo profundo que se travestiu de plenitude; não estou falando do niilismo cristão, que já perdeu a sua força de sedução e hoje é um moribundo que tenta arrebanhar os que possuem medo do mundo e da vida.  Falo de um niilismo cem vezes mais potente:  o mundo paralelo da inovação compulsória e da exposição constante nas redes sociais como uma subversão da vida no aqui e no agora. 


E não há uma solução, pois o indivíduo não é capaz de combater uma superestrutura coletiva global que saiu do controle do Estado-nação. O que importa é o emaranhado internacional e não a vontade local. Somos como o feiticeiro que lançou um feitiço e perdeu o controle sobre ele; o feitiço é a vida própria do capital que é soberano sobre o todo. O capital hoje é líquido,  instantâneo e imprevisível; sem as parnafenalhas de edifícios industriais que o prendem ao chão e o tornam controlável. Hoje o capital é digital e impegável; não há uma mesa de controle, o comando não é concentrado, mas está em todo lugar e, por isso, em lugar nenhum para ser domado! 


-Gabriel Meiller

domingo, 12 de janeiro de 2025

Como surgiram os vírus

 Seria bom se vivêssemos no melhor dos ideais: despreocupados, com tempo livre, animados para mudanças e sem reclamar da vida. Se gostássemos de nossos pais sem apresentar rusgas nas relações. Sem enjoar das comidas, das pessoas e sem se horrorizar diante das notícias mais destrutivas, ou melhor, nos horrorizar para demonstrar humanidade, mas não deixar isso contaminar nossa energia vital. Se o mundo fosse mais equível, cooperativo e ao mesmo tempo individualista na medida certa para cada um ter sua privavidade para fazer coisas mesquinhas sem afetar a ninguém. As mesquinharias seriam obra do tédio de uma vida mediana e sem muitas expectativas sobre batalhar na vida para conseguir coisas legais e que são legais porque fomos privados em certa medida. 


Seria legal se o último problema a enfrentar fosse o tédio de tudo estar em seu devido lugar. Assim o ser humano poderia pensar em, talvez, fazer as suas porcarias novamente e desarrumar a utopia da vida como um morango para depois arrumar tudo. Mas nessa equação teriam aqueles que desejariam ainda manter o tédio porque ainda não se injuriaram contra a mesmice. 


Eu gosto de lembrar que nos tempos em que eu era crente, pensava na vida no céu,  isto é, no paraíso celeste que foi idealizado pelos cristãos. Eu não gostava da ideia da eternidade fixa e imutável, daquela cena em que todos os remidos pelo sangue do cordeiro cantam junto com os anjos e adoram a Deus para todo o sempre. Imagine que tédio colossal sentiríamos: pois uma hora tudo o que é bom nos causa náusea e isso só depende de uma robusta exposição ao tempo. A menos que... a menos que noutro plano tudo seja diferente e o fator tempo não reflita nada do que se refletiu aqui. Então Deus, onisciente de todas as nossas dificuldades para raciocinar a futura ordem, pode me perdoar pela próxima blasfêmia que falarei, hehehe. 


O paraíso dos anjos era tão enfadonho com o coral dos anjos que Lúcifer chutou o pau da barraca e se rebelou com os demais anjos que estavam de saco cheio. Está aí o problema, haha! O tédio, o incômodo da mesmice fez Lúcifer clamar por uma radical mudança e querer reger o coral celeste. Lembrem-se, meus caros irmãos e ex companheiros da igreja: a culpa de tudo é de Deus. Ou eu estou errado em meu raciocínio sobre Lúcifer? Se eu estiver errado e as coisas do posterior plano celeste forem diferentes e o tédio for coisa de seres humanos, porque raios Lúcifer quis reger o coral dos céus e ser um melhor regedor do que Deus? Se não foi o tédio foi... a cobiça, então? Então isso demonstra que a cobiça transcende o reino humano, irmãos! E se a cobiça faz isso, possp supor que o tédio, a glutonaria e as outras emoções e desejos também? Pois que sentido faria somente a cobiça ser de outro mundo e o resto, como o tédio, não estar presente?


Chegamos ao nosso probleminha que faz da minha blasfêmia um belo argumento contra Deus, hehehe... esse deusinho: um péssimo arquiteto universal. Um ótimo vitorioso sobre o tédio; ou não? Pois ele criou todo o universo por se sentir sozinho ou... por ficar entediado com o nada? Mas voltemos ao meu argumento contra Deus e a favor de Lúcifer: o tédio e a cobiça eram uma revolta justa para sair daquela ordem de opressão. Pensem: os anjos eram obrigados a adorar a Deus e o problema não era nem adorar a Deus em si, mas adorar a todo momento. Sem pausas para lanchar, sem uma sinuca com os amigos, sem nenhun tipo de lazer a não ser adorar ao Criador. "Que Criador mais egocêntrico, não?" pensou Lúcifer, que aprendeu com Ele pelo exemplo e pensou que o papai iria dividir com ele a sua glória. Foi aí, senhores, que começou o complexo de Édipo, a estapafúrdia rivalidade entre pais e filhos. 


O que dizer? Lúcifer foi ingênuo ao pensar que seu pai revezaria com alguém, afinal, todo pai gosta do comando e não abre mão dele. Mas o maior ato de humanidade que fez Lúcifer ser indigno de ser divino foi a rebeldia, a cooperação com demais seres celestes para que eles rejeitassem aquela eterna e por isso: tediosa ordem de sempre! Parece que o Criador não gostou de uma nova criação, de uma nova possibilidade de ordens. Que Deus mesquinho, não? Então, por se demonstrar diferente das demais ordens de anjos, Lúciter foi expulso pelo Criador, isto é, o seu papai celeste! Hey, irmãos! Eu sei... eu sei muito bem que os anjos são criaturas de Deus e não filhos como vocês ou como Jesus, mas afinal: não é o verdadeiro pai quem cria? "Pai é quem cria!" é uma frase muito sugestiva e verdadeira; posso extrapolar esse princípio para outro plano?  Penso que se pensarmos em Lúcifer e sua cobiça e tédio.... podemos, sim! Mas se em todo caso, irmãos, vocês não me permitirem extrapolar esse princípio, direi que quem escreveu a Bíblia, contou desmedidamente uma bela de uma lorota a vocês... hahaha haha! Não acham? Quem acredita nessa histórinha que vocês defendem com unhas e dentes? Se ela for verdade, não podem recusar a minha especulação sobre Lúcifer e seu tédio. 


De qualquer forma, tanto faz! Só me deixem continuar a minha premissa e tenham respeito com as elocubrações de quem escreve; pois eu não tenho mais nada para fazer da vida e é do tédio que nascem os excelentes escritores, bem como a criação do universo e a deserção de Lúcifer e 1/3 de anjos celestes. O que estou fazendo não difere, caros leitores, da obra criativa que foi a primeira coisa que fez surgir o mundo. Então me respeitem pois eu estou sendo Deus, estou criando algo! Mas aí algum de vocês, injuriados com essas profanações podem fazer as suas graças luciferianas r dizer: "Na privada eu também sou Deus, e como sou! Ha ha ha ha ha!" E eu direi: Você tem razão! E a merda serve de adubo nos jardins, para a geração de alimentos e no final todos comemos, indiretamente, merda! HA HA HA HA HA! Gostaram dessa? Espero que sim! 



Mas continuemos, irmãos. Deixem-me contar o verdadeiro spin off sobre o que a Bíblia não contou e na verdade, só deixou nas entrelinhas. E antes que pensem que estou prestes a falar uma heresia, saibam que essa revelação eu recebi nos tempos da igreja e é muito confiável! Na verdade foi o único trunfo que eu tinha na manga quando era crente. Eu não falava em línguas estranhas, não era líder de jovens, apesar de... ser um líder de célula na minha garagem. Isso eu era! Já cheguei até a fazer uma pregação na igreja do meu primo. E, humildemente falando, foi uma ótima pregação, eu falei muito bem!  Mas isso é uma outra história, vamos logo ao spin off, irmãos:


Após Lúcifer ter sido rebelde aos olhos Pai, e ter sido humilhado pelo fato de Lúcifer ter persuadido 1/3 dos anjos do céu a saírem daquele mar de tédio celeste e adoração constante ao Criador egocêntrico e autoritário... Deus o expulsou com todo o vigor, disse que ele viveria vagando fora da presença de Deus, ou melhor, fora da presença agradável de Deus, pois tudo vive e se movimento nEle, no Criador de todos planos. O nada não pode existir fora de Deus, inclusive Lúcifer, que seria agora o Diabo! A presença de Deus estaria em sua forma severa em Satanás. Satanás seria fiscalizado pelo Criador no posterior inferno, mas enquanto o Criador não criasse o inferno, Satanás viveria vagando pelo nada dentro de Deus, isso já seria algum castigo. Ele disse: "Você estava entiado lá no céu ao me adorar e regendo o coral ao meu favor? Então estarás mortalmente entediado na ausência de coisas criadas. Mofarás,  junto aos teus súditos rebeldes, nestes pedaços sem nenhuma finalidade até que chegue o momento em que terás para ti uma prisão de fogo e enxofre que irá queimá-lo por uma eternidade e, depois, extinguir a tua e toda a existência dos que estiverem ao teu lado!"  E então Lúcifer, agora renomeado de Satanás, soube que seria criado a ele algo pior que o tédio da existência: a inexistência aniquiladora! 


Satanás perambulou muito tempo por planos inexistentes e repletos de vazio! Ele teve muito tempo para tentar imitar o Criador e se debruçou sobre as artes energéticas da criação, tentando desenvolver artes parecidas com a alquimia, mas obteve resultados ínfimos. Fez algo amorfo, semelhante a amebas de planos distintos, coisas retorcidas quase escuramente fluorescentes. Não conseguiu criar seres, mas chegou a criar coisas que mais tarde foram chamadas de vírus! O vírus é uma tentativa de criação satânica, pois são seres que fora de algum organismo não possuem nenhuma função. Mas dentro de organismos, os vírus encontram sua real intenção: destruir e declinar a energia de vida! Essa foi uma das poucas criações satânicas, irmãos! 




sexta-feira, 22 de novembro de 2024

O surto

             


"Horrendo, horrendo... horrendo!" falou a boca, cuja mente estava repleta de cólera e o coração fervilhando de mágoas. 


As emoções costumam ser tidas como violentadoras da realidade objetiva muitas vezes; entretanto, há aqueles momentos, como este, em que as emoções apenas ressaltam uma constatação lúcida do absurdo da vida, principalmente a vida em sociedade. 


Vamos lá: sabemos que há coisas horrendas debaixo do tapete; temos convicção que nossa bestialidade evolutiva não acompanhou a rápida evolução social e cultural de milênios. E aquela mente pensou as seguintes coisas no auge de sua lucidez: 


"A democracia é um eterno revezamento entre quem se fode e quem se dá bem; um absurdo de sistema em que todos os imbecis têm a mesma voz que os sensatos. 


A vida sempre foi uma hostilidade para os que são prezas dos mais fortes e poderosos, daqueles que, estando ou não em uma democracia, vivem da mesma forma e sob os mesmos privilégios. 


Os homens são imbecis, seduzidos por todo tipo de ideologias e por meio delas sofrem, matam-se e se alegram como crianças ingênuas.


A vida pela vida é um absurdo.


A morte como ameaça constante é uma limitação àquele que a teme e uma liquidação aos que a ignoram. 


 Toda a experiência da raça humana é apenas uma luz de lanterna que pisca rápidamente e se encerra na escuridão do tempo de bilhões de anos. 


O sofrimento humano é construído pelas fantasias da razão e as inúmeras projeções do que deixamos de fazer ou possuir; os demais animais não sofrem a não ser quando são abatidos ou se perdem do rebanho." 


E como uma lareira em brasa, a mente fervilhava junto com o coração. As emoções eram como um forno a lenha que ao esquentar, demoraria para se apagar. A mente poderia divagar para pensamentos fúteis e inúteis, mas o coração estaria lá, chefiado pelas mudanças fisiológicas, pelas liberações de cortisol e adrenalina que ecoavam em todo o corpo e que demorariam a esfriar. 


Então a emoção cessou depois de longos ciclos de explosão e irracionalidade disfarçada de sensatez se instalou. Ideologias foram vestidas, o ritual à democracia e a valorização de seus ideais voltou a ser cultuado e a vida foi aparada para caber nas apurações de sentido daquele ser. Tudo fazia sentido, tudo tinha um propósito e um motivo de riso. 


Após um longo hiato, aquela consciência percebeu que as análises eram submetidas ao filtro das emoções e que a vida não era passível de ser avaliada e por isso a morte representava um misterioso encerramento que limitava as perspectivas e obrigava os seres a viverem por viver, sem esperar nada em troca.  


-Gabriel Meiller 




 


quarta-feira, 13 de novembro de 2024

A exaustão do choque entre as fantasias e a realidade


Enxergamos o mundo pelas janelas da nossa alma: a fantasia. A fantasia está constantemente sendo construída e reconstruída, sendo a única forma pela qual enxergamos ao mundo. Todo o histórico  de experiências que temos na vida se acumula em nosso cérebro e em nossa mente na forma de engramas.


 Experiências traumáticas bem assimiladas serão uma composição das nossas interpretações sobre o mundo, uma volição, uma inclinação em interpretarmos um acontecimento de acordo com um sentimento ou padrão que ficou gravado em nós. 


Esse assunto teórico é extremamente prático, principalmente quando exponho as minhas próprias chagas como encarnação do conceito a ser explanado. Esse é mais um daqueles momentos em que preciso limpar minhas chaminés por meio da escrita e da exposição pessoal por meio dela: 


Eu cresci debaixo de ambientes que imprimiram a mensagem de que eu não era bom o suficiente. Essa impressão teve a colaboração de terceiros, principalmente de alguém que influenciou de perto a minha criação, adotando uma pedagogia de humilhação, regada com palavras ásperas e menosprezo. Esse assentamento implantado em meus alicerces psíquicos foi aceito por mim,  que internalizei piamente essa narrativa. 


Digamos que uma criança passe a acreditar firmemente e ingenuamente no que os adultos e colegas dizem sobre ela, principalmente quando dizem ou mostram de forma sistemática o quanto ela é incompetente, burra, indigna de entrar para o grupo. A criança tem a sua parcela de responsabilidade ao aceitar essas narrativas, mas penso que não podemos cobrar de um chimpanzé uma pintura semelhante à de Picasso. Ilustro com isso que a responsabilidade foi mínima para alguém que está desenvolvendo suas capacidades críticas e de autodefesa. Mas, para não adotar um ar de vitimização perante a todos (olha eu, novamente, buscando amenizar os olhares críticos e julgadores sobre mim), eu admito que pelo menos 5% eu poderia ter feito para não engolir tal complô de narrativas contra mim. 


Então eu cresci aprendendo que se não há uma intimidade ou aceitação minha com algum grupo, a culpa é minha e o desajuste é meu! Essa premissa subconsciente, meus caros, é o início de um tipo muito comum de narcisismo: o narcisismo da consciência de culpa do mártir. Tudo o que ocorre de ruim é culpa minha, como se tal poder (de ser rejeitado) fosse exclusiva e desgraçadamente meu. Essa premissa que foi costurada no âmago da minha fantasia fez de mim uma criatura distante, desanimada com a interação em grupos, cética para com as amizades e interações sociais coletivas demais. Outras pessoas poderiam reagir de outra forma, sendo mais incisivas, extrovertidas e provocadoras diante dos grupos, não arredando nenhum pé diante deles. Mas a minha violência, diferente da violência dessas pessoas, é passivo-agressiva. 


A fantasia excessiva cultivada por mim de que há alguém que não gosta de mim de forma específica, de que não me encaixo em grupos e que foi reforçada pelas minhas atitudes consequentes dessa crença (ao me isolar dos grupos quando tenho oportunidade de ingressar neles), fez de mim alguém perseguido pelo meu fantasma! O fantasma é a fantasia dilacerada, excessivamente fixada, petrificada e perpetuada pelo trauma não superado. 


Eu tenho um olhar lúcido o bastante para detectar tudo isso, mas também a humanidade mais comum para não superar esse fantasma. E muitos aspectos da minha personalidade são uma consequência entre esse cenário fixo de rejeição x aceitação. Logo, a revolta (que me faz humano e lúcido) prevalece, me fazendo descartar o anseio em socializar e ao mesmo tempo, me causando medo e raiva por não ser aceito. Entretanto, racionalmente eu penso: mas fui eu que me isolei, por isso eles não ligam muito para mim e a interação é menos frequente, pois eu me isolei física e psicológicamente. 


Essa dualidade conflituosa entre me revoltar e não querer companhia, mas depois de um tempo querer a companhia do grupo, revela um dos aspectos mais humanos presente em mim: a irracionalidade e o conflito interno de desejos. O que fazer, senão conviver e acolher tudo isso, como demonstra Dostoiévski? Este é o meu cálice, imposto pelo determinismo da vida e que talvez possa ser amenizado pela trilha que percorrerei durante a minha existência. O que dizer? Esse sou eu, sob o escrutínio da minha própria análise que também não deixa de ser uma fantasia sobre mim mesmo.


-Gabriel Meiller. 

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

O alcance da serenidade após a flor da juventude



Devemos ponderar que a melhor fase da vida não existe por diversos fatores, mas principalmente pelo fator subjetivo, isto é: não se mensura felicidade; também não existe uma verdade absoluta que fuja da relatividade humana e que seja imutável. 


Mas por favor, caros leitores e leitoras, sejamos crianças e brinquemos um pouco de falar qual é a melhor fase da vida de forma inocente. Eu começo: a melhor fase da vida é após a juventude impetuosa que costuma ir embora após os 30 anos, senão no final do segundo decênio. É nesta faixa transicional em que a maioria das pessoas na sociedade ocidental capitalista percebem que para a felicidade é necessário: maturidade (alcançada por sofrimentos e erros) e simplicidade (que diminui o excesso de estímulos e aproveita a vida de forma serena). Essa fórmula ocorre quando a impetuosidade jovem entende que não pode abraçar o mundo e nem fazer tudo ao mesmo tempo, pois assim nunca fará nada. 


Se não se pode servir a dois senhores por agradar a um e desagradar o outro, ou ainda a ambos; o que dirá servir a todas as expectativas do sistema? É necessário renunciar algumas posições para colocar outras em prioridade. É vital brincar uma brincadeira por vez, degustando as delícias que a vida coloca em nossa mesa. Um menu à la carte, ao invés de festival ou rodízio, começa a aparecer mais vezes nas mesas daqueles que passaram da comilança furiosa da juventude do espírito adolescente para a ruminação dos mais maduros.


É importante passar pelos festivais e desbravar o mundo; pois isso trará à alma jovem em transição a maturidade para ser seletiva em sua fase mais madura e serena. Não existe serenidade sem o processo de desfiguração que a vida corrida e ansiosa causa no indivíduo. Não é possível desfrutar da paz sem antes ser espancado pelos golpes de angústia que a vida desfere àquele que janta seu banquete amargo de consequências de processos corrosivos de anos de juventude, obcecado pelo prazer sem limites e sem ponderação. 


Aos que se fazem como exceção da regra... chamo-lhes de forma veemente de mentirosos ou pobres coitados que perderam o parâmetro para entender o que é a vida serena, porque não passaram pelo contraste da agitação. A vida é esse contraste em que uma coisa só é uma coisa, porque a outra coisa é outra coisa! Ou seja: pelas diferenças que se definem e se ressaltam no campo simbólico e no processo de conhecimento contrastante do qual a vida é feita. 


-Gabriel Meiller

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

A doença do homem teórico



Ele acordou, doente e sob coriza do resfriado que o abateu pela imunidade baixa. “Não se estresse”, pensou. Mas já era tarde. “Então não chore, ao menos…” falou a si mesmo, sabendo que viver num mundo sem controle era se sujeitar às doenças, à falta de sentido e ao niilismo profundo. Aquele niilismo que nos abate como resultado do peso das escolhas difíceis, das tentativas de dar sentido ao que não possui nenhum sentido inerente. 


“Para quê arrumar a cama se irei bagunçá-la daqui a pouco?”, pensou a alma que atingiu os trinta anos com um experiência anciã. E essa lógica razoável acompanhou o raciocínio sobre a vida: “para que irei viver se daqui a pouco deixarei de existir para todo o sempre?”


Viver era um hábito e por esse motivo ele “arrumou a cama” que era a sua vida. Era uma mente talentosa e muito hábil, talvez por esse motivo estava com aqueles pensamentos típicos de quem vive na escuridão da profundidade reflexiva. Vida após a morte? Para ele era uma tentativa de negar a loucura da existência.


“Eu nasci por obra do acaso da vida em um planeta de uma galáxia entre trilhões de outras… após bilhões de anos. E irei morrer e deixar de existir por muitos outros bilhões de anos. Até mesmo o tempo deixará de existir depois de ‘um tempo’...” e ao pensar nessa ironia complexamente trágica, deu gargalhadas de loucura. 


Ele era um sujeito de lua; socializava apenas quando desejava, nos ambientes que frequentava. Sempre tinha críticas ácidas, mas proferia apenas a minoria delas para os ouvintes. Era conhecido por oscilações de humor ao irromper em empolgação algumas raras vezes, mas tipicamente era quieto na maioria dos dias. Eram tempos difíceis para aquela criatura ensimesmada em si e pouco altruísta. Ele se fechava como uma tartaruga que se põe para dentro do casco após constatar algum pseudovestígio de perigo. 


“Somos feitos de colônias de bactérias e muitas interferem no nosso humor, principalmente as do intestino. Nossa consciência, chamada ingenuamente de Eu, é apenas uma consequência de muitas formas de vida microscópicas que nos habitam. Existem inúmeros sistemas sincronizados em nós e somos apenas uma extensão do cérebro. Não existe um Eu, nem um software que chamamos de alma ou espírito…” pensou enquanto estava rodeado de pessoas em uma fila qualquer, em um lugar comum e desprezível. 


Essas verdades são duras demais para qualquer ser humano digerir quando se pensa sériamente nelas. Elas devem ser evitadas pela maioria e são tratadas de forma esquiva pelo homem prático, pragmático e que sobrevive pelas fantasias metafísicas. Então, uma grande campanha inconscientemente suicida se abateu sobre aquela personalidade retraída que de forma inconsciente estava cansada de temer a morte e resolveu encará-la. Ele se tornou adepto de esportes radicais, estilos de vida agitados que trouxessem riscos. Ele se dedicou ao skydiving, mergulho livre, base jumping, surf em grandes ondas do Havai e Parkour. 


Desafiar a morte e encará-la como parte do cotidiano, sem vê-la como uma indesejável das gentes, era seu objetivo. Era isso um grito de liberdade? Uma tentativa de sair do niilismo profundo e da desvalorização da vida? Ele sabia racionalizar paixões profundas e por isso mal se permitia vivenciar medos. Talvez por isso se aventurou nas loucuras de esportes de ação. Havia começado em sua vida uma era de autoconhecimento forçado, instintivo, prático. Então esse antigo homem teórico que ficou conhecido por não temer a morte, nem a falta de sentido dela, se tornou mais prático e concreto. 


Ele se aproximou de sua natureza animalesca como qualquer outro animal do planeta Terra. Houve redenção neste homo sapiens através da volta à sua natureza primitiva. O pecado original, conhecido pela extrema racionalização e abstração do pensamento, caiu por terra quando a vida foi encarada fora do espectro teleológico. Então em um dia segundoso e chuvoso, após acordar de ressaca, ele arrumou sua cama sem pensar em qual seria o sentido disso. Esse foi o sinal de que sua doença antinatural e abstrata, entrou em remissão! 


-Gabriel Meiller

domingo, 18 de agosto de 2024

Resposta a perguntas covardes com o entusiasmo de uma criança

   


Fluxo e refluxo. O movimento da maré é uma peça em um enorme quebra cabeça. Mas uma peça que contém uma dinâmica que está presente  no macro do quebra cabeça inteiro. A natureza da existência é intrigante e muitos aspectos gerais estão impressos em processos específicos diversos. Tornemos mais concreto esse raciocínio tão enfadonho quanto um acadêmico que escreve artigos: A comunicação é essencial para os seres humanos, certo? Uma comunicação transmite algum tipo de mensagem, seja oral (humana), seja por meio de muitos sinais. Tomemos o exemplo dos sinais que as raízes das plantas (outros seres vivos com outro tipo de consciência) passam umas as outras por meio de sinais químicos e que passam informações até mesmo sobre o ambiente. Uma planta atacada por um inseto ou praga, emite sinais para que as outras produzam defesas contra essa praga. Também podemos usar o exemplo da comunicação de células dentro do nosso corpo, outro tipo de universo; o cérebro recebe mensagens e manda mensagens por meio dos nervos e neurônios espalhados por todo o corpo e por meio de impulsos elétricos, isto é, a eletricidade como fonte energética. O que é tudo isso senão uma forma muito sofisticada de comunicação? Esse é apenas um exemplo dos mecanismos que estão aí para serem desvendados no universo. Somos exploradores jogados no universo por meio de seus próprios mecanismos e da aleatoriedade, somos a própria vida que ganhou consciência sofisticada e que desvenda a si mesma por meio do pensamento simbólico. O que é o universo? Essa pergunta é semelhante à primeira pergunta chamada como a mais covarde (sobre o que é a vida). Mas arrisco aqui a reduzir propositalmente a resposta do irrespondível ao dizer: o universo é um mistério; uma escuridão que revela cada vez mais surpresas conforme nos aproximamos com uma pequena vela que o perscruta. Mas nossa diversão é como o tempo do intervalo: mal começamos os empreendimentos e o sino da morte já se põe a tocar. Nossa luz é pequena, finita do tamanho do corpo de nossa vela, mas nem por isso… menos válida e genuína. 


-Gabriel Meiller 


sábado, 3 de agosto de 2024

O choque relativista e a luta contra o excesso do niilismo

    

Quando nascemos e somos lançados ao mundo... estamos germinando a nossa consciência que possui o tamanho de um grão de mostarda. Somos ao nascer mais vulneráveis do que os demais seres que, mesmo possuindo algum grau de conhecimento, são espancados pela existência e sua complexa falta de sentido inerente. Se um adulto muitas vezes se mata paulatinamente por meio do abuso de substâncias nocivas como as drogas em geral (legalizadas ou não) e ainda se embriaga por meio das ideologias laicas ou religiosas... como teria uma criança qualquer estrutura para enfrentar a inerente falta de sentido da vida ou sequer entender o que é a vida ou partes dela?  E a tragédia ocorre quando o suicídio se torna um ato de desespero para a fuga da vida e suas dores. 


É por esse motivo que a humanidade venerou em massa as crenças religiosas durante sua primitividade e ainda continua nessa veneração. Mas as crenças religiosas são apenas um aspecto da veneração humana. Todas as narrativas em geral são tidas como absolutas pelo ser humano. As crianças são ensinadas de que existe uma verdade universal, bem como um certo e errado universal. É necessário que o conto de fadas da verdade seja ministrado a todos na fase inicial. Entretanto, conforme crescemos, naturalmente somos levados a espaços relativizantes e fronteiriços entre a verdade e a mentira. O choque de culturas promove esse questionamemto mais profundo: se existem vários modos de crer, comer, amar e vestir... existe um certo e um errado que não seja relativo a algo ou alguém? Todo certo é relativo a algo; toda beleza é bela em relação a outra. Nada é algo em si mesmo, mas integrante de um todo o feio e o bonito dependem de si para existir; não haveria um sem o outro.


Se o indivíduo for extremamente dogmático, ele dirá: há somente uma verdade e um certo. O resto é um erro, uma deturpação do verdadeiro. E o verdadeiro é o meu jeito!  


Essa atitude marca a infantilização epistemológica de pessoas que não sabem lidar com o âmago do niilismo: se não existe uma  verdade imutável e universal, para que serve a vida? Então preferem venerar a verdade e distribuir a mentira às demais ideias e culturas.  A falta de sentido provocada por algum grau de relativismo é evitada a qualquer custo pelos seres humanos mais frágeis. Outros se refugiam no niilismo através da passividade e da falta de ânimo atráves do raciocínio: se a vida não tem sentido pela ausência de verdades universais... para que viver? Se nada faz sentido... que a vida passe como um sopro e seja apenas uma lembrança esquecida. 


Entretanto, uma resposta ao niilismo mais sadia pode ser contemplada: a vida não tem um sentido inerente... mas criemos esse sentido e nos alegremos pela liberdade que a falta de sentido nos traz. 


O relativismo ao ser bem administrado pode ser uma forma de libertação das narrativas mais enclausurantes das ideologias. As diferentes perspectivas de algo são navalhas que cortam as camisas de força dos ideais e entregam o homem à sua própria sorte: para o bem e para o mal. 


-Gabriel Meiller 




quarta-feira, 31 de julho de 2024

A arte da nuance como lente para interpretar as ideologias: o ideólogo trouxa e o canalha bon vivant.



Mais do que as ideias em si mesmas, carece-se de artesãos eficientes que sabem podá-las. O mundo clama por pessoas que ultrapassem o dogmatismo inebriante. A paixão é famosa entre todos por ser um ente que nos cega para os defeitos daquilo que se é venerado. O apaixonado torce seu senso crítico e busca o engenho para que suas ideias caibam no mundo de forma integral. As ideologias são essa famosa lente que distorce o mundo e o idealiza para que ele sirva às expectativas do apaixonado.  "A ideologia", certa vez entreouvi em algum lugar imemoriado, "... é o cadáver da filosofia."  Isto significa que a busca pelo senso crítico é sufocada pela ideologia sob a esperança de que os fins justificarão os meios, inclusive por meio do sufocamento do senso crítico e das amarras imputadas ao livre questionamento. 


Então a filosofia, morta por sufocamento, vira um cadáver chamado: ideologia. Já sem vida, a filosofia ainda é vista como tal por nós ingênuos, que defendemos com gosto e acariciamos nossas paixões ideológicas. A verdade? Ela só vale se estiver de acordo com nossas crenças, caso contrário é um meio que não justifica o fim desejado. 


Coloquemos em voga o exemplo político: aqui temos os que defendem as ideologias progressistas de esquerda e que valorizam os seguintes tópicos: coletividade, igualdade, controle estatal, pautas de ideologia de gênero e a luta pelo respeito à diversidade. Todes es progressistes defendem um mundo em que a acumulação de capital seja extinta ou minimizada ao máximo possível. 


Acolá, à direita, temos os que valorizam: a propriedade privada, a individualidade, a meritocracia que se opõe a igualdade artificializada pelo Estado; a desestatização, diminuição dos impostos e o controle privado em muitas áreas (mas não nas mais essenciais como saúde, educação e segurança) e pautas religiosas e sobre a família tradicional. 


Ambos os ideólogos estão comprometidos com suas paixões mais do que a verdade e por isso colocam suas lentes cadavéricas e se recusam a tirá-las. Abominam o "talvez", sendo idólatras de suas verdades dogmáticas. O esquerdista usa pautas coletivas e força a militância para causas pessoais e autopromoção. Junta-se o melindre de uma geração que nasceu em meio às facilidades da era digital com a disposição militante-progressista e então o mundo precisa se curvar a estes e serví-los.  O direitista deposita a idealização de que o Estado deve ser feito para ele: não deve gastar com projetos sociais, arrecadar a menor quantidade possível de impostos "desnecessários" pelo fato de não serem serviços direcionados à sua classe econômica. Um bom estado para este meritocrático que conseguiu tudo pelo berço é aquele estado econômico e minimalista. Para ele tudo é "mimimi", visto que nunca passou por apertos financeiros, demandas intermináveis e cobranças de superiores. 


Então, quando as lentes são amplificadas por meio da extrema direita e extrema esquerda... os mundos são incomunicáveis. O diálogo é encerrado e ambos os ideólogos se relacionam com as fantasias que produzem do outro: o outro é mau, o outro é burro, injusto, cego e mentiroso. E então o cadáver da filosofia, isto é, a ideologia... é envolto em um caixão alienante, chamado: bolha social. Uma bolha social é um isolamento cruel ensimesmante, um conjunto de narcisistas assassinos do senso crítico, quase canalhas. Não digo que sejam canalhas porque são apaixonados e deduzo que todo apaixonado não pode ser canalha, a não ser um canalha como meio para se chegar ao fim desejado. Mas o canalha em si é um desapaixonado que faz canalhices por belprazer. 


Quem são os canalhas? Os políticos. Esses são verdadeiros profissionais que encenam seu culto ao cadáver da filosofia, mas na essência só se preocupam com o dinheiro no bolso: o dinheiro desviado dos impostos, todos sabem. No final das contas uma verdade filosófica e empírica, que se distancia  muito da ideologia, eu lhes trago: os canalhas podem ser tudo, menos trouxas. Os trouxas são os ideólogos,  enquanto os canalhas: bon vivants muitas vezes à prova de karma. 


-Gabriel Meiller

quarta-feira, 24 de julho de 2024

O motivos da incompreensão de Nietzsche e sua filosofia


Por que muitas pessoas não entendem o famoso Bigodudo e ainda o declaram como um louco e anarquista apocalíptico da moral? Eis aí a raíz de um prejuízo (pré-juízo) que causa um verdadeiro prejuízo aos que desejam entender Nietzsche. 


Quais são as os motivos principais da distorção que muitos fazem da filosofia de Nietzsche?  


1)Difamação cultural. 

Nietzsche sofreu por muito tempo difamações de sua filosofia, causadas pela sua irmã que manipulou seus escritos para que o nazismo se vinculasse à fama do filósofo. O conceito de além-homem (superhomem) foi adulterado por sua irmã Elisabeth para que o alemão fosse considerado uma raça superior. Mas para Nietzsche, o além-homem não tinha nenhum vínculo com uma etnia, mas com uma atitude constante dos indivíduos de exercerem o senso crítico e a criatividade para montarem os seus próprios valores, sem depender da imposição religiosa ( e sem a obrigação de demonizar as demais morais, mas até de se sevir delas quando necessário e desejado). O übermensch é mal interpretado por pessoas que querem ler "Assim Falou Zaratustra" sem conhecimentos prévios da filosofia do autor (seus gêneros literários)  e sem se aprofundar na obra geral de Nietzsche e suas intenções como filósofo. 


2)Reatividade cristã


Há outras pessoas que não entendem a filosofia de Nietzsche justamente porque sabem a proposta do autor: criticar o cristianismo e a imposição da moral cristã no Ocidente. Por esse motivo, as pessoas demonizam Nietzsche e o declaram um ateu anarquista, que queria levar a sociedade à barbárie ou que ele era um louco que sofreu de demência justamente por sua filosofia sem pé nem cabeça. Declarar Nietzsche como um louco significa tentar silenciá-lo para que ele não seja entendido pelos demais. O que é isso senão um ato de má fé e desonestidade intelectual? 


3)Falta de preparo e estudos em filosofia e história


Há ainda os que querem entender verdadeiramente o autor e não lhes faltam boa vontade. Entretanto, são pessoas apressadas ou que não dão prioridade à filosofia. Elas sentam e tentam ler e entender o autor segundo o que possuem de contexto prévio. Na maioria das vezes ocorre a famosa miscelânea de ideias. Para estudar um autor erudito e extemporâneo, que não é de nossa época, é necessário estudar o contexto do século em que  o autor escreveu. É necessário entender que as traduções do idioma original sempre irão ser infiéis ao que ele quis dizer em sua língua nativa; é necessário entender o que o autor diz em palavras que no século XIX tinham um outro significado diferente dos dias atuais. É necessário estudar o gênero literário do filósofo: muitos sabem que Nietzsche se expressava por aforismas e de forma poética em muitas obras, o que dificulta a compreensão e interpretação de suas ideias. Nietzsche era filólogo e por isso usava  a mesma palavra com diferentes significados de acordo com a ocasião.


O leigo que quer ler Nietzsche irá entendê-lo? Não. E o pior será quando o leigo achar que o está entendendo e sem consultar nenhum professor ou especialista para ajudá-lo. Então Nietzsche será deformado e apresentado de forma bestial: como inimigo da moral, nazista,  a favor do caos social, dos massacres e das guerras; um antissemita, místico ou relativista absoluto de qualquer verdade. 


Por favor: leiam livros introdutórios da filosofia de Nietzsche. Consultem especialistas ou professores capacitados. Vejam vídeos no Youtube de Scarlett Marton, Viviane Mosé, Oswaldo Giacoia ou Clóvis de Barros Filho. Para que entendam o básico de Nietzsche antes de começar pelas suas obras mais aclamadas e difíceis em ler.


-Gabriel Meiller


-Scarlett Marton 


https://youtu.be/r0gaysPg-cQ?si=3jR5cPg6cTmziYFA


-Clóvis de Barros


https://youtu.be/4xXrZprnPlk?si=KOU2YjQ9Pkylama4 


-Viviane Mosé


https://youtu.be/_xP-RIKX7SI?si=TYBUaKJ443ByQKuR 


- Oswaldo Giacoia


https://youtu.be/qDAHX8KnFz0?si=5STE5GsFS3zNN-w5

sábado, 13 de julho de 2024

O novo ópio do povo

 


"A religião é o ópio do povo..." constatou Karl Marx. Sim, ele estava certo em suas análises e constatações sobre as engrenagens do capitalismo.  O marxismo é uma excelente análise do modus  operandi do capitalismo, não há dúvida. Entretanto, o grande delírio marxista é a solução do problema que essa teoria visa postular: a extinção do capitalismo como crença de que o mundo terá a melhor versão da humanidade. 


O fim do capitalismo significa a redenção da humanidade, seja essa redenção parcial ou plena? Loucura! Os problemas da humanidade são inerentes a ela desde que o mundo é mundo. A humanidade nutre o instinto de acumulação, isto é, a famosa ganância. A hierarquia social também é algo precedente que remete aos primatas e outros animais e não somente ao homo sapiens. Neste sentido não estou fazendo um juízo de valor da hierarquia e da ganância, mas apenas observando esses fenômenos como fenômenos inerentes ao ser humano até o momento. 


E a grande aspiração marxista postulou alguma solução pré-capitalista para esses problemas? Se postulou, quais as possibilidades reais de aplicação dessa solução? Essas problemáticas certamente são árduas  e exigem muita ponderação antes da chegada da esperança de um  mundo melhor. Será possível alcançar o delírio marxista de que se poderia estabelecer algo próximo de um paraíso na Terra? O anarquismo criticou o socialismo justamente por postular que a transição do capitalismo para o comunismo seria bem sucedida ao colocar o Estado como meio de transição sem considerar a iminência de corrupção do proletariado que estaria no controle do Estado. 


Resumindo a problemática: podemos dizer que Marx foi assertivo em sua análise, mas delirante em sua proposta de solução. Marx secularizou a redenção cristã e transformou o marxismo em um potente ópio para o povo que acredita ter consciência de classe, nutrindo a esperança do paraíso na Terra por meio da cartilha da militância e do evangelho de Marx. Antes que a esperança se restringisse a um plano inexistente chamado de céu, pois  assim, após a morte,  a frustração não viria sob forma de amargura.  Mas a esperança foi tida como algo possível de se concretizar neste plano, tomado pela natureza humana hobesiana  que reina sem nenhum pudor e adoece cada vez mais o coração marxista iludido por uma metafísica secular. 


Em resumo rudimentar: o marxismo como solução é uma esperança refinada, mas nem por isso menos errônea e no final: uma ilusão amarga. 


-Gabriel Meiller

quinta-feira, 11 de julho de 2024

A coragem do desenformamento

 

Desenformar, tirar da forma... das formas normativas! As normatividades não são apenas fruto do tão atacado capitalismo e seus tentáculos. As formas estão presentes nos contrasistemas que criticam o próprio sistema vigente. E muitos dos desconstruídos da moral capitalista nutrem sua própria nova normatividade: a da redenção das mazelas do mundo por meio da utopia marxista. Vamos para além de qualquer sistemática moral de todos os espectros: montemos nós a nossa própria concepção de mundo,  pautada em sistemas morais de forma parcial, sem nutrir a obrigação para com os dogmas laicos, visto que não precisamos mais alertar para os velhos dogmas: os religiosos. São os novos dogmas que estão seduzindo os homens seculares de forma avassaladora. 


O desenformamento individual significa a coragem para o indivíduo ser contraditório num mundo que prega harmonia ideológica. Nós, seres humanos, nunca fomos harmônicos em nada, apesar de amarmos nos iludir nessa crença da harmonia. Sim: podemos acreditar na ciência e em demônios; sim, podemos pregar equidade social e sermos egoístas; sim, podemos ser, no limite, hipócritas. E mesmo se não fosse permitido, seríamos mesmo sem almejar ser!  


Tenho orgulho em ser covarde e em admitir a minha covardia em um mundo que prega coragem sem limites e que no final pode liquidar a minha vida. 


Tenho orgulho em ser individualista e egoísta em um mundo que prega a predominância da coletividade até o ponto de esmagar e massificar as individualidades por meio da moral de rebanho e do "tu deves" moralista dos religiosos ou dos marxistas: essas são duas faces de uma mesma moeda. 


Tenho orgulho de ser vagabundo em meio ao espírito empreendedor e à moral puritana de que o trabalho enobrece. Quero a redenção do sistema de opressão trabalhista que faz o trabalhador achar que precisa ser uma massa moldável a todas as decisões dos que batem a meta e depois a dobram só por capricho! 


Tenho orgulho de ser pecador em meio a uma cultura pseudolaica e que mistura constantemente a política pública com a moral religiosa. Quero, sim, ir para o chamado "inferno" e para  "o caminho da perdição" daqueles que acreditam que herdarão novos céus e nova terra após a morte. Vosso deus é o próprio diabo que deixou o inferno para se preocupar com aborto, homossexualidade, fornicação e qualquer asneira que vosso livro prega, não é mesmo? Então nada mais justo que eu vá para onde ele não estará: no inferno. 


Tenho orgulho em não ceder e não vender minhas ambições a qualquer um que queira me amalgamar em alguma visão de mundo que ofereça homogeneidade e harmonização. A harmonização é a morte do ego, a amputação da diversidade, da verdadeira diversidade que nem os marxistas entendem porque nutrem o ideal de harmonia e igualdade social ao mundo.

 

O que mais dizer? A coragem do desenformamento exige uma única renúncia: não renunciar em nada que seja pedido por outrem. Não existe uma renúncia inerente à vida, a não ser a renúncia por quem percebe que ela é necessária e de bom grado para si próprio. 


-Gabriel Meiller 


terça-feira, 2 de julho de 2024

Um sem-vergonha



Sim, sou um belo de um ridículo; daqueles que não tem vergonha e não se interessa pela correção alheia expressa nos olhares de desaprovação ou de caçoamento.  


Sim, eu sou um fanfarrão que não tem pudor em dizer uma coisa e fazer outra. Eu digo: nunca mais... e no dia seguinte estou lá, cultuando meu inferno. Eu digo: sempre amarei, mas em algumas semanas estou fazendo ataques sistemáticos àquilo que amava. 


Eu sou o homem do subsolo, composto por Dostoiévski; perdi as contas de quantos indivíduos me acharam ridículo e eu ainda disse: é verdade! Perdi as contas de quantas vezes voltei com a minha ex; perdi as contas de quantas vezes eu fui cínico só por divertimento e por tédio.  A verdade é que sou isto: contraditório. E deste pecado eu não me privo, pois só se contradiz quem tem direito a mudar de opinião e faz da vida o que ela é: dinâmica. 


E alguns se inquietam com minha inteligência e perguntam: porque você é tão inteligente? E eu respondo: porque eu sou ridículo. E só é inteligente quem não tem medo de sair da tutela dos sensatos da moral da discrição. Só é inteligente quem não tem medo de se perder quando mergulha em diferentes atividades e áreas do conhecimento e de repente se sente em contradição, pois "conhecer" significa lidar com as "contradições do mundo". 


Ah... a maioria é covarde; a maioria das pessoas decepa versões de si  mesmas para que haja uma falsa harmonia: em desejos, em pensamentos, em ações. É por isso que eu sou ridículo: porque em mim habita a complexidade da vida e seus dinamismos! Em mim impera a eterna briga de pulsões e aspectos da vida, como: "sins" e "nãos",  "bons" e "ruins", "lealdades" e "traições", "humildades" e "arrogâncias". 


Aos que concordam com minha loucura, vos ofereço a coragem de serem o que o devir vos oferece. Aos que repudiam minha visão da vida, desejo-lhes um eterno foda-se, pois também são dignos do meu ódio, assim como seriam do meu amor: pois a indiferença é o contrário do amor e não o ódio. O ódio é o amor expresso de forma agressiva e visceral. Nisso também vos amo: odiando-vos e considerando-vos como dignos do combate, do constante confronto do Ágon. 


Eu sou aquele que transcende a dualidade por meio de uma ponte desvirtuosa e detestada pelos sensatos: a contradição. 


-Gabriel Meiller